Rio de Janeiro, 17 anos. Sonha em ser escritora. Ama chocolate e sorvete! Viciada em animes, k-pop, doramas e livros de ficção.
Há um velho poema de Neruda pelo qual eu sempre fui fissurada e uma de suas linhas grudou em mim desde o primeiro momento em que o li. Ele diz “o amor é tão curto, o esquecimento é tão longo.” É um verso que sempre relacionei aos meus momentos mais tristes, quando eu precisava saber que mais alguém se sentia exatamente da forma como eu estava me sentindo. E então, quando estamos tentando seguir em frente, os momentos que nos lembramos não são os piores momentos. São os momentos em que você vê faíscas que na verdade não estavam lá ou em que sente as estrelas alinhadas sem ter prova alguma, vê o futuro antes dele acontecer e então isto escapa sem nenhum aviso. Estes são momentos de esperança e extrema alegria, intensa paixão, pensamento ilusório e, em alguns casos, a inimaginável desapontamento. E, na minha cabeça, cada uma dessas memórias se parecem uma só. Eu vejo estes momentos em brilhante e ardente vermelho.

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– Chame a Dra. Brown! – A enfermeira gritou. – Rápido! Código azul.

O rapaz levou a palma da mão até os ouvidos para tampar e abafar a gritaria em sua volta. Eram vozes difíceis de distinguir e que nunca ouvirá antes em toda sua vida. Os olhos piscavam lentamente e era difícil manter o foco em seus olhos. Ele tentava levantar, mas um peso em seu ombro direito impedia de tal ato, fraco demais não relutou e manteve–se deitado fitando com certa atenção o teto branco e bem iluminado.
Um barulho o chamou atenção e seus olhos foram direcionados para a porta. Ele não reconheceu a moça em sua frente e o barulho era do salto que fazia barulho com cada passo que tal moça dava. Ela aproximou–se dele com um pequena lanterna e abriu um sorriso, com a lanterna perto de seus olhos. Ela disse pela primeira vez:

– Eu sou a Dra. Katherine Brown. Neuro. – Ela aproximou a lanterna perto dos olhos do rapaz que o irritou e choramingou. – Sinais vitais ótimos. – Ela disse em tom alto. – Sabe seu nome?
– Ryan Gosling... – Ele limpou as lagrimas de seu rosto e com ajuda de Katherine conseguiu levantar sentindo uma leve tontura. Ao olhar em volta reconheceu estar em um hospital. – O que faço aqui?
– Era isso que gostaria de perguntar a você! – Katherine andou pelo quarto. – Lembra–se como veio parar no hospital?
– Eu... Era... minha.... Eu.... – Ele tentava lembrar. – Não me lembro. – Completou.
– Traga a ficha dele. – Katherine pediu para enfermeira e a mesma assentiu deixando apenas os dois sozinhos no quarto. – Tudo bem não lembrar como veio parar aqui, mas qual é a sua última lembrança?

A pergunta deixou o rapaz paralisado por um tempo na cama. Sua mente estava vazia, tão pouco conseguia responder à pergunta. Aos poucos, algumas lacunas foram se preenchendo, mas ele tinha que forçar a própria mente para isso. Irritado por não conseguir responder com certeza, Ryan agarrou os fios de seus cabelos loiros enquanto seu rosto ficava vermelho. Katherine olhou preocupada e interviu segurando as mãos do rapaz.

– Fique calmo, Ryan! – Katherine soltou suas mãos. – Apenas diga o que lembra.
– Nomes? – Ele perguntou confuso.
– Pode ser nomes.
– O que aconteceu doutora? Comigo, o que aconteceu? – Ryan pergunta impaciente.
– Primeiro preciso fazer uma avaliação.
– Meu nome é Ryan Gosling, tenho um irmão chamado Lucca Gosling... – Ele sorriu. – Mais velho que eu, alias. Meus pais são Bill e Michelle Gosling. Ambos professores e aposentados. Ah, nós somos adotivos por isso meus pais são idosos já. – Ele riu lembrando dos pais. – Minha família mora na Europa, não tenho muito contato com eles e minha namorada, Eva. Era seu aniversário ontem.
– Ontem? – Katherine perguntou.
– Sim, dois de fevereiro. Seu aniversário. – Ele abriu um sorriso ainda maior. – A última coisa que me lembro é que estávamos voltando para o sitio após comprarmos comida.
– Quem estava com você? – Katherine continuou a questionar.
– Meus pais. – Ele voltou a ficar sério. – Eles estão bem?
– É disso que gostaria de falar com você agora, Ryan.

Katherine abriu as cortinas e sentou na beira da cama. Ryan, por sua vez, olhou para janela e viu pequenos flocos de neve caindo. Pelo parapeito da janela, deu para ver um grande acumulo de neve e lembrou que não era tão comum em fevereiro. Abaixou a cabeça e esperou Katherine preencher sua ficha – uma grande ficha que ele se quer lembrava que tinha, uma vez que ele só lembrava em ir para o hospital quando criança.

– Ryan, o que você lembra como ontem: fevereiro foi há dez meses atrás. Quando disse que era normal não se lembrar como veio parar ao hospital, é porque os pacientes ao recuperar–se do coma costumam não lembrar. Você esteve em coma por dez meses após um acidente de carro com seus pais. – Katherine abriu a ficha. – Aqui está o relato do seu pai: “estava um breu, Ryan mal conseguia ver a estrada naquela hora da noite. Nem os faróis do carro foram capazes de fazer com que Ryan enxergasse a estrada. Nos perdemos. Saímos da estrada e caímos em um barranco. Acho que Ryan estava sem cinto, não sei dizer, ele voou do meu lado para longe e Michelle... ela deve ter morrido na hora no banco de trás. Ela não reagia aos meus chamados e Ryan. Eu não lembro onde Ryan foi parar”. – Katherine ficou em silêncio por alguns segundos observando a reação de Ryan que chorava com a expressão bem confusa. – Sua mãe morreu na hora e você foi encontrado a metros de distância do carro, foi arremessado e passou por uma série de cirurgiãs, ainda assim, ficou em coma. Em abril, você mexeu os dedos das mãos e ficava arrepiado. Seu pai nunca teve coragem de desligar as maquinas. – Katherine sorriu. – Felizmente.
– Onde ele está? – Ryan ainda chorava.
– Estamos entrando em contato. – Katherine suspirou. – Ele não vem aqui há meses.

