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8 de fevereiro de 2026

When Emma Falls in Love.

conto inspirado na canção de Taylor Swift e dedicada à minha melhor amiga, Cecilia, que me ensinou tantas coisas, dentre todas, a amar.

No apartamento do terceiro andar de um pequeno condomínio de esquina, sempre era possível ouvir músicas de Marvin Gaye nos finais das tardes de verão. Não em um volume exagerado, nada que incomodasse a vizinhança — ainda assim, chamava atenção. Talvez porque fosse sempre ela quem as ouvia. Talvez porque I Heard It Through the Grapevine parecesse tocar mais vezes do que as outras, como se tivesse sido escolhida com intenção.

Foi assim que reparei nela pela primeira vez.

Seu nome era Emma. Mais tarde descobri que era um apelido para Emily Jean Stone, mas não havia ninguém que a chamasse assim além do pai. Para a mãe, ela era chamada carinhosamente de senhorita Sunshine, e o apelido lhe caía bem demais para ser ignorado. Emma tinha esse tipo de presença que não pede licença — quando se percebe, já é tarde demais para fingir que não notou.

Ela é o tipo de pessoa que se parece com um livro impossível de largar até que se descubra o final. Daquelas que permanecem na mente mesmo quando não estão por perto. Há nela algo que mistura grandeza e cotidiano, como se Cleópatra tivesse decidido nascer em uma cidade pequena antes de conquistar o mundo — ou, ao menos, um quarteirão de Los Angeles.

Ruiva de maneira discreta, embora o sol insistisse em encontrá-la. Engraçada — isso dava para perceber pelo modo como falava sozinha ao telefone, gesticulando, rindo antes mesmo da resposta do outro lado da linha. Trabalhava com arte em um museu popular da cidade; eu sabia disso pela bolsa sempre grande demais, marcada com o logo do lugar, como se carregasse mais ideias do que objetos.

Los Angeles não era sua cidade natal. Isso ficara claro desde a primeira vez que a vi com um moletom da NYU, decorando o apartamento com pequenas lembranças de Nova Iorque. Mas não eram apenas os objetos que denunciavam suas origens — era o jeito. Emma ainda andava como quem veio da cidade que nunca dorme: passos rápidos, olhar atento, uma pressa que não combinava com o clima morno da Califórnia. Era como se ela nunca tivesse aprendido a andar devagar demais pelo mundo.

Não me orgulho, mas prezo pela honestidade da minha admiração ao admitir que, às vezes, gostaria de ser como ela. Não por querer a vida de Emma, mas pela maneira como ela vive a própria vida — com entrega, sem descuido; com intensidade, sem se perder.

E, acima de tudo, por amar sem temer.

Emma já se apaixonou inúmeras vezes antes. Mas não eram histórias de amores intensos, daqueles clássicos ou trágicos. Eram mais das que passam como rascunhos.

Houve o rapaz que aparecia às sextas-feiras com vinho barato e conversas longas demais sobre si mesmo. Emma escutava, ria, tentava. Ele ficou pouco. Quando foi embora, as músicas de Marvin Gaye tocaram um pouco mais alto por alguns dias, como se precisassem preencher o espaço que ele não soube ocupar.

Teve o artista. Falava de liberdade como se fosse uma desculpa e de sentimentos como se fossem temporários. Emma gostava da forma como ele enxergava o mundo, mas não da maneira como se recusava a permanecer nele. Quando ele partiu, ela fechou as persianas cedo demais e ligou para a mãe com risadas leves, antecipando a própria decepção antes que ela se tornasse pesada.

Houve ainda paixões rápidas, quase acidentes emocionais. Conversas longas após exposições no museu. Olhares demorados no mercado. Números salvos no celular que nunca viraram nome. Emma se permitia sentir, mas nunca insistia quando percebia que o outro não saberia segurar o que ela oferecia.

Ela nunca implorou para ficar por não confundir qualquer intensidade com o pertencimento do certo. Ela ainda não sabia como era o certo, mas sabia que os que passaram não eram isso.

