Rio de Janeiro, 17 anos. Sonha em ser escritora. Ama chocolate e sorvete! Viciada em animes, k-pop, doramas e livros de ficção.
Há um velho poema de Neruda pelo qual eu sempre fui fissurada e uma de suas linhas grudou em mim desde o primeiro momento em que o li. Ele diz “o amor é tão curto, o esquecimento é tão longo.” É um verso que sempre relacionei aos meus momentos mais tristes, quando eu precisava saber que mais alguém se sentia exatamente da forma como eu estava me sentindo. E então, quando estamos tentando seguir em frente, os momentos que nos lembramos não são os piores momentos. São os momentos em que você vê faíscas que na verdade não estavam lá ou em que sente as estrelas alinhadas sem ter prova alguma, vê o futuro antes dele acontecer e então isto escapa sem nenhum aviso. Estes são momentos de esperança e extrema alegria, intensa paixão, pensamento ilusório e, em alguns casos, a inimaginável desapontamento. E, na minha cabeça, cada uma dessas memórias se parecem uma só. Eu vejo estes momentos em brilhante e ardente vermelho.

Em Memória | Capítulo Único


O céu acinzentado e cheio de nuvens brancas indica sinais de tempos chuvosos, mas não era um pretexto para interromper o trabalho na lavoura. As terras apresentavam um tom de marrom claro – como se não chovesse naquelas terras por um longo período. Ao observar as casas dos senhores de Engenho, era possível ouvir o som do mar e dos coqueiros por conta do forte vento. Assim Frans Post retrata o Brasil no período colonial.
Não me sentia assim há algum tempo. O sentimento velado dentro do meu peito foi despertado por uma obra de arte cuja história era semelhante a minha: a saudade.
Ver o retrato do tempo nublado e o mar um tanto raivoso era como se me levasse diretamente para Florianópolis há um ano atrás. Uma pequena ilha cercada pelo mar e grande ventania no período de inverno.
Durante três meses passo por essa obra e a ignoro, assim como todas as outras que completam esse museu, pois as vejo todos os dias. E de todos os dias, esse é um dia especial e não me condeno por estar emotiva.
O aspecto cinzento da obra era semelhante ao dia que meu irmão morreu, ou melhor, quando descobrimos seu corpo porque nunca soubemos o dia exato da sua morte, como não soubemos de nada anterior a isso. Como eu gostaria de não lembrar do que veio depois disso.
Mudo o olhar para outra pintura. Tento seguir em frente como prometido.
É melhor assim.

“É, ele nasceu em 1612. Pintava só paisagens, cenas de batalhas tanto terrestres quanto navais. Devia ser legal, não é Henrique?”

Paro assim que escuto a voz tagarela da menina atrás de mim e me seguro para não olhar em sua direção no mesmo instante. Algo nela me é estranhamente familiar e me sustenta uma sensação quase palpável de nostalgia e tristeza, porque essa cena se parece exatamente comigo e meu irmão. 

“ Uhum.”

O menino responde, e eu sorrio, achando graça em toda a semelhança. 
Agora que presto atenção na conversa, sei que o que ela fala está, em grande parte, correto. Frans Prost era mesmo um pintor paisagista. Tomava a frente dos seus pais e saia pelos corredores apontando e dando informações sobre tudo que sabia.

“Ele ficou por muito tempo trabalhando no Brasil para um Conde-governador, mas ele deveria sentir falta de casa. Acredito que ele gostava muito da Holanda como gostava do Brasil porque mesmo distante ele continuou a pintar nossas paisagens.”

Eles seguem em frente e, obstinada a reviver um pouco a minha infância no espelho da infância dos dois, os sigo, cuidadosamente para que não percebam. Henrique é maior que a menina, embora pareçam ter a mesma idade, e é muito bom em fingir interesse pela biografia que a irmã derrama em cima dele.

“Deve ser bom morrer no lugar que nasceu.”
“Ele deveria gostar da Holanda porque ele voltou.”

O garoto responde demostrando que a compreendia e ela continuou:

“Eu quero morrer onde nasci também! Claro que irei conhecer o mundo para estudar, mas eu quero fazer como ele. Voltar para minha terra natal e morrer entre minha família. Imagino que seja legal viver pelo mundo, mas eu quero estar com quem eu amo.”

Observo eles se distanciarem. Sinto ecoar sua última frase na minha cabeça. Aquela garota tinha razão: deve ser bom morrer onde nasceu, ou, ao menos, morrer entre seus familiares.
Meu irmão não deve essa sorte.
E eu também.
Deixo que eles sumam, mas ainda posso ouvir a voz da menina. Suspiro antes de partir eu mesma, expulsando todas as outras lembranças que começam a brotar em mim.
Realmente, é melhor assim.

Dedico esse conto a Thaysa e Henrique. Duas pessoas que estiveram comigo quando precisei e pude contar como grandes amigos e irmãos.
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