O rapaz olhou com certa decepção e concordou com a cabeça. Deitou na cama novamente e deixou que as lagrimas caíssem pelo canto dos olhos. A culpa dominou seus pensamentos rapidamente, teria ele matado sua mãe? Era o que perguntava a si mesmo. Katherine escrevia cada expressão do rapaz e fechou sua ficha.

– De zero a dez... Quanto se auto avalia? – Perguntou.
– Oito... nove... – Ele respondeu desanimado. – Oito.
– Você se lembrou do que fazia antes do coma. Isso é muito bom. – Katherine disse entusiasmada. – Os próximos dias serão críticos e você será avaliado. Pedirei exames e você passará pela fisioterapia e psicólogo para mais avaliações. – Katherine sorriu e aproximou–se do rapaz. – Se tudo estiver bem, você sairá o quanto antes.
– Doutora, posso pedir uma coisa? – Ryan elevou a cabeça e encarou Katherine.
– Se estiver no meu alcance.
– Não ligue mais para minha família. – Ele deitou novamente e suspirou.
– Ryan...
– Se for possível, não os quero aqui agora. – Ryan afirmou.
– Tudo bem. – Katherine afirmou. – Pedirei que parem de ligar.
– Eu não quero apoio. Não agora.

15 dias depois...

– Tenho boas notícias para você!

Katherine adentrou no quarto com cinco jovens a seguindo. Todos com uniformes verdes, diferente de Katherine que usava todos os dias um vermelho. Ryan terminou de vestir sua camisa e colocou uma pequena mochila em cima da cama dobrando duas ou três peças de roupas que era de seu pai esquecidas no hospital. O rapaz acompanhou com os olhos Katherine sentar na ponta da cama, fechou sua mochila e prestou atenção na doutora.

– Todos os resultados dos exames deram negativos para sequelas neurológicas, cardiológicas ou infectologias. Você está bem! – Ele sorriu aliviado. – Mas você deverá voltar aqui para mais sessões de fisioterapia para fortalecer seus músculos e evitar que atrofiarão. Além de continuar passando no psiquiatra.
– Está tudo bem, eu gosto do Dr. Adams. – Ryan sorria. – Ele me faz malhar bastante, não é para tanto, fiquei sedentário por quase um ano. – Os auxiliares de Katherine riu, mas ela manteve seriedade. – Pode rir, doutora.
– Tirar sarro do próprio problema é um fator de defesa. Deveria falar isso para seu psiquiatra. – Katherine retrucou e logo abriu um sorriso. – Durante essa avaliação, notei que você está com memória e vocabulário reduzidos e capacidade de leitura lenta. Isso leva tempo para voltar ao ritmo normal. Assim como na fisioterapia, esses fatores neurais também levam tempo e pratica. Recomendo que você volte a ler livros mais simples, conversar mais e até assistir programas televisivos dublado e legendado ao mesmo tempo. – Katherine aproximou–se de Ryan e lhe deu um forte abraço. – Ryan, eu respeitei você até aqui ao pedir que lidasse com essa fase sozinho. Relutei com o conselho sobre dar alta a você, não queria, confesso, mas não tenho alternativa vendo que tudo está certo para você ir... – Katherine respirou fundo. – Nada mais justo que diga qual é seu plano ao sair desse hospital.
– Aqui estão minhas coisas. – Ryan apontou. – A chave da minha casa, minhas roupas... vou para casa e tomar coragem de ligar para minha família. – Ele sorriu. – Pegarei um taxi, fique tranquila.
– Andar pelo hospital, conversar com enfermeiras, ficar no jardim é diferente de encarar o mundo inteiro lá fora. As pessoas não sabem que você ficou deitado por quase um ano. O tanto que perdeu. É perigoso fazer isso sozinho.
– Vamos levar isso como se eu fosse o Arnold Schwarzenegger no Exterminador do Futuro. – Os auxiliares voltaram a rir. – Viu!? Eles acham graça.
– Saiam daqui e vou cuidar dos meus pós–operatórios! – Katherine mandou irritada. – Quem vai ser exterminado na rua é você se não tomar cuidado. – Andou pelo quarto preocupada. – Anote meu número e me ligue se precisar de alguma coisa. Caso tenha olhado no calendário no final do corredor, hoje é véspera de Natal.
– Pretendo comprar um peru bem assado. – Ryan sorriu.
– Tem dinheiro?
– Se o dinheiro não mudou... – Ele riu debochado. – Eu tenho duas Benjamin Franklin e quatro Lincoln’s. – Katherine olhou surpresa. – Eu era bom de história.
– Ainda é. – Katherine afirmou e respirou fundo. – Me diga que não estarei errando em deixar você sair desse hospital?
– Doutora Katherine, sobrevivi três guerras. Uma na Somália e duas na Síria. Já passei por outras cirurgiãs em campo, perdi bons colegas. Não será as ruas com pisca–pisca de Nova York que me colocará em perigo. – Ele tentou tranquiliza–la. – Eu sei me virar sozinho. Só irei para casa.