Cada tentativa deixava algo para trás — não cicatrizes, mas aprendizados. Emma não acumulava amargura. Ainda assim, a cada novo começo, repetia o mesmo ritual: andava de um lado para o outro no apartamento, fechava as persianas, trancava a porta como quem protege algo frágil. Ligava para as amigas e fazia piadas sobre como tudo poderia dar errado.

Talvez fosse isso que a tornasse perigosa para quem se aproximava. Porque amar Emma nunca foi simples. Exigia sempre de cuidado e presença.

E então, depois de tantas histórias que não chegaram a ser, algo mudou.
Não de imediato ou de forma óbvia. Mas eu soube.

Soube pelo silêncio diferente no fim da tarde, pela música que continuava a mesma, mas soava mais baixa e pelo cuidado maior nos gestos. Antes mesmo de vê-lo, eu já sabia: aquela paixão não seria como as outras.

Ele apareceu numa terça-feira comum demais para ser memorável — o que, mais tarde, percebi ter sido exatamente o motivo de eu me lembrar tão bem.

Emma descia as escadas do condomínio falando ao telefone, distraída, o cabelo ruivo preso de qualquer jeito, a bolsa pesada pendendo de um dos ombros. Parou no último degrau ao vê-lo. Não foi uma pausa dramática, dessas que pedem atenção. Foi breve, quase imperceptível. Ainda assim, suficiente para quebrar o ritmo habitual dela.

Ele esperava encostado no carro, mãos nos bolsos, postura relaxada demais para parecer ensaiada. Tinha olhos de homem em um corpo de um rapaz jovem com entusiasmo. Quando Emma se aproximou, ele sorriu antes mesmo de ela terminar a frase que dizia ao telefone. Ela desligou.

Não ouvi o que foi dito entre eles, mas vi o que importava. Emma ajeitou o cabelo sem perceber. Mudou o peso do corpo de um pé para o outro. Riu baixo, como se testasse o som da própria risada naquele novo espaço. O mundo não parou, mas pareceu se ajustar.

Desde aquele dia, ele passou a voltar.

Às vezes trazia café, outras vezes apenas sua presença. Não ocupava o espaço de Emma como os outros haviam feito. Não falava demais, não se explicava demais.

Quando ele ia embora, Emma não fechava a porta de imediato. Ficava ali por alguns segundos, mão apoiada na maçaneta, respirando fundo, como se estivesse gravando aquele instante para revisitá-lo depois. As músicas de Marvin Gaye continuavam, mas agora tocavam mais baixo, quase respeitosas.

Emma não contou nada a ninguém — ao menos não que eu tenha percebido, mas os sinais estavam lá.

Ela passou a andar de um lado para o outro no apartamento com mais frequência. As persianas se fechavam cedo, não por cansaço, mas por cuidado. À noite, ligava para a mãe e ria de um jeito diferente, menos defensivo. As piadas sobre como tudo poderia dar errado ainda existiam, mas vinham acompanhadas de silêncios longos demais para serem medo.

Na semana seguinte, choveu. Uma chuva improvável, dessas que Los Angeles finge não conhecer. Emma saiu sem guarda-chuva. Ele apareceu do nada, segurando um abrigo pequeno demais para dois, mas insistiu em dividi-lo. Emma se aproximou sem pressa. Encostou. Confiou.

Foi ali que entendi.

O coração de Emma cabia inteiro na palma da mão dele — não como algo frágil, mas como algo vivo. E ele, mesmo sem saber, já carregava mais responsabilidade do que imaginava.

Porque quando Emma se apaixona, o mundo não anuncia. Ele simplesmente muda.

E eu sabia, com a certeza silenciosa de quem observa de longe, que aquele homem nunca mais atravessaria a vida do mesmo jeito.

O que veio depois não foi pressa ou excesso. Foi a chama.

Eles passaram a se encontrar nos horários improváveis: cedo demais para chamar de manhã, tarde demais para ainda ser tarde. Emma já não descia as escadas apressada; esperava por ele sentada no último degrau, como se aquele espaço tivesse se tornado um ponto de encontro não declarado.

