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19 de julho de 2026

dancing with the devil | 14° Capítulo.


Depois do almoço, Rachel mal conseguiu permanecer sentada até o fim da sobremesa. Mal pousou o garfo sobre o prato e já olhava para a mãe com uma ansiedade impossível de esconder, balançando discretamente as pernas sob a cadeira.

— Podemos ir agora?

Katheryn ergueu os olhos do tablet onde respondia alguns e-mails. Sorriu ao perceber a inquietação da filha.

— Tão animada assim?

Rachel assentiu com tanta força que fez o rabo de cavalo balançar.

— Você disse que o papai estaria no estúdio.

— E está.

— Então vamos!

Katheryn fechou o tablet com calma, organizando mentalmente o restante da agenda antes de voltar a olhar para Taylor.

— John avisou que estaria em ensaio a tarde inteira. Vocês podem passar lá por uma hora.

— Você não vai?! — Rachel questionou.

— Hoje não, querida. Surgiu um imprevisto nas doações da peça e preciso resolver até o fim do dia, mas na próxima iremos juntas. — sorriu. — Mas, por favor, comporte-se.

Rachel levantou-se da cadeira antes mesmo da autorização terminar.

— Eu prometo!

Katheryn voltou-se para Taylor.

— Leve-a. O motorista já foi avisado.

Taylor apenas assentiu, embora por dentro sentisse o coração acelerar de maneira completamente diferente da de Rachel.

O estúdio. Desde que começara a trabalhar para os Mayer, aquele lugar existia como uma lembrança distante e, ao mesmo tempo, como um objetivo silencioso. Sabia que boa parte da vida profissional de John acontecia ali, onde ensaios eram preparados, reuniões aconteciam longe da imprensa e antigos registros permaneciam guardados. Durante semanas imaginara inúmeras formas de voltar até aquele prédio sem levantar suspeitas.  Agora simplesmente entraria pela porta principal.

O caminho foi tomado quase inteiramente pela voz de Rachel.  A menina ocupava o banco traseiro ao lado de Taylor e parecia incapaz de conter a empolgação.

— Você acha que vai ter muitas bailarinas?

— Bastante.

— E músicos de verdade?

— Também.

— Eles usam aquelas saias enormes?

Taylor sorriu.

— Algumas apresentações usam.

Rachel ficou alguns segundos imaginando a cena.

— Deve ser muito bonito.

Taylor apenas concordou com um movimento discreto de cabeça.

— É um mundo bonito.

A menina continuou olhando pela janela enquanto o carro atravessava as ruas de Londres. Pouco a pouco, os prédios comerciais deram lugar a construções mais antigas até que o motorista reduziu a velocidade diante de um edifício de arquitetura vitoriana completamente restaurado.

Taylor reconheceu a fachada antes mesmo de o carro parar.

Anos haviam passado e, mesmo assim, algumas lembranças permaneciam intactas. Bastou atravessar a porta principal para que elas despertassem de uma só vez, porque o cheiro a atingiu antes mesmo da visão. Madeira encerada, resina das sapatilhas, tecidos novos misturados ao suor dos ensaios. Era exatamente o mesmo aroma que preenchia aquele lugar anos atrás e seu corpo reagiu antes da mente. Por um breve instante deixou de ser a babá de Rachel Mayer. Voltou a ser apenas a menina que acreditava que sua vida inteira aconteceria entre aqueles corredores.

Rachel apertou levemente sua mão.

— Taylor?

Ela piscou algumas vezes.

— Desculpa.

— Você ficou parada.

Taylor respirou fundo e forçou um sorriso discreto.

— Só estava admirando o lugar.

Rachel sorriu imediatamente.

— É lindo!

Enquanto caminhavam pelo saguão principal, os olhos curiosos da menina passeavam por tudo ao mesmo tempo. Bailarinos cruzavam os corredores usando roupas de ensaio, professores conversavam diante das salas envidraçadas, músicos afinavam instrumentos e o som distante de um piano preenchia todo o edifício com uma melodia repetitiva, interrompida apenas pelas contagens ritmadas dos ensaiadores.

Taylor, porém, caminhava em outro tempo. Os corredores pareciam menores do que em sua memória.  As barras de madeira haviam sido restauradas. Os espelhos eram novos. A iluminação mudara, mas o piso continuava o mesmo – ela reconhecia até o leve rangido provocado pelos passos apressados dos bailarinos.

Era estranho perceber que um lugar podia permanecer praticamente intacto enquanto uma vida inteira desaparecia.

Rachel seguia encantada quando uma recepcionista aproximou-se com um sorriso cordial.

— Boa tarde. A senhorita Rachel?