Katherine hesitou duas vezes ao entregar o papel que autorizava a saída do rapaz do hospital. Ele a abraçou fortemente deixando–a desconfortável, mas logo ela retribuiu com um sorriso. A hesitação em virar as costas para Ryan é devido ao fato de ser um dos primeiros casos que Katherine pegou ao virar atendente do hospital e a responsável pela maioria das cirurgias que o rapaz fez ao chegar ferido na época. A cirurgiã separou o abraço com dois tapas leve nas costas do paciente que colocou sua mochila nas costas. O sorriso estava estampado no rosto do rapaz que tentava passar o máximo de confiança para Katherine, por dentro, Ryan sentia certo frio na barriga.
Diferente de qualquer paciente, Katherine ajudou Ryan a sair do hospital e despediu do rapaz ao entrar no taxi.

– Não hesite em me ligar! – Ela disse pela janela do carro. – E não extermine ninguém.
– Ah.... – Ryan deu uma alta gargalhada. – Você tem bom humor!
– Até mais, Ryan. – Katherine acenou e o carro deu partida.

No banco de trás, Ryan passou o endereço de sua antiga casa para o motorista. O transito já era nítido em Nova York. Não é para menos, véspera do natal e as pessoas com toda correria, os olhos de Ryan brilhavam ao olhar pela janela e ver tão pouco essas coisas mudaram. Sentia–se arrepiado ao lembrar que era ele andando às pressas na rua. A sensação de voltar para NY se repetia cada vez que ele voltava do exército. Não era diferente, apesar de tudo ter mudado.
Ele abriu sua bolsa e pegou um pequeno caderno que achou em uma das gavetas do hospital. A primeira página era com a caligrafia da Dra. Brown, com instruções a serem seguidas. As próximas nove páginas eram com a caligrafia quase que ilegível do pai contando alguns fatos da vida da família, principalmente de Ryan. Coisas que ele gostava do filho e que poderia ajuda–ló quando acordasse, pelo visto, a esperança não era muito pensava Ryan. Os restantes de páginas preenchidas eram de Ryan, assinando e registrando tudo que lembrava antes do acidente, angustias, dificuldades. Para sua felicidade, uma boa parte de dificuldades já estavam preenchidas. Mas sempre relia para praticar o ato de leitura e não perder nada em suas memorias frágeis.
Mas o que chamava mais sua atenção era o trecho, o último trecho preenchido por seu pai sobre sua namorada, Eva. Desde que acordou e achou o caderno, era o que Ryan sempre voltava a ler. O trecho que seu pai relatava o sumiço de Eva e um suposto novo relacionamento que ela se envolvera. As palavras de seu pai eram as mais claras possíveis, não restava qualquer dúvida: “Tentei entrar em contato com Eva durante as últimas semanas, ela desapareceu. Veio poucas vezes ver sua situação, era sempre crítica, dura. Tirou suas coisas de sua casa. Não tem esperança alguma. Como ter? Cada dia sem sua mãe, sem você é uma facada em nosso peito. As coisas foram repentinas demais. Pedi para que seu irmão fosse atrás dela, conseguisse uma localização, uma resposta. Ele achou, ela não quer mais contato. Sem dar total satisfação, seu irmão soube que ela está em outro relacionamento. Um mais sério. O rapaz é boa pessoa, presente com ela. Não sei o que dizer, filho. Preencher esses papeis todos, você não está lendo. Sabe lá onde está. É difícil manter a esperança, ficar por perto. Eu a entendo. Não queria, mas entendo”.
Ryan limpou as lagrimas que escorreram e ao olhar para janela, o taxi já tinha avançado a metade do caminho. Ele poderia enxergar a rua que morava a quilômetros de distância. Sentiu um leve arrepio na barriga, apesar de não ter a noção do tempo que perdeu, Ryan sentia–se nervoso em voltar para casa e, dessa vez, ninguém estava te esperando com braços abertos.

***

Com passos curtos e arrastando a neve alta que chegava quase em seus tornozelos, Emma forçava os passos enquanto virava a esquina de sua casa. Com um grande casaco marrom que tão pouco combinava com sua bolsa amarela, Emma levou sua mão esquerda ocupada por uma sacola com enfeites de natal ao rosto e coçou seus olhos. Ela parou em frente à sua casa e retirou sua chave no bolso da frente, na sacola de enfeites, Emma retirou uma guirlanda de natal feita por uma velha amiga. Não era um costume que Emma costumava a seguir, ainda mais morando sozinha por pouco tempo, não encontrou tempo para enfeitar sua casa ou fazer uma arvore. Mesmo nunca tenha gostado de fazer isso, mas sua amiga Taylor adorava o clima natalino e deu enfeites novos para Emma que se comprometeu a usa–lós.
Ao apoiar certo peso na porta, ela reparou uma pequena fresta aberta. Seu coração começou a palpitar forte, sentiu sua pele ficar mais pálida do que o habitual e suas paranoias ganharam mais força em sua mente antes mesmo de saber o que tinha acontecido. Ao olhar em volta pela rua deserta, Emma respirou fundo repetidas vezes e abriu sua bolsa pegando dois itens que carregava junto a si, mas nunca usado.
Colocou seus dedos na porta e abriu um pequeno espaço, mas suficiente para passar em silêncio. Sua casa começa em um pequeno cômodo de recepção que só continha uma mesa usada para colocar suas chaves e correspondências, dois corredores nas laterais que davam na cozinha e na sua esquerda a escada para o segundo piso. Ela tentou caminhar lentamente pelo corredor e bastante atenciosa, evitou qualquer barulho. Apesar do seu coração disparar em seu peito, ela repetia a si mesmo para manter sua confiança.
Ao olhar por trás do armário escondida, não viu nada diferente do que tinha deixado mais cedo ao ir trabalhar. Um alivio em seu peito, ela deixou sair todo o ar que afligia. Não durou muito, no piso de cima, Emma ouviu certos passos e uma voz singular masculina. Seu medo voltar a domina–lá, agora não era nenhuma paranoia que ela costumava inventar em sua cabeça sobre invasões. Tinha alguém na sua casa.
Seguindo os passos do indivíduo com os olhos vidrados ao teto, Emma soube que ele voltará a descer as escadas. Andando de um lado para o outro, Emma não sabia para onde ir. Ali não tinha nenhuma saída. Ela respirou fundo e grudou seu corpo no armário e aguçada sua audição o tanto que pode. Seguindo som que vinha em sua direção, Emma fechou os olhos e apertou um pequeno botão do aparelho que segurava firmemente. Ao abrir os olhos, a mão de Emma grudou como um imã no corpo do seu invasor que estremeceu seu corpo até cair no chão apagado. Apavorada com sua bravura e, talvez, estupidez, Emma largou o aparelho de choque no chão e observou de longe o rapaz desmaiado.
Com dois chutes leves, Emma verificou se ele realmente estava apagado. De fato, estava. Ela ajoelhou no chão, afastou aquele bendito aparelho onde que acabará de fazer uma rápida promessa de fazer de não voltar a usá-lo novamente, Emma verificou se o rapaz ainda respirava. Por alivio, sim ele também estava vivo. Apenas desmaiado. Agora, seu coração estava pouco mais aliviado. Levantando–se do chão, Emma observou o corpo e andava de um lado para o outro apressada.

