19 de abril de 2026

dancing with the devil | 09° Capítulo.

Bebia o café puro em pequenos goles, não por estar saboroso, mas porque postergava a sua volta ao trabalho. Olhava seu celular em cima da mesa com receio, parecia que naquele pequeno aparelho tinha uma bomba que poderia explodir em suas mãos a qualquer momento. No pouco que verificou, havia inúmeras mensagens e ligações perdidas de Katheryn e na única mensagem que ousou ler, Katheryn mandara: “não estrague meu dia sem nenhum motivo”.

Maldito ego, pensara Taylor.

Depois que tirara o domingo para si mesma, para limpar sua mente e reorganizar as ideias, Taylor estava decidida a continuar. Seria mais cuidadosa, não permitiria que John se aproximasse demais e iria dar forma ao plano, pois Selena tinha razão, está demorando muito e, sem querer admitir, estava se apegando muito à Rachel.

Taylor terminou o café, vestiu-se com cuidado excessivo e saiu de casa com uma decisão silenciosa: continuaria. Mas seria mais cuidadosa, mais distante e John não se aproximaria novamente daquele jeito. E a maior decisão era que não hesitaria.

No caminho, ensaiou desculpas. Mal-estar. Enxaqueca. Um problema pessoal. Qualquer coisa que não parecesse frágil ou honesta demais.

A casa Mayer estava silenciosa demais quando ela chegou.

Não havia o burburinho habitual, nem o som apressado dos funcionários se preparando para o dia. O clima era contido, quase cerimonioso. Sabrina a viu primeiro, interrompeu o que fazia e arregalou os olhos, surpresa genuína atravessando o rosto.

— Você está bem? — perguntou, baixo demais para ser apenas curiosidade.

— Estou. — respondeu Taylor, sem convicção. — Onde está a Katheryn?

— No escritório improvisado. — Sabrina hesitou. — Ela não está… num bom humor.

Taylor assentiu e seguiu pelo corredor.

Katheryn não a convidou a entrar.

— Você sabe que ontem não era um dia comum. — disse, sem levantar os olhos dos papéis. — E sabe que sua ausência não passou despercebida.

— Eu tive um mal-estar. — Taylor respondeu, mantendo a voz firme. — Não consegui sair de casa.

Katheryn finalmente ergueu o olhar.

Não havia raiva explícita ali. Havia algo pior: frustração controlada.

— Você deveria ter avisado. — disse. — Não somos uma família desorganizada.

— Eu sei. — Taylor assentiu. — Peço desculpas.

Katheryn sustentou o silêncio por alguns segundos, como se avaliasse se aquilo era suficiente.

— Rachel sentiu sua falta. — disse por fim. — Muito mais do que eu gostaria.

Taylor sentiu o peso da frase.

— Posso falar com ela?

— Depois. — respondeu. — Hoje mantenha-se nas funções básicas.

Era um recuo calculado.

No corredor, Taylor viu John pela primeira vez desde o domingo, mas ele não se aproximou. Limitou-se a um aceno distante, um gesto educado demais para ser natural. Não houve troca de palavras ou olhar prolongado. Nada.

E isso a inquietou, pois Taylor percebeu que ele também recalculava.

E assim a semana seguiu arrastada.

As agendas se repetiam com precisão: escola, atividades, compromissos sociais, horários rígidos demais para permitir improvisos. Taylor cumpria tudo à risca em busca de conseguir a confiança da patroa de volta, mas sua atenção se dividia. Sempre que podia, observava John à distância, tentando captar os novos padrões e seus hábitos.

Fotografou quadros na sala principal sob o pretexto de organização. Buscou nomes de antigas alunas nas redes sociais, cruzou datas, tentou reconhecer rostos, mas não conseguia nada concreto. Eram apenas fragmentos.

Tentou acessar o escritório dele uma vez, em um fim de tarde silencioso. A senha resistiu. O sistema, também. Tudo parecia protegido demais.

Rachel, por outro lado, aproximava-se mais.

Buscava Taylor para pequenas confidências, sentava-se ao seu lado sem pedir permissão, segurava-lhe a mão com naturalidade excessiva. Havia algo de dependência ali, algo que Taylor percebia.

Foi no momento do café da manhã em família no sábado que o pedido de Rachel surgiu.

— Só duas amigas. — disse, os olhos brilhando. — Está muito calor. A piscina quase não é usada.

Katheryn hesitou. John não.

— Desde que haja supervisão. — disse. — E nada exagerado.

Então, a tarde caiu insuportavelmente quente.

A piscina refletia o céu limpo, a água imóvel demais para parecer segura. Rachel corria de um lado para outro, as amigas riam, copos coloridos de coquetéis infantis espalhados pela mesa lateral.

Taylor observava tudo.

John assistia à cena de longe, sentado sob a sombra, conversando com alguém ao telefone. Katheryn surgia ocasionalmente, verificando detalhes, sempre à distância.

O ar parecia pesado demais para se mover, e até o som das risadas das crianças vinha abafado, como se atravessasse uma camada invisível antes de alcançar os ouvidos. Rachel corria pela borda da piscina com duas amigas, brincando de pega-pega, os pés molhados deixando marcas escorregadias no piso claro.

— Cuidado! — Taylor advertiu, erguendo um pouco a voz.

Rachel riu.

— Eu sei!

Não sabia. O movimento foi mínimo. Um passo em falso. O pé deslizou.

E então... O som da água quebrando.

Rachel caiu.

Não foi um mergulho. Foi descontrole.

O corpo entrou torto, desajeitado, e quando emergiu, não havia riso. Não havia brincadeira. Havia pânico.

— Taylor! — o grito veio engasgado, cortado pela água. — Taylor!