Ele aprendeu os silêncios dela. Sabia quando falar e quando apenas estar. Às vezes ficavam no carro com o motor desligado, conversando sobre coisas pequenas — o trânsito, um detalhe bobo do dia, uma exposição no museu que Emma ainda tentava explicar sem usar palavras demais. Ele escutava como quem entende que o importante não é a explicação, mas o brilho nos olhos de quem fala.

À noite, a luz da sala dela permanecia acesa até mais tarde. As sombras se moviam devagar pelas cortinas fechadas. Apenas dois corpos aprendendo a dividir o espaço, como quem testa uma nova linguagem. Quando ele ia embora, Emma ficava parada à porta por alguns segundos, respirando fundo, antes de voltar para dentro.

Quando Emma se apaixona, ela se assusta com a própria calma.

Ela ainda anda de um lado para o outro no apartamento, mas agora para pensar nele. Ainda fecha as persianas, mas não para se esconder. Liga para a mãe com menos piadas defensivas e mais silêncios confortáveis. A senhorita Sunshine continua acreditando que pode chover, mas começa a confiar que alguém ficará ao seu lado se isso acontecer.

Eles passam a se conhecer nas falhas.

Ele chega atrasado uma vez. Emma finge não se importar, mas morde o lábio enquanto olha o relógio. Em outro dia, ela se fecha demais, responde mensagens curtas, desaparece por horas. Há discussões pequenas. Olhares atravessados. Pausas longas demais. Mas não há fuga. Nenhum dos dois parece disposto a repetir histórias antigas. Eles conversam sentados no chão da sala, costas apoiadas no sofá, dividindo um silêncio que não pede tradução.

O museu começa a aparecer nas conversas. Emma chega em casa com cheiro de tinta nas mãos, contando sobre crianças correndo entre esculturas, sobre como a arte parece maior quando alguém se importa em ouvir. Ele observa Emma falar como se estivesse descobrindo não apenas quem ela é, mas quem ela sempre foi.

A distância surge como possibilidade. O silêncio pesa. Emma escuta, pondera, e decide ficar. Não porque ama menos, mas porque se ama também. Ele vai e volta entendendo que amar Emma não é ser escolhido, é escolher.

Ele volta numa noite comum, como se tivesse aprendido que grandes decisões não precisam de espetáculo.

Emma abre a porta sem surpresa. Há nela um cansaço sereno, uma firmeza que não pede explicação. Eles se sentam no chão da sala, costas apoiadas no sofá, como da primeira vez que precisaram conversar sem fugir. A luz permanece apagada. Não há música. Apenas o som distante da cidade.

Ele fala, não para se defender ou prometer.

Eu te amo, ele diz.

Diz por que é verdade. Porque o amor, quando é real, não pede garantias. Emma escuta em silêncio. Não sorri. Não chora. Apenas sustenta o olhar dele com a atenção de quem sabe exatamente o peso daquela frase.

Emma não se apaixona perdidamente. Ela se apaixona com consciência.

Ela o chama à responsabilidade sem elevar a voz. Coloca limites sem crueldade. Diz o que precisa ser dito com uma clareza que não machuca, mas exige. Não oferece promessas vazias nem aceita menos do que consegue sustentar. Emma não se diminui para manter alguém por perto.

Ela o coloca no lugar certo. Ao seu lado.

Ele entende. Ou ao menos tenta porque amar Emma não é ser escolhido. É escolher todos os dias.

Não sei qual foi a resposta exata dela. Não ouço as palavras, apenas sinto o efeito. O silêncio que se segue não é ausência — é assentimento. Um acordo que não precisa ser anunciado.

Ele sai naquela noite, mas não como antes. Há algo diferente no modo como desce as escadas, no jeito como olha para trás uma última vez. Não era despedida.

E Emma… Emma fecha a porta com cuidado. Não tranca imediatamente. Fica ali por um instante, respirando fundo, como quem aceita que o amor não é um abrigo garantido — é um lugar que se constrói.

Da minha janela, entendo algo que não sabia antes. Quero aprender a amar como Emma ama.

Com verdade. Com limite. Sem se perder.

Quando Emma se apaixona, não é só o mundo de alguém que muda. É o de todos que aprendem a observá-la com atenção suficiente.

E eu estou aprendendo.

[FIM]