– Pensa no que fará, Emma. – Repetia a si mesma. – O que fará agora, Emma!

Parou por um impulso, fazendo com que seu corpo pulasse. Ela voltou a aproximar–se do rapaz, reparou nos detalhes no rosto e reconheceu.

– Meu Deus...

Ela levantou e correu para debaixo da pia, pegou uma caixa de papelão e a colocou em cima do balcão. Ao abri–lá, um cheiro de mofo tomou conta de sua rinite, mas ao pegar um pequeno quadro amadeirado da caixa, Emma pode comparar e reforçou a promessa de nunca mais usar aquela arma novamente. Ou na próxima, ligar para a polícia.

– Ryan Gosling. – Pronunciou em voz alta, ainda comparando a foto com o rapaz jogado no chão. – Antigo dono daqui.

Em questão de segundos, Emma já lembrará de tudo que soube nos últimos seis meses. Ela era um amor de pessoa, por isso, qualquer acontecimento já a deixava completamente arrependida, mesmo que não fosse necessário. Sua consciência já deu sinal de um grande peso ainda sobre ela.
Ela pegou o rapaz pelos braços e arrastou ele lentamente pelo chão de madeira, passando por um corredor e entrando em sua pequena sala de estar que ficava ao lado da entrada de sua casa. Suando e sem força alguma, Emma conseguiu colocar o rapaz deitado no sofá e sentou em uma poltrona afastada.
Observando o rapaz, Emma levantava algumas vezes pensativa no que deveria fazer a seguir. Se o rapaz acordaria bem ou se ele tentaria atacar ela. Era uma boa possibilidade. Logo, Emma buscou um taco de beisebol – que, talvez, por ironia do destino, pertencia mais ao Ryan do que de Emma.

***

Passou cerca de três horas, começará a escurecer em Nova York e Emma permitia que seus pensamentos voassem por qualquer coisa aleatória. Sua atenção voltou ao observar que, finalmente, o rapaz começará a acordar. Os olhos dele abriram lentamente e ele colocou a mão no peito, soltando um pequeno gemido.
Ryan olhou em volta dolorido até avistar Emma, pouco sem–graça. Ele levantou e sentou–se no sofá com a mão passando por seu peitoral. Aquele choque ainda doía em seu corpo, ele respirou fundo.

– Você.... – Ele olhou para Emma, sua voz estava rouca. – Quem é você?
– Emma. Emma Stone. – Ela sorriu tímida.
– O que fazia na minha casa? – Ryan coçou seu cabelo.
– Essa é minha casa! – Emma afirmou com precisão.
– Sua? – Riu debochado. – Quem é você, Emma?
– Não deveria explicações a você, mas eu admito que olhei suas coisas. E você está tão confuso quanto eu com essa situação. – Emma levantou com o taco na mão.
– Não irei te machucar. – Ryan revirou os olhos e relaxou no sofá.
– Você serviu o exército, é um militar. Tenho certeza que é capaz de agarrar meu pescoço em segundos e com isso, estou mais confiante em deixar você sentado aí. – Apontou para Ryan.
– Emma, certo!? Você me derrubou com uma máquina de choque.
– E você estava em coma. – Retrucou. – Por isso deve saber que seu pai me vendeu essa casa já faz seis meses. A vista!
– Ele vendeu minha casa?

Aquela informação acertou Ryan em cheio, seu rosto e seu coração encheu–se de decepção. Era nítido para Emma que o rapaz era mais inocente do que ela pensava. Ryan passou a mão no cabelo e ficou quieto por alguns segundos, Emma o observou atenta.

– O que mais você sabe? – Perguntou Ryan, levantando do sofá ainda com dor.

Emma levou um leve susto, por mais que tentou não transparecer, ele viu que ela ainda o temia.

– Que vocês sofreram um acidente e sua mãe morreu e ele vendeu essa casa porque sua ex–namorada não a quis. – Emma falou rapidamente, não permitindo que Ryan pudesse filtrar todas as informações. – E seu pai disse que iria para Inglaterra morar com seu irmão.
– Lucca. – Ryan ainda estava confuso. – Inglaterra...
– Você está bem, Ryan? – Emma se aproximou.
– Sim, sim, estou bem. – Ryan levantou–se e andou pela casa. – Eu... eu não sabia que meu pai vendeu minha casa e eu lamento ter deixado você com medo.

Pegou sua bolsa que havia deixado debaixo da mesa e colocou nas costas. Olhando pela última vez a casa, Ryan respirou fundo e abriu a porta, assim, saindo da casa sem olhar para trás ou falar outra palavra. Emma passou o trinco na porta e relutou contra si mesma, mas seu impulso falou mais alto – como sempre.

– Ei, Ryan! – Ela gritou na porta de casa.