— Sou eu!

— O senhor Mayer pediu que eu as acompanhasse até o estúdio principal.

As duas seguiram pelos corredores internos.

Quanto mais avançavam, mais o prédio revelava sua grandiosidade. Salas de ensaio se sucediam umas às outras, algumas ocupadas por crianças, outras por bailarinos profissionais repetindo movimentos com precisão quase mecânica. Em uma delas, uma professora corrigia delicadamente a posição dos braços de uma menina pequena. Em outra, um casal ensaiava um pas de deux sob o olhar atento de um coreógrafo.

Taylor evitava olhar por muito tempo.

Cada sala despertava uma lembrança diferente, e ela precisava lembrar constantemente a si mesma porque estava ali. Não era nostalgia. Era investigação.

Quando chegaram diante da grande porta dupla de madeira, Rachel segurou a maçaneta com as duas mãos.

— Posso entrar?

A recepcionista sorriu.

— Claro.

A menina abriu a porta lentamente.

O som do piano tornou-se imediatamente mais intenso.

O enorme estúdio principal parecia respirar no ritmo da música. Bailarinos ocupavam quase toda a extensão do piso, repetindo uma sequência complexa de movimentos enquanto assistentes anotavam correções e técnicos ajustavam discretamente a iluminação.

No centro de tudo estava John.

Vestido de maneira simples, sem a formalidade dos eventos beneficentes ou das reuniões sociais, ele parecia completamente diferente. Falava pouco. Caminhava entre os bailarinos observando detalhes quase imperceptíveis. Bastava um gesto de sua mão para interromper uma sequência inteira ou uma única palavra para que todos retomassem exatamente do ponto desejado. Era evidente que aquele ambiente lhe pertencia.

Cada detalhe parecia esconder um pedaço da história que ela havia voltado para descobrir por que, pela primeira vez desde que atravessara novamente o caminho dos Mayer, não estava apenas no lugar onde John trabalhava. Estava exatamente onde sua própria história começara a ruir.

Rachel não conseguiu conter a empolgação.

— Papai!

A voz infantil atravessou o estúdio.

Taylor permaneceu próxima à porta enquanto Rachel corria para os braços do pai. John ajoelhou-se para recebê-la, abraçando-a com naturalidade, e por alguns segundos deixou de existir o diretor artístico respeitado, o organizador do maior espetáculo beneficente da temporada ou o homem que, tantas vezes, a deixava em permanente estado de alerta. Restava apenas um pai sorrindo para a filha.

— Então você veio conhecer o meu mundo?

Rachel assentiu com entusiasmo.

— É muito mais bonito do que eu imaginava!

John sorriu.

— Ainda não viu quase nada.

Segurou delicadamente a mão da menina e começou a mostrar-lhe o estúdio, apontando os cenários ainda incompletos, os refletores suspensos, o piano ao fundo e alguns bailarinos que interrompiam o ensaio para cumprimentar Rachel com carinho. Todos pareciam conhecê-la.

Taylor observava a cena em silêncio.

Era impossível não perceber o afeto genuíno de John pela filha  e aquilo a incomodava.

Porque cada demonstração de carinho desmontava, por alguns instantes, a imagem simples que ela tentava preservar dele. Seria muito mais fácil odiá-lo se ele fosse apenas cruel. Mas não era. John parecia capaz de ocupar lugares completamente opostos sem demonstrar esforço algum. Era admirado por todos naquele estúdio, respeitado pelos bailarinos, tratado quase como um mentor pelos mais jovens e, diante de Rachel, havia uma ternura que parecia sincera.

Taylor apertou discretamente as mãos.

Com ela, foi diferente. A lembrança veio seca, acompanhada da mesma revolta antiga. Ela conhecera justamente a pior versão daquele homem e  isso bastava para que nenhuma das outras anulasse o que havia acontecido.

— Claire.

John chamou uma das professoras que acompanhava o ensaio.

A mulher aproximou-se imediatamente.

— Sim?

— Você pode mostrar o estúdio para Rachel? Acho que alguém aqui ficou encantado com esse lugar.

Rachel sorriu de orelha a orelha.

— Eu posso ver tudo?

— Quase tudo. — Claire respondeu, divertida. — Venha comigo.

A menina lançou um último olhar para Taylor.

— Você vem?

Taylor sorriu.

— Vou ficar por aqui. Daqui a pouco encontro vocês.

Rachel assentiu e desapareceu pelo salão acompanhada de Claire, fazendo perguntas antes mesmo de terminarem de atravessar a primeira porta.

O estúdio voltou ao seu ritmo habitual.

