Depois do almoço, Rachel mal conseguiu
permanecer sentada até o fim da sobremesa. Mal pousou o garfo sobre o prato e
já olhava para a mãe com uma ansiedade impossível de esconder, balançando
discretamente as pernas sob a cadeira.
— Podemos ir agora?
Katheryn ergueu os olhos do tablet
onde respondia alguns e-mails. Sorriu ao perceber a inquietação da filha.
— Tão animada assim?
Rachel assentiu com tanta força que
fez o rabo de cavalo balançar.
— Você disse que o papai estaria no
estúdio.
— E está.
— Então vamos!
Katheryn fechou o tablet com calma,
organizando mentalmente o restante da agenda antes de voltar a olhar para
Taylor.
— John avisou que estaria em ensaio a
tarde inteira. Vocês podem passar lá por uma hora.
— Você não vai?! — Rachel questionou.
— Hoje não, querida. Surgiu um imprevisto
nas doações da peça e preciso resolver até o fim do dia, mas na próxima iremos
juntas. — sorriu. — Mas, por favor, comporte-se.
Rachel levantou-se da cadeira antes
mesmo da autorização terminar.
— Eu prometo!
Katheryn voltou-se para Taylor.
— Leve-a. O motorista já foi avisado.
Taylor apenas assentiu, embora por
dentro sentisse o coração acelerar de maneira completamente diferente da de
Rachel.
O estúdio. Desde que começara a trabalhar para
os Mayer, aquele lugar existia como uma lembrança distante e, ao mesmo tempo,
como um objetivo silencioso. Sabia que boa parte da vida profissional de John
acontecia ali, onde ensaios eram preparados, reuniões aconteciam longe da
imprensa e antigos registros permaneciam guardados. Durante semanas imaginara
inúmeras formas de voltar até aquele prédio sem levantar suspeitas. Agora simplesmente entraria pela porta
principal.
O caminho foi tomado quase
inteiramente pela voz de Rachel. A
menina ocupava o banco traseiro ao lado de Taylor e parecia incapaz de conter a
empolgação.
— Você acha que vai ter muitas
bailarinas?
— Bastante.
— E músicos de verdade?
— Também.
— Eles usam aquelas saias enormes?
Taylor sorriu.
— Algumas apresentações usam.
Rachel ficou alguns segundos
imaginando a cena.
— Deve ser muito bonito.
Taylor apenas concordou com um
movimento discreto de cabeça.
— É um mundo bonito.
A menina continuou olhando pela janela
enquanto o carro atravessava as ruas de Londres. Pouco a pouco, os prédios
comerciais deram lugar a construções mais antigas até que o motorista reduziu a
velocidade diante de um edifício de arquitetura vitoriana completamente
restaurado.
Taylor reconheceu a fachada antes
mesmo de o carro parar.
Anos haviam passado e, mesmo assim,
algumas lembranças permaneciam intactas. Bastou atravessar a porta principal
para que elas despertassem de uma só vez, porque o cheiro a atingiu antes mesmo
da visão. Madeira encerada, resina das sapatilhas, tecidos novos misturados ao
suor dos ensaios. Era exatamente o mesmo aroma que preenchia aquele lugar anos
atrás e seu corpo reagiu antes da mente. Por um breve instante deixou de ser a
babá de Rachel Mayer. Voltou a ser apenas a menina que acreditava que sua vida
inteira aconteceria entre aqueles corredores.
Rachel apertou levemente sua mão.
— Taylor?
Ela piscou algumas vezes.
— Desculpa.
— Você ficou parada.
Taylor respirou fundo e forçou um
sorriso discreto.
— Só estava admirando o lugar.
Rachel sorriu imediatamente.
— É lindo!
Enquanto caminhavam pelo saguão
principal, os olhos curiosos da menina passeavam por tudo ao mesmo tempo.
Bailarinos cruzavam os corredores usando roupas de ensaio, professores
conversavam diante das salas envidraçadas, músicos afinavam instrumentos e o som
distante de um piano preenchia todo o edifício com uma melodia repetitiva,
interrompida apenas pelas contagens ritmadas dos ensaiadores.
Taylor, porém, caminhava em outro
tempo. Os corredores pareciam menores do que em sua memória. As barras de madeira haviam sido restauradas.
Os espelhos eram novos. A iluminação mudara, mas o piso continuava o mesmo – ela
reconhecia até o leve rangido provocado pelos passos apressados dos bailarinos.
Era estranho perceber que um lugar
podia permanecer praticamente intacto enquanto uma vida inteira desaparecia.
Rachel seguia encantada quando uma
recepcionista aproximou-se com um sorriso cordial.
— Boa tarde. A senhorita Rachel?
— Sou eu!