A neve havia engrossado, ela voltou para dentro e vestiu sua jaqueta. Ao voltar, Ryan continuará andando, sem ao menos olhar para trás. Emma fechou a porta de sua casa e seguindo com passos rápidos Ryan.

– Sei que está atrás de mim, Emma.
– Eu estou preocupada.... Com você. – Ela disse sem jeito. – Sinto muito dizer as coisas daquela maneira, mas eu não sei se posso deixar você sair andando por aí sem nenh...
– Você não me conhece. – Ryan a interrompeu.
– Mas eu conheci seu pai, ele foi amável comigo. Atencioso! E eu olhei sua bolsa para ver se não estava armado. Eu vi que levou alta hoje do hospital, sua família não sabe disso, não é? Se não, eles estariam aqui ou você não teria vindo direto para cá.
– Quando entrei no meu quarto, logo percebi que você era jornalista. Estou errado?
– Você também não está errado. – Emma bufou. – É natal, não tem para onde ir hoje.
– Acho que você está arrependida de ter me dado uma grande descarga de choque e preocupada se eu morrer na próxima esquina. – Ryan sorriu. – Não vou morrer.
– Não é isso. Quer dizer, isso também! Mas, pelo menos, ligue para sua família e diga que você acordou, voltou a vida e eles não irão te renegar.
– Desistiram de mim.
– Me lembro do Sr. Bill. Não foi fácil para ele vender, ele deve estar preocupado. Ficaria se soubesse que você voltou dos.... Mortos? Não sei, em coma não chegam a morrer.

Emma estava confusa em suas palavras fazendo com que Ryan ficasse ainda mais confuso de entender. Ele compreendia tudo que ela dizia, do seu jeito rápido de dizer as palavras como se o mundo fosse acabar em poucos instantes.
Os olhos grandes e esverdeados de Emma encarava Ryan, que também a encarava, mas sem repara–lá por completo, apenas tentando entender cada palavra que ela disse nos últimos minutos.

– Não tenho telefone. – Deu meio sorriso.
– Use o meu! – Emma ofereceu com um sorriso no rosto. – Ligue para eles.

Respirou fundo e seguiu Emma até a casa novamente. Ele se lembrava de onde ficava o telefone da casa – na cozinha, no lado do fogão. Ele encarou por alguns minutos o aparelho forçando sua mente a lembrar dos números. Os números que, por lei da vida, somos obrigados a decorar. E de seu irmão era um deles.
Quando sentiu uma certeza, Ryan discou o número. Olhou para trás e Emma estava distraída mexendo em duas ou três caixas, suas caixas –que Emma guardou na esperança de que Sr. Bill voltasse para buscar. Ela olhava as coisas de Ryan por cima, sem explorar muito. Por maioria, eram fotos – que, felizmente, ajudou Emma a reconhecer o estranho. Havia medalhas, diplomas, honrarias e roupas.
Após discar três vezes o número e cair na caixa postal, Ryan não tinha certeza se estava certo ou não do número discado. Na quarta vez que caiu na caixa postal, ele optou em deixar um recado:

– Lucca, aqui é o Ryan. Seu irmão. Não é uma brincadeira, então, não desligue. Eu não sei se acertei seu número ou se você não atende mais por esse. Também não sei o que farei amanhã ou depois, mas eu acordei e estou ciente de tudo que aconteceu nos últimos meses. Não tenho mais nada, Lucca. Vocês desfizeram de tudo que eu tinha e me deixaram no hospital, então, eu conheci a garota que comprou minha casa. Ela me ajudou por essa noite e provavelmente amanhã já não estarei aqui, então.... É isso, eu acordei, estou vivo. E sinto saudades de vocês. Feliz natal, Lucca.

Ryan manteve sua cabeça baixa por um tempo e respirou fundo, criando coragem para dizer que está tudo bem. Ele sentia que Emma atrás de seus ombros receosa.
E não estava errado, ao virar para Emma – com um sorriso falso no rosto, Ryan repetiu que estava tudo bem. Mas era claro, estava sem graça.

– Está tudo bem? – Emma aproximou–se.
– Sim, está. – Ryan sorriu. – Obrigado por isso, Emma. Amanhã tentarei ligar novamente para ele.

Ryan olhou para as caixas e pegou um quadro com ele e sua antiga namorada, Eva. Os dois abraçados juntos, com sorrisos estampados. Quem diria? Ele pensava consigo mesmo. Tudo mudou. Ele pensa que foi da noite para o dia, mas para as pessoas que o cercavam mudaram por meses. Longos meses. E Ryan tentava compreender essa parte, mas a sensação de abandono não sai do seu peito. Ele sempre soube se virar sozinho, mas nenhuma das suas experiências. Nem das mais sangrias guerras que já participou, se sentiu tão isolado como agora. Não era cedo para afirmar, mas Ryan é quem foi exterminado pelo seu passado.

– Quer saber... – Emma seguiu Ryan pela casa e parou ele no corredor. – Não sou uma pessoa com bom espirito natalino, mas eu acho que podemos fazer alguma coisa essa noite. Eu não tenho compromisso e eu sei que você também não tem.
– Acho melhor não, é melhor eu ir embora.
– Para onde? – Emma questionava. – Se não ficar por você, fique por mim. É claro que eu não esperava isso hoje, mas aconteceu e se você partir agora irá me deixar preocupada.
– Você sabe que eu não tenho para onde ir. – Ryan concordou com a cabeça.
– Então.... Minha amiga fez alguns doces natalinos como esses biscoitos em formato de boneco que eu tenho agonia de comer e frango frito de ontem. Não é nada natalina porque eu não comprei nada disso, o mercado estava cheio demais e um chester não vale a pena para esperar. – Emma ficou quieta. – Você come frango?
– Levando em conta que eu não como nada desde que sai do hospital. Eu como qualquer coisa que você me oferecer.