As mãos batiam na superfície sem ritmo, sem técnica. O corpo afundava mais do que subia. O rosto desaparecia e reaparecia rápido demais.

Taylor não se moveu.

O mundo ao redor pareceu recuar.

O som das outras crianças gritando ficou distante. O sol perdeu intensidade. Tudo se estreitou naquele ponto — Rachel na água… e ela.

Imóvel.

É agora.

O pensamento surgiu, cru, sem filtro.

Seria tão fácil.

A água engolindo. O silêncio depois. O fim de uma história que nunca deveria ter existido.

Um segundo.

Dois.

Rachel voltou à superfície, tossindo, desesperada.

— Taylor!

Aquilo era confiança. E Taylor… não se moveu. Naquele instante terrível, ela quis não se mover.

Foi Juan quem ouviu.

Estava no jardim lateral, lidando com as plantas, quando o tom do grito mudou e deixou de ser brincadeira para urgência.

Ele correu. Saltou.

O impacto na água foi forte, direto, preciso. Em poucos movimentos, alcançou Rachel, segurou-a pelo braço, mantendo o rosto dela acima da superfície.

— Calma! Calma! — repetia.

As amigas choravam.

Taylor ainda estava parada.

Quando Juan saiu da piscina com a menina nos braços, Rachel se agarrou a ele, tossindo, chorando alto, o corpo tremendo inteiro.

Foi então que Katheryn apareceu.

— O que aconteceu?! — a voz veio antes dela.

Ao ver a filha encharcada, desesperada, algo se rompeu.

— Meu Deus! Rachel!

Ela correu, puxando a menina para si, examinando seu rosto, seus braços, como se procurasse sinais invisíveis de algo pior.

— Ela caiu — Juan disse, ainda ofegante. — Estava se afogando.

John chegou logo atrás.

O olhar dele percorreu a cena rapidamente para a filha, o jardineiro, a água… e então parou em Taylor.

E ela estava Imóvel. Seca. Intocada.

— Você não fez nada? — Katheryn perguntou, virando-se para ela.

— Eu...

— VOCÊ NÃO FEZ NADA?! — a voz de Katheryn rasgou o ar.

Rachel chorava agarrada a ela.

— Ela estava chamando você! — continuou, a raiva crescendo sem controle. — Eu ouvi! Todo mundo ouviu!

Taylor sentiu o corpo finalmente reagir — tarde demais.

— Eu... Rachel... eu...

A voz estava fraca, os pensamentos confusos. Ela tinha sido pega!

— Suma daqui agora!

A ordem de Katheryn não foi apenas dita, foi expulsa.

Taylor não respondeu, pois não havia espaço para resposta.

O corpo finalmente reagia, mas tarde demais para qualquer gesto que pudesse ser interpretado como cuidado. Os dedos ainda tremiam levemente, como se o impulso de agir tivesse chegado atrasado, deslocado do tempo certo.

Rachel ainda chorava agarrada à mãe. Mas, por um instante ergueu o rosto e olhou para Taylor. Não foi um olhar longo, nem dramático. Foi pior.

E suficiente.

Ali não havia mais aquela confiança aberta, quase ingênua, que Rachel depositava nela dias antes. Não havia o brilho, nem a busca imediata por conforto. Havia dor e Taylor sentiu.

Desviou o olhar primeiro por não suportar sustentar aquilo.

Katheryn continuava falando — palavras rápidas, cortantes, indignadas, mas Taylor já não distinguia exatamente o que era dito. O som chegava fragmentado, como se estivesse submersa.

Juan se mantinha próximo, atento. As outras crianças haviam sido afastadas por Sabrina, que agora tentava controlar o caos instalado.

John ainda não tinha se movido, mas observava.

Taylor deu um passo para trás. Depois outro. Ninguém a impediu. Ninguém a chamou.

Era como se, naquele instante, ela já não fizesse mais parte daquela casa.

Virou-se.

Caminhou pelo jardim com passos firmes demais para alguém que, por dentro, desmoronava em silêncio. O som da água atrás de si parecia mais alto agora, quase insistente — como se a lembrasse, a cada segundo, do que tinha escolhido não fazer.

Abriu a porta lateral.

O interior da casa parecia frio em comparação com o calor sufocante do lado de fora. Os corredores estavam silenciosos, organizados, intactos — como se nada tivesse acontecido ali dentro.

Mas tinha e ela sabia.

Passou pela sala de estar sem olhar para os lados. Não queria ver os retratos. Não queria ver nada que a conectasse àquele lugar naquele momento.

Pegou sua bolsa. Caminhou até a porta principal.

Abriu.

O ar externo a atingiu com força, mas não trouxe alívio.

Apenas espaço.

Estava prestes a atravessar o portão quando a voz veio.

— Apareça aqui amanhã cedo. Precisamos conversar.

Taylor parou. Não virou imediatamente, mas reconheceu o tom antes mesmo de registrar as palavras.

John.

Virou-se devagar.

Ele estava parado a alguns metros de distância, parcialmente à sombra da varanda. O rosto neutro demais para ser lido com facilidade. Não havia raiva explícita. Nem urgência. Apenas controle e algo mais fundo.

Algo que ela já começava a reconhecer… mesmo sem nomear.

Taylor assentiu uma única vez.

Virou-se novamente e saiu. Dessa vez, sem olhar para trás.

O portão se fechou atrás dela com um som seco.

E, pela primeira vez desde que tudo começara, Taylor não pensou no plano.

Pensou apenas no instante em que não se moveu e no olhar de Rachel.

Porque vingança, até então, sempre foi ideia, mas aquilo... aquilo tinha sido real.

[CONTINUA]

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