Taylor aproveitou a distração para sair discretamente do salão principal.

O corredor era amplo e silencioso, muito diferente da movimentação do ensaio. Nas paredes, dezenas de fotografias ocupavam praticamente toda a extensão do espaço, organizadas com rigor quase museológico. Cada moldura trazia uma pequena placa de metal indicando o nome da apresentação, o teatro, a cidade e o ano.

Ela começou a caminhar devagar.

Londres. Manchester. Paris. Viena. Nova York. Anos diferentes. Espetáculos diferentes. Era como percorrer a história inteira da companhia através daquelas imagens.

Os olhos passavam rapidamente por cada fotografia até que um rosto a fez interromper o passo.

Emily Dallas.

O coração acelerou. Ela aproximou-se lentamente.

Era uma fotografia coletiva de um workshop juvenil realizado muitos anos antes. Emily aparecia entre outras adolescentes, sorrindo para a câmera, ainda muito jovem, mas inconfundível.

Taylor olhou discretamente para os dois lados do corredor. Estava sozinha. Retirou o celular do bolso e abriu a câmera. Aproximou o enquadramento da fotografia, mais alguns centímetros. O foco finalmente encontrou o rosto de Emily. Levantou o dedo para registrar a imagem.

— Encontrou alguma coisa interessante?

A voz surgiu tão perto que ela quase deixou o aparelho escapar.

John.

Taylor bloqueou imediatamente a tela e baixou o celular.

— Eu... estava olhando as fotografias.

Ele aproximou-se naturalmente, acompanhando seu olhar até a parede.

— Gosto de mantê-las aqui. Às vezes as pessoas esquecem que um espetáculo começa muitos anos antes de chegar ao palco.

Taylor guardou o telefone no bolso. John permaneceu ao seu lado. Perto demais. Ela reconheceu imediatamente o perfume amadeirado que ele costumava usar.

— Venha.

A palavra saiu como um convite simples.

Sem esperar resposta, ele caminhou alguns passos até uma enorme janela de vidro voltada para outra sala de ensaio. Taylor o acompanhou mais por educação do que por vontade.

Do outro lado do vidro, uma menina de aproximadamente onze anos ensaiava sozinha sob orientação de uma professora. O restante da sala permanecia vazio.

A música começou.

A garota iniciou uma sequência delicada, repetindo cada movimento inúmeras vezes.

John cruzou os braços, completamente absorvido pela cena.

— Está vendo?

Taylor acompanhou o olhar dele.

— Ela tem onze anos.

Houve um breve silêncio.

— É a idade de ouro para uma bailarina.

A voz dele carregava uma admiração quase apaixonada.

— Nessa fase o corpo aprende com uma velocidade impressionante. Técnica ainda pode ser construída. Maus hábitos ainda podem ser corrigidos. É quando quase tudo é possível.

Taylor permaneceu olhando através do vidro.

A menina repetia o mesmo movimento pela quinta... sexta... sétima vez. Sem reclamar. Sem desistir.

John aproximou-se um pouco mais enquanto falava, completamente envolvido pelo próprio entusiasmo.

— É disso que eu gosto. Ver alguém descobrir do que é capaz antes que o mundo diga que não consegue.

Taylor sentiu novamente a proximidade dele. O perfume. O calor discreto do corpo ao seu lado. John parecia esquecer completamente que falava com sua funcionária, mas falava como alguém que apresentava um lugar importante para uma pessoa cuja opinião realmente lhe interessava.

— Quando Rachel começar a frequentar o estúdio... — disse ele, sem desviar os olhos da menina que ensaiava — você também vai acabar conhecendo tudo isso.

Fez um pequeno gesto com a mão, indicando o prédio inteiro.

— Os ensaios, os professores, os bastidores... meu mundo.

Então voltou o rosto para Taylor. Havia um brilho incomum em seus olhos.

— Acho que você vai gostar de descobrir as coisas que construí aqui.

Taylor sustentou o olhar por apenas um instante antes de voltar a observar a bailarina.

Porque, naquele momento, compreendeu duas coisas ao mesmo tempo: A primeira era que John estava voltando a derrubar, pouco a pouco, a distância que havia construído entre eles nas últimas semanas; A segunda era muito mais perigosa, quanto mais ele a convidava para conhecer aquele mundo... mais perto ela chegava da verdade que fora buscar.

John ainda observava a menina do outro lado do vidro quando uma nova voz surgiu no corredor.

— Então era aqui que vocês dois estavam.

Taylor afastou-se instintivamente.

Não foi um movimento brusco, apenas suficiente para recuperar uma distância confortável entre ela e John antes mesmo de olhar para trás.