Os dois foram até a cozinha e Ryan tirou suas caixas de cima do balcão levando–as para o canto da parede. Ele deu uma última olhada e voltou para buscar um objeto que lhe chamou atenção – o seu dog tag. Ele a pegou e apertou em suas mãos permitindo que as lembranças da época que servia viessem com força.
Ao tentar disfarçar toda a distração de Ryan, Emma limpou a garganta e abriu sua geladeira para buscar os ingredientes necessários para uma receita simples que sabia de cabeça. Ela olhou Ryan pelo canto do olho e tentou não o julgar – imaginando o que poderia estar passando em sua cabeça.

– Como foi para você lá? – Ryan quebrou o silêncio.
– Lá? – Emma se fez de desentendida.
– O colar no seu pulso. – Ele apontou com os olhos. – É como minha corrente e aí está escrito o código da Somália, certo? Você serviu lá como humanitária ou foi como jornalista?
– Ambos. – Respondeu de maneira seca.
– Não gosta de falar sobre isso. – Ryan respirou fundo e pegou uma faca. – Eu também não falava muito das minhas experiências... – comeu um pedaço de frango. – Para ninguém, nem para Eva. Mas em um momento da minha vida, toda aquela coisa me sufocou.
– Provavelmente não vi o que você viu lá.
– Mas se você foi até lá, é o suficiente para voltar diferente, mais fria. Não é?
– Exatamente desse jeito.
– Você conta sua história se eu contar a minha? – Ryan sorriu e Emma concordou. – Bom, tudo começa nos meus doze anos quando eu e meu irmão fomos adotados por um casal de quase idosos. Meu pai se apaixonou por Lucca desde a primeira vez, já eu fui um fardo para ele carregar, não tínhamos aquele mesmo amor, mas para levar Lucca eles tinham que me levar junto. O meu pai serviu sua vida inteira e vem de uma família de patriotas que de uma maneira ou de outra, também serviram em algum ponto da vida. Foi no Irã que ele conheceu minha mãe, ela era cozinheira para os militares. Como ele era, mas nunca tiveram tempo para terem filhos e como filho único, meu pai queria adotar. Então fomos adotados, fomos para uma pequena fazenda no interior de Nova Jersey e crescemos lá com educação caseira, aprendemos a lutar e atirar, além de caçar.

Ryan parou por alguns segundos, manteve uma expressão séria e continuou.

– Eis que aos nossos 21 anos, eu resolvi falar a verdade para meu pai contrariando até mesmo minha mãe. Eu contei que eu não queria ir para academia, servir meu país. Eu nunca quis isso, não tive uma opção do que eu queria. O que eu realmente queria era ter qualquer profissão e construir uma família, ser amado. Mas amado de verdade. É claro que ele odiou ouvir tudo aquilo, me ouvir dizer tudo que eu disse. Ainda lembro das suas palavras “você é uma vergonha para os Gosling, Ryan”. E ainda assim, nós fomos para a academia e por certa surpresa, me sai melhor que Lucca. Por conta disso, fomos, pela primeira vez, separados em missões diferentes. Passamos três anos, eu no Iraque e ele no Vietnã. Na segunda missão, quando nós dois iriamos para o Irã juntos, Lucca sofreu um atentado. Era uma armadilho que lhe custou uma perna. Desisti de tudo para voltar para casa com meu irmão que não queria mais saber de viver, não aguentava olhar para si mesmo ou para mim, que não estava com ele naquele momento. E então, meu pai disse que eu, a vergonha da família era quem deveria ter perdido a perna porque eu não queria ir e ser um Gosling. Já tinha conhecido Eva, ela disse para desistir e me aposentar, mas eu queria provar a ele que eu era digno do amor, da atenção que ele nunca me deu. Então, eu voltei de novo, de novo e de novo para provoca–lo, para força–lo a me aceitar e cada vez que eu ia até um campo de guerra, percebia que eu estava vivendo por ele e nunca por mim. Por 31 anos, eu nunca vivi por mim, mas eu sobrevivi a tudo. Menos a um acidente de carro e com a oportunidade de ter se livrado de mim, ele abriu mão de tudo que eu conquistei.

O silêncio tomou conta da cozinha, as palavras de Ryan foram tomando cada vez mais raiva. Não tinha o que dizer para aquela história, era tudo o oposto do que Emma imaginaria.