— O senhor Mayer pediu que eu as
acompanhasse até o estúdio principal.
As duas seguiram pelos corredores
internos.
Quanto mais avançavam, mais o prédio
revelava sua grandiosidade. Salas de ensaio se sucediam umas às outras, algumas
ocupadas por crianças, outras por bailarinos profissionais repetindo movimentos
com precisão quase mecânica. Em uma delas, uma professora corrigia
delicadamente a posição dos braços de uma menina pequena. Em outra, um casal
ensaiava um pas de deux sob o olhar atento de um coreógrafo.
Taylor evitava olhar por muito tempo.
Cada sala despertava uma lembrança
diferente, e ela precisava lembrar constantemente a si mesma porque estava ali.
Não era nostalgia. Era investigação.
Quando chegaram diante da grande porta
dupla de madeira, Rachel segurou a maçaneta com as duas mãos.
— Posso entrar?
A recepcionista sorriu.
— Claro.
A menina abriu a porta lentamente.
O som do piano tornou-se imediatamente
mais intenso.
O enorme estúdio principal parecia
respirar no ritmo da música. Bailarinos ocupavam quase toda a extensão do piso,
repetindo uma sequência complexa de movimentos enquanto assistentes anotavam
correções e técnicos ajustavam discretamente a iluminação.
No centro de tudo estava John.
Vestido de maneira simples, sem a
formalidade dos eventos beneficentes ou das reuniões sociais, ele parecia
completamente diferente. Falava pouco. Caminhava entre os bailarinos observando
detalhes quase imperceptíveis. Bastava um gesto de sua mão para interromper uma
sequência inteira ou uma única palavra para que todos retomassem exatamente do
ponto desejado. Era evidente que aquele ambiente lhe pertencia.
Cada detalhe parecia esconder um
pedaço da história que ela havia voltado para descobrir por que, pela primeira
vez desde que atravessara novamente o caminho dos Mayer, não estava apenas no
lugar onde John trabalhava. Estava exatamente onde sua própria história
começara a ruir.
Rachel não conseguiu conter a
empolgação.
— Papai!
A voz infantil atravessou o estúdio.
Taylor permaneceu próxima à porta
enquanto Rachel corria para os braços do pai. John ajoelhou-se para recebê-la,
abraçando-a com naturalidade, e por alguns segundos deixou de existir o diretor
artístico respeitado, o organizador do maior espetáculo beneficente da
temporada ou o homem que, tantas vezes, a deixava em permanente estado de
alerta. Restava apenas um pai sorrindo para a filha.
— Então você veio conhecer o meu
mundo?
Rachel assentiu com entusiasmo.
— É muito mais bonito do que eu
imaginava!
John sorriu.
— Ainda não viu quase nada.
Segurou delicadamente a mão da menina
e começou a mostrar-lhe o estúdio, apontando os cenários ainda incompletos, os
refletores suspensos, o piano ao fundo e alguns bailarinos que interrompiam o
ensaio para cumprimentar Rachel com carinho. Todos pareciam conhecê-la.
Taylor observava a cena em silêncio.
Era impossível não perceber o afeto
genuíno de John pela filha e aquilo a
incomodava.
Porque cada demonstração de carinho
desmontava, por alguns instantes, a imagem simples que ela tentava preservar
dele. Seria muito mais fácil odiá-lo se ele fosse apenas cruel. Mas não era.
John parecia capaz de ocupar lugares completamente opostos sem demonstrar
esforço algum. Era admirado por todos naquele estúdio, respeitado pelos
bailarinos, tratado quase como um mentor pelos mais jovens e, diante de Rachel,
havia uma ternura que parecia sincera.
Taylor apertou discretamente as mãos.
Com ela, foi diferente. A lembrança
veio seca, acompanhada da mesma revolta antiga. Ela conhecera justamente a pior
versão daquele homem e isso bastava para
que nenhuma das outras anulasse o que havia acontecido.
— Claire.
John chamou uma das professoras que
acompanhava o ensaio.
A mulher aproximou-se imediatamente.
— Sim?
— Você pode mostrar o estúdio para
Rachel? Acho que alguém aqui ficou encantado com esse lugar.
Rachel sorriu de orelha a orelha.
— Eu posso ver tudo?
— Quase tudo. — Claire respondeu,
divertida. — Venha comigo.
A menina lançou um último olhar para
Taylor.
— Você vem?
Taylor sorriu.
— Vou ficar por aqui. Daqui a pouco
encontro vocês.
Rachel assentiu e desapareceu pelo
salão acompanhada de Claire, fazendo perguntas antes mesmo de terminarem de
atravessar a primeira porta.
O estúdio voltou ao seu ritmo
habitual.
Taylor aproveitou a distração para
sair discretamente do salão principal.