Katheryn caminhava em direção aos dois com a elegância habitual. Vestia um tailleur claro, o celular ainda na mão e os óculos de sol apoiados sobre os cabelos. Seu olhar encontrou primeiro o marido. Depois deslizou naturalmente para Taylor.

Por um breve instante, o silêncio pareceu durar mais do que deveria.

Ela havia visto.

Talvez não tivesse ouvido a conversa. Talvez não tivesse percebido exatamente o que acontecia. Mas vira os dois, lado a lado, próximos o bastante para que aquilo lhe despertasse a velha desconfiança que jamais desaparecera completamente.

Ainda assim, seu rosto permaneceu sereno.

— Resolvi a questão dos patrocinadores. — disse apenas para John. — Podemos manter a coletiva na terça-feira.

John assentiu.

— Ótimo.

Katheryn voltou os olhos para a sala de ensaio atrás do vidro.

— É a turma das crianças?

— Aula particular. — respondeu John. — Ela participa da seleção para o Royal Ballet no próximo semestre.

Katheryn observou a menina por alguns segundos e sorriu discretamente.

— Bonita técnica para alguém tão nova.

John concordou com um leve movimento de cabeça.

— Ela tem potencial.

A conversa morreu ali.

Katheryn não perguntou por que Taylor estava sozinha com ele naquele corredor.

Também não comentou a proximidade entre os dois.

Mas Taylor percebeu, pelo breve endurecimento de seu olhar antes de se voltar novamente para o estúdio, que aquela imagem não passara despercebida.

— Rachel deve estar enlouquecendo a Claire de perguntas. — comentou John, mudando completamente de assunto. — Vou procurá-las.

Sem esperar resposta, seguiu pelo corredor.

Taylor observou-os entrelaçarem as mãos.

Havia alguma coisa naquela mulher que impressionava. Katheryn jamais fazia escândalo. Nunca reagia impulsivamente. Guardava tudo para si, como quem preferia transformar suspeitas em observação antes de agir.

E isso a tornava ainda mais difícil de prever.

Poucos minutos depois, os três chegaram ao estúdio menor onde Claire terminava uma atividade com Rachel.

A menina permanecia diante da barra de apoio, completamente concentrada.

— Alonga mais um pouquinho... isso... — orientava Claire com paciência. — Agora tenta manter as costas bem retas.

Rachel fazia força para copiar exatamente a postura demonstrada pela professora. Errava. Ria. Tentava novamente.

John permaneceu parado junto à porta, assistindo sem interromper.

Taylor percebeu o orgulho discreto estampado em seu rosto cada vez que Rachel acertava um movimento simples.

— Ela aprende rápido. — comentou Claire quando os viu chegar.

Rachel imediatamente soltou a barra.

— Papai! Olha!

Tentou repetir a pequena sequência que acabara de aprender.

Os pés ainda tropeçavam um no outro, os braços saíam do lugar antes da hora, mas o entusiasmo compensava qualquer falta de técnica.

Quando terminou, olhou para os pais esperando aprovação.

John foi o primeiro a bater palmas.

Katheryn sorriu logo em seguida.

— Muito bem.

Rachel correu até eles.

— Eu quero voltar!

Claire sorriu.

— Acho que nós também queremos.

John voltou-se para a professora.

— Você consegue encaixá-la na turma infantil?

— Consigo. Terças e quintas no fim da tarde ainda têm vagas.

Katheryn consultou mentalmente a agenda.

— Depois da escola...

— Funciona. — respondeu John.

— Então está decidido.

Rachel deu um pequeno grito de alegria antes de abraçar os dois ao mesmo tempo.

Taylor observava a cena alguns passos atrás. Terças e quintas. Fim da tarde. Seu pensamento organizou imediatamente a informação. Era ela quem acompanhava todas as atividades. Quem esperaria durante cada aula.

A constatação surgiu com uma clareza inevitável.

Aquele estúdio deixaria de ser apenas uma visita ocasional.

Passaria a fazer parte da sua rotina.

Taylor voltou os olhos para a parede coberta de fotografias, visível do outro lado do corredor.

Para Emily.

Para todas as histórias escondidas entre aquelas molduras.

Pela primeira vez desde que encontrara seu nome, teve a sensação de que o destino acabara de lhe entregar exatamente o que precisava.

Sem perceber, John aproximou-se novamente.

— Parece que você vai se acostumar com este lugar.

Taylor desviou o olhar das fotografias e encontrou o dele.

Sorriu apenas por educação.

— Pelo visto... vou.

Mas, dentro de si, a resposta era outra.

Era exatamente ali onde ela gostaria de estar.

[CONTINUA]