– Eu me formei em primeiro lugar onde estudei e perdi minha mãe no onze de setembro, desde pequena eu pesquisei cada detalhe daquele horror que foi e como aconteceu, como permitiram que acontecesse. Achei uma empresa de armamento bélico chamada General Dynamics que por pura ironia da vida pertence a uma amiga em comum que tenho. E eu vi toda a sujeira que tinha dentro dela e como eles financiavam terrorismo e guerras em nome da paz. No mesmo mês após minha formatura, eu peguei todas as informações que eu tinha e fui como humanitária até a Somália para gravar um documentário e conseguir provas para incriminar GD e tudo o que fez. Mas você saber o que acontece lá para ver o que acontece são coisas bem distintas. O que eu presenciei nos meses que fiquei... não aguentei e eu vim embora sem olhar para trás. Eu fui uma péssima humanitária, percebi que eu tinha ganancia demais e interesse particulares. Não era para mim, eu não aguentei e ao voltar, lancei meu documentário de maneira anônima na internet. – Emma deixou escapar uma risada frouxa. – Foi notícia nos jornais de todo mundo, mas a GD conseguiu silenciar todo o meu trabalho em poucas semanas e muitos podem dizer que foi coincidência, mas houve atentados onde eu gravei. Ou seja, eu fui responsável por vidas e não consegui o que eu queria. Como conseguiria?
– Você pensou em centenas de pessoas que morreram em 11.09 e você tentou, pelo menos, tentou e conseguiu. Não é sua culpa se o mundo prefere fechar os olhos para essas coisas. Eu matei pessoas em nome do Governo, eu ainda consigo sentir o sangue de pessoas que só queriam comer escorrendo no gatilho que eu apertei. Eu cumpri ordens, sou uma má pessoa por isso? Provavelmente sim, mas é o modo que o mundo funciona. É você lutou contra.
– Perdi tudo por isso e está tudo bem. Sinceramente, eu estou melhor agora sabendo que eu tentei e perdi uma batalha fadada ao fracasso. – Emma deu risada. – Agora eu escrevo sobre reclamações locais e quadros de curiosidades no jornal em que trabalho.
– Me dê uma curiosidade.
– Se um tubarão ficar de cabeça para baixo, ele entra em coma.
– Certo. – Ryan riu. – Entendi o que quis dizer.
– Você ficou de ponta cabeça, Ryan?
– Não, eu fui atirado no meio da floresta. Estou mais para um lobo.
– Sem dúvidas é um lobo solitário.
– Agora nós somos amigos?
– Acho que em um dia nós fomos de completos desconhecidos para quase amigos. Eu te bati, eu arrastei você pela casa, ajudei você, contei coisas para você, você contou sua história, agora eu tiro sarro do que aconteceu com você para descontrair. Tudo em um dia.
– E vamos passar o natal juntos.
– Sim, natal junto com um desconhecido. – Emma riu. – Meu pai surtaria se soubesse.
– Porque não está com seu pai essa noite?
– Ele tem uma nova família com uma mulher da minha idade. – Emma deu de ombros.
– Parece que você não gosta disso.
– Ela era professora de hidroginástica dele. – Emma fazia careta.
– É, isso soa um pouco ruim. – Ryan não conteve a dar risada. – Imagino que Eva também tenha casado com outro. Provavelmente nem se lembra de mim.
– Ryan.... Você sofre da síndrome do complexo de vira–lata. É claro que ela lembra de você, mesmo que ela tenha seguido em frente. Quando se ama uma pessoa, apesar dos obstáculos, você não esquece.
– Você ama alguém?
– Eu? – Emma voltou a se fazer de desentendida.
– Sim, você. – Ryan esticou seu braço e pegou um biscoito. – E acho que sim.
– Você entrou no meu quarto mais cedo. Devo elogiar o fato de você ser muito observador.
– Eu sou. – Ele sorriu. – Ele tem nome?
– Andrew.
– Cadê o Andrew?

Emma encarou Ryan e se aproximou dele bastante atenta.

– Assim como Eva, Andrew seguiu em frente.
– Oh, certo. É um assunto que te incomoda.
– Claro que não. – Emma fingiu não se importar. – Ele disse que esperaria por mim, mas seguiu em frente. Quando eu voltei, ele voltou para mim, mas engravidou outra e eu não queria fazer parte dessa novela.
– Mas ainda tem fotos com eles?
– Não tive tempo para tirar da moldura e não gosto de deixar as molduras em branco.
– Quer que eu tire para você ou prefere fazer sozinha.
– É impressão minha ou você está flertando comigo? – Emma deu risada.
– Estou, para ser sincero. Pelo menos tentando ou perdi o jeito com isso.
– Não precisa dar desculpas, você já deveria ser ruim com isso antes de tudo.
– Então não vai funcionar, não é?
– Vou tirar Andrew da minha cabeceira. – Emma saiu andando. – Venha ser uma testemunha de que eu não ligo mais para uma foto qualquer.

Ela subiu as escadas na frente e foi em direção ao seu quarto que era a última porta do corredor. Procurou o retrato – uma selfie dela e Andrew juntos no dia de sua formatura. Encostado na parede da porta, Ryan assistiu Emma tirar com rapidez a foto do retrato e levar até o lixo.

– Viu? Pronto. – Ela sorriu.
– Quando eu for embora, irá voltar para onde estava.

Emma sentiu–se desafiada e deixou sair um sorriso malicioso, ela pegou a foto novamente e entrou no banheiro dando descarga na foto atirada na privada.

– Agora não tem volta.
– Você é corajosa! – Ryan sorriu. – Não estava falando sério.
– Aposto que não conseguiria fazer isso. – Fechou a tampa do sanitário. – Você ainda ama ela.
– Mais ou menos. – Ryan seguiu Emma pelo corredor. – Meu pai relatou que ela me deixou do dia para noite. E eu não a culpo, você não faria o mesmo? Pelo Andrew?
– Acho que não, nós tínhamos um amor de universitário, mas se eu amasse, de fato, uma pessoa. Talvez eu fosse embora, mas eu voltaria sempre para saber se mudasse um quadro ou não sei, mas eu não deixaria as pessoas para trás.
– Só vivendo para saber, não é? – Ele riu sem graça.

Eles desceram as escadas novamente, Emma foi até a sala e ligou a televisão que apresentou o logo da netflix, Ryan sentou na ponta do sofá com o controle na mão esperando Emma voltar com o balde do que sobrou de frango frito. Ela se jogou no sofá com mais intimidade e tomou o controle em sua mão de Ryan.

– Já existia netflix há mais de um ano atrás, já assistiu alguma coisa?
– Eu estava na primeira temporada de stranger things. – Ryan olhava para tela.
– E já saiu a segunda temporada. – Emma sorriu. – Eleven está viva e bem badass.
– Obrigado pelo spoiler. – Ryan ficou mais à vontade no sofá.
– Amanha quando você sair por essa porta irá receber mais spoilers do mundo, todos assistiram a segunda temporada. Provavelmente, na semana de lançamento.
– E eu direi que estava no mundo invertido. – Tirou sarro.
– Oh Deus, você é o Will. – Emma soou irônica. – Por consideração que hoje é natal e eu tirei o dia para fazer coisas boas, eu vou voltar para a primeira temporada.