O corredor era amplo e silencioso,
muito diferente da movimentação do ensaio. Nas paredes, dezenas de fotografias
ocupavam praticamente toda a extensão do espaço, organizadas com rigor quase
museológico. Cada moldura trazia uma pequena placa de metal indicando o nome da
apresentação, o teatro, a cidade e o ano.
Ela começou a caminhar devagar.
Londres. Manchester. Paris. Viena. Nova
York. Anos diferentes. Espetáculos diferentes. Era como percorrer a história
inteira da companhia através daquelas imagens.
Os olhos passavam rapidamente por cada
fotografia até que um rosto a fez interromper o passo.
Emily Dallas.
O coração acelerou. Ela aproximou-se
lentamente.
Era uma fotografia coletiva de um
workshop juvenil realizado muitos anos antes. Emily aparecia entre outras
adolescentes, sorrindo para a câmera, ainda muito jovem, mas inconfundível.
Taylor olhou discretamente para os
dois lados do corredor. Estava sozinha. Retirou o celular do bolso e abriu a
câmera. Aproximou o enquadramento da fotografia, mais alguns centímetros. O
foco finalmente encontrou o rosto de Emily. Levantou o dedo para registrar a
imagem.
— Encontrou alguma coisa interessante?
A voz surgiu tão perto que ela quase
deixou o aparelho escapar.
John.
Taylor bloqueou imediatamente a tela e
baixou o celular.
— Eu... estava olhando as fotografias.
Ele aproximou-se naturalmente,
acompanhando seu olhar até a parede.
— Gosto de mantê-las aqui. Às vezes as
pessoas esquecem que um espetáculo começa muitos anos antes de chegar ao palco.
Taylor guardou o telefone no bolso. John
permaneceu ao seu lado. Perto demais. Ela reconheceu imediatamente o perfume
amadeirado que ele costumava usar.
— Venha.
A palavra saiu como um convite
simples.
Sem esperar resposta, ele caminhou
alguns passos até uma enorme janela de vidro voltada para outra sala de ensaio.
Taylor o acompanhou mais por educação do que por vontade.
Do outro lado do vidro, uma menina de
aproximadamente onze anos ensaiava sozinha sob orientação de uma professora. O
restante da sala permanecia vazio.
A música começou.
A garota iniciou uma sequência
delicada, repetindo cada movimento inúmeras vezes.
John cruzou os braços, completamente
absorvido pela cena.
— Está vendo?
Taylor acompanhou o olhar dele.
— Ela tem onze anos.
Houve um breve silêncio.
— É a idade de ouro para uma
bailarina.
A voz dele carregava uma admiração
quase apaixonada.
— Nessa fase o corpo aprende com uma
velocidade impressionante. Técnica ainda pode ser construída. Maus hábitos
ainda podem ser corrigidos. É quando quase tudo é possível.
Taylor permaneceu olhando através do
vidro.
A menina repetia o mesmo movimento
pela quinta... sexta... sétima vez. Sem reclamar. Sem desistir.
John aproximou-se um pouco mais
enquanto falava, completamente envolvido pelo próprio entusiasmo.
— É disso que eu gosto. Ver alguém
descobrir do que é capaz antes que o mundo diga que não consegue.
Taylor sentiu novamente a proximidade
dele. O perfume. O calor discreto do corpo ao seu lado. John parecia esquecer
completamente que falava com sua funcionária, mas falava como alguém que
apresentava um lugar importante para uma pessoa cuja opinião realmente lhe
interessava.
— Quando Rachel começar a frequentar o
estúdio... — disse ele, sem desviar os olhos da menina que ensaiava — você
também vai acabar conhecendo tudo isso.
Fez um pequeno gesto com a mão,
indicando o prédio inteiro.
— Os ensaios, os professores, os
bastidores... meu mundo.
Então voltou o rosto para Taylor. Havia
um brilho incomum em seus olhos.
— Acho que você vai gostar de
descobrir as coisas que construí aqui.
Taylor sustentou o olhar por apenas um
instante antes de voltar a observar a bailarina.
Porque, naquele momento, compreendeu
duas coisas ao mesmo tempo: A primeira era que John estava voltando a derrubar,
pouco a pouco, a distância que havia construído entre eles nas últimas semanas;
A segunda era muito mais perigosa, quanto mais ele a convidava para conhecer
aquele mundo... mais perto ela chegava da verdade que fora buscar.
John ainda observava a menina do outro
lado do vidro quando uma nova voz surgiu no corredor.
— Então era aqui que vocês dois
estavam.
Taylor afastou-se instintivamente.
Não foi um movimento brusco, apenas
suficiente para recuperar uma distância confortável entre ela e John antes
mesmo de olhar para trás.
Katheryn caminhava em direção aos dois
com a elegância habitual. Vestia um tailleur claro, o celular ainda na mão e os
óculos de sol apoiados sobre os cabelos. Seu olhar encontrou primeiro o marido.
Depois deslizou naturalmente para Taylor.
Por um breve instante, o silêncio
pareceu durar mais do que deveria.
Ela havia visto.
Talvez não tivesse ouvido a conversa.
Talvez não tivesse percebido exatamente o que acontecia. Mas vira os dois, lado
a lado, próximos o bastante para que aquilo lhe despertasse a velha
desconfiança que jamais desaparecera completamente.
Ainda assim, seu rosto permaneceu
sereno.
— Resolvi a questão dos
patrocinadores. — disse apenas para John. — Podemos manter a coletiva na
terça-feira.
John assentiu.
— Ótimo.
Katheryn voltou os olhos para a sala
de ensaio atrás do vidro.
— É a turma das crianças?
— Aula particular. — respondeu John. —
Ela participa da seleção para o Royal Ballet no próximo semestre.
Katheryn observou a menina por alguns
segundos e sorriu discretamente.
— Bonita técnica para alguém tão nova.
John concordou com um leve movimento
de cabeça.
— Ela tem potencial.
A conversa morreu ali.
Katheryn não perguntou por que Taylor
estava sozinha com ele naquele corredor.
Também não comentou a proximidade
entre os dois.
Mas Taylor percebeu, pelo breve
endurecimento de seu olhar antes de se voltar novamente para o estúdio, que
aquela imagem não passara despercebida.
— Rachel deve estar enlouquecendo a
Claire de perguntas. — comentou John, mudando completamente de assunto. — Vou
procurá-las.
Sem esperar resposta, seguiu pelo
corredor.
Taylor observou-os entrelaçarem as
mãos.
Havia alguma coisa naquela mulher que
impressionava. Katheryn jamais fazia escândalo. Nunca reagia impulsivamente.
Guardava tudo para si, como quem preferia transformar suspeitas em observação
antes de agir.
E isso a tornava ainda mais difícil de
prever.
Poucos minutos depois, os três
chegaram ao estúdio menor onde Claire terminava uma atividade com Rachel.
A menina permanecia diante da barra de
apoio, completamente concentrada.
— Alonga mais um pouquinho... isso...
— orientava Claire com paciência. — Agora tenta manter as costas bem retas.
Rachel fazia força para copiar
exatamente a postura demonstrada pela professora. Errava. Ria. Tentava
novamente.
John permaneceu parado junto à porta,
assistindo sem interromper.
Taylor percebeu o orgulho discreto
estampado em seu rosto cada vez que Rachel acertava um movimento simples.
— Ela aprende rápido. — comentou
Claire quando os viu chegar.
Rachel imediatamente soltou a barra.
— Papai! Olha!
Tentou repetir a pequena sequência que
acabara de aprender.
Os pés ainda tropeçavam um no outro,
os braços saíam do lugar antes da hora, mas o entusiasmo compensava qualquer
falta de técnica.
Quando terminou, olhou para os pais
esperando aprovação.
John foi o primeiro a bater palmas.
Katheryn sorriu logo em seguida.
— Muito bem.
Rachel correu até eles.
— Eu quero voltar!
Claire sorriu.
— Acho que nós também queremos.
John voltou-se para a professora.
— Você consegue encaixá-la na turma
infantil?
— Consigo. Terças e quintas no fim da
tarde ainda têm vagas.
Katheryn consultou mentalmente a
agenda.
— Depois da escola...
— Funciona. — respondeu John.
— Então está decidido.
Rachel deu um pequeno grito de alegria
antes de abraçar os dois ao mesmo tempo.
Taylor observava a cena alguns passos
atrás. Terças e quintas. Fim da tarde. Seu pensamento organizou imediatamente a
informação. Era ela quem acompanhava todas as atividades. Quem esperaria
durante cada aula.
A constatação surgiu com uma clareza
inevitável.
Aquele estúdio deixaria de ser apenas
uma visita ocasional.
Passaria a fazer parte da sua rotina.
Taylor voltou os olhos para a parede
coberta de fotografias, visível do outro lado do corredor.
Para Emily.
Para todas as histórias escondidas
entre aquelas molduras.
Pela primeira vez desde que encontrara
seu nome, teve a sensação de que o destino acabara de lhe entregar exatamente o
que precisava.
Sem perceber, John aproximou-se
novamente.
— Parece que você vai se acostumar com
este lugar.
Taylor desviou o olhar das fotografias
e encontrou o dele.
Sorriu apenas por educação.
— Pelo visto... vou.
Mas, dentro de si, a resposta era
outra.
Era exatamente ali onde ela gostaria
de estar.
[CONTINUA]