Ela manuseou o controle e encostou ele no meio do sofá voltando a deitar com as pernas dobradas e o balde de frango em seu colo. Aos poucos, Ryan se sentiu com mais liberdade de deitar ao lado de Emma. Os dois comiam e assistiam com bastante atenção a série.
Num pulo, eles se assustaram com alguns fogos de artificio. Emma sentou no sofá e puxou a cortina olhando para o céu e depois olhou para o relógio no seu celular. Indicava meia noite, era Natal.

– Feliz natal, Ryan. – Emma sorriu.
– Feliz natal. – Retribuiu.

Os dois deram um rápido abraço permitindo que a boca de Emma encostasse bem próximo dos lábios de Ryan. Os dois se entreolharam surpresos, os dedos de Emma deslizaram pelo rosto de Ryan buscando sentir mais detalhes, o rapaz ficou imóvel fitando os olhos verdes e sempre arregalados de Emma.
A aproximação lenta entre os dois deixando seus lábios poucos centímetros de distância permitiram que Ryan a puxasse para um beijo lento e intenso. O corpo de Emma se levantou e deitou por cima de Ryan – que alisou os cabelos ruivos da moça. Ao afastar–se por alguns segundos antes de voltarem a se beijar mais uma vez, Emma sorriu para Ryan.

– Quem diria que terminaria nisso.... – Ryan sussurrou no ouvido da garota enquanto beijava sua nuca.
– É.... – Deixou escapar como um gemido, seu corpo ficará arrepiado. – Meu pai me mataria por isso também.

Emma beijou Ryan mais uma vez. Os toques ficaram mais intensos e os beijos deixaram de serem tímidos. Por um momento, Ryan afastou o rosto de Emma – olhou–a por completo.
Ela puxou a cortina para fechar novamente e sentou no mesmo lugar que estava, os dois se olharam algumas vezes sem dizer uma palavra. As respirações de ambos ficaram ofegantes deixando o ambiente quente. Emma puxou uma almofada e apoiou na sua perna, ela pegou no pescoço de Ryan dando um rápido beijo e permitindo que ele deitasse em seu colo – assim fazendo, Ryan deitou no colo da moça aceitando as caricias dela pelos seus cabelos.
Não demorou muito para que os dois adormecessem no sofá.

***

Emma despertou assustada com o telefone tocando no outro cômodo. Ela sentiu um peso no seu colo – era a cabeça de Ryan. Com cuidado, ela levantou deixando–o dormindo e correu nas pontas dos pés para atender a chamada.

– Ryan?
– Quem está falando? – Emma coçou os olhos.
– É Lucca, o irmão de Ryan. Recebi um recado desse número, ele estava doente e eu quero saber se ele ainda está por aí.

A moça ficou muda por alguns segundos e olhou Ryan acordando lentamente no sofá, no telefone o rapaz continuava a dizer coisas que Emma parará de prestar atenção.

– Ele ainda está aqui! – Ela respondeu. – Aliás, eu sou Emma. Quem comprou a casa e acolheu Ryan essa noite.
– Posso falar com meu irmão? Meu Deus, ele está vivo!

Emma sentiu–se completamente ignorada e apoiou o telefone no pequeno balcão. Ryan já havia calçado seus sapatos quando Emma foi busca–lo na sala.

– Seu irmão está no telefone. – Ela sorriu. – Ele retornou.

O sorriso que Ryan estampou no rosto era invejável, ele correu para o telefone e apoiou a mão na parede. Ele respondia o irmão com palavras “sim, estou vivo!” ou “sou eu mesmo”.
Deixando ele a vontade, Emma foi até a cozinha e tirou uma cartela de café e colocando sua chaleira no fogo. Ela ainda conseguia escutar Ryan no telefone, mas preferiu não prestar tanta atenção. Prendeu seu cabelo e sentou na cadeira olhando atenta para chaleira.
Em poucos minutos, Ryan procurou Emma pela casa e a encontrou na cozinha.

– Era meu irmão. – Disse de maneira óbvia, mas não sabia onde começar a contar. – Eles passaram o natal em outro lugar, mas irão me buscar. Pegarão um voo ainda hoje e eu vou para casa do meu pai aqui esperar, eles me ajudarão a resolver as coisas.
– Que bom! – Emma comemorou. – E você vai morar com eles?
– Ainda não sei, talvez eu precise até resolver minha vida novamente.
– Fico feliz por você, Ryan. – Ela levantou e deu um forte abraço. – Espero que as coisas sejam diferentes para você, melhores do que lembra.
– Do que está falando, Emma!? Nos veremos novamente, eu voltarei aqui.
– Voltará? – Emma deu risada, era uma das suas debochadas.
– Prometo bater na porta dessa vez. – Ryan jurou com os dedos.
– Acho que é valido uma boa sorte a você. – Emma o levou até a porta. – Nos despedimos aqui?
– Acredito que, por ora, sim. – Ryan não resistiu e beijou o rosto de Emma.

Os dois deram um abraço mais íntimo.

– Eu vou para casa agora... não essa, a outra casa.



5 comentários:

  1. Amei! Já disse e repito: você escreve as melhores mini fics!
    Essa foi tão boa que deixou um gostinho de quero mais!
    Parabéns!

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    1. Fico muito feliz que tenha gostado.
      Eu escrevi com muito carinho. Posso dizer que esses personagens irão aparecer na minha proxima fanfic Sad Beautiful Tragic.
      Muito obrigada.
      Beijos, Mirela.

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    2. Que bom que os veremos novamente! Ansiosa para a próxima fanfic.

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  2. Adorei a shot como sempre adoro e gosto quando vc sai de uma fic policial e faz romance
    me apaixonei mais pela Emmma e eu fiquei com mta dó do Ryan o tempo todo gostei de tudo msm

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    1. Fico feliz que tenha gostado. É sempre bom mudar e aceitar na area de conforto.
      Meu melhor não é romance, mas estou gostando de escrever.
      Os dois são uns anjos e eles estarão numa proxima fanfic minha.
      Acho que vai gostar.
      Beijos, Mirela.

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