Não é apenas uma noite, o natal é
mais do que isso. O natal é um conceito tão complexo que na prática se torna
simplório demais, pois, no final do dia, o natal é sobre o amor e não há nada
mais simplório do que amar.
E em cada canto no mundo, o natal é
celebrado de diferentes formas, mas o elemento chave que não pode faltar nos
milhares de lares ao redor do globo é a árvore de natal. E deve ser neste
momento que a magia do natal floresce em cada pessoa, pois é quando,
finalmente, pegamos a árvore para decorá-la e trazer os presentes para perto é
que entendemos de uma vez por todas que a época natalina chegou e que tudo que
poderíamos ter feito no ano, já era para ter feito. É a época de abandonar o
passado e planejar o futuro.
Seja uma árvore grande ou pequena,
o que importa é o simbolismo que ela carrega para cada família que sai de seus
lares rumo às fazendas de pinheiros achar a sua árvore ideal. E é este momento
favorito de Taylor Swift, que comanda a Swift’s Chritmas Trees, em
Wisconsin – e que, segundo a cliente diz, é a melhor fazendas de pinhos da
região. E não é para menos, estamos falando do legado de quatro gerações.
E assim como o natal, não é só o
legado da família, mas uma tradição levar o simbolismo do natal para inúmeras
famílias e tal legado que Taylor tinha o compromisso de passar para mais
gerações da família Swift – ao menos, era no que ela acreditava.
Faltando cerca de cinco dias para o
natal, o céu já apresentava sinais que escureceria mais rápido do que o
habitual, pois, segundo o jornal local, viria a qualquer momento uma nevasca. E
naquele dia, diferente de suas lembranças da infância, a fazenda não tinha tido
um bom dia para os negócios, pois vendeu somente sete árvores.
A última árvore estava sendo
escolhida por uma garotinha de seis anos que, bem agasalhada com seu casaco
rosa e plumas, gritava pela fazenda:
— Papai! Papai! Aqui!
Acompanhada de Taylor, um homem de
meia-idade foi até a criança e a viu apontando para uma árvore de pinho média,
bem cheia e com flocos de neve ao redor de suas folhas.
— É essa, papai. É perfeita para
nós. — a pequena completou.
— Acho que é muito grande para
nossa casa, querida... — O homem respondeu.
— Não, não, papai! É perfeita! — a
pequena retrucou firme. — E eu mesma irei decorar cada parte dela. Será o
melhor natal de todos. — completou animada.
— Levaremos essa, Taylor. — o homem
respondeu.
— Ótima escolha. — Taylor
respondeu. — É uma das minhas favoritas.
— Nós sabemos, o Scott nos dizia
para sempre escolher as árvores da esquerda. — o homem comentou. — E sua mãe,
Taylor, como ela está?
— Bem, bem... Sabe como é, alguns
dias são melhores que outros... — Taylor respondeu.
Taylor foi até a árvore com um
machado e sinalizou a árvore, depois pegou uma motoserra elétrica e cortou a
árvore de sua raiz visível com a ajuda do rapaz. Embalaram a árvore com cuidado
e colocaram, juntos, na picape do homem. Após realizar o pagamento, o homem
disse:
— Taylor, é melhor contratar um
ajudante. É trabalho demais para você!
— Estou indo bem, eu gosto de fazer
esse trabalho manual.
— Você quem sabe, mas agradeço a
atenção à minha filha. Feliz natal.
— Feliz natal para vocês. — Taylor
sorriu.
O homem pegou na mão de sua filha e
foram rumo ao carro, com a pequena garota dizendo ao pai suas diferentes ideias
para decoração da árvore. Em contrapartida, outro automóvel entrou a fazenda e
estacionou perto da casa da família, um rapaz alto que vestia roupa social saiu
de um Volvo XC90 e cumprimentou a mãe de Taylor que estava na varanda. Taylor
caminhou em passos pesados e rápidos, cruzando toda a neve, até aproximar-se.
— Mamãe, por favor, entre! Está
muito frio! — Taylor ordenou.
A mãe assentiu, reconhecendo que, a
cada minuto que passava, o tempo piorava e os flocos de neve caiam com mais
densidade. Taylor acompanhou a mãe e fechou a porta, virando-se ao rapaz.
— Como posso ajudá-lo?
— Procuro por Scott Swift. —
respondeu o rapaz. — Ou pelo responsável pela fazenda.
— E quem procura? — A jovem
indagou, com a expressão desconfiada.
— Oh, desculpe-me. Meu nome é
Thomas Hiddleston, mas o sr. Scott me conhece como Tom, vim falar sobre a
propriedade de vocês. É importante.
— Sobre a fazenda? Do que deseja
falar sobre a fazenda?
— Acredito que não falarei com o
sr. Scott hoje, não é mesmo? — ele riu. — Meu assunto a tratar com ele, ou com
o responsável pela fazenda, é sobre a hipoteca da casa.
A moça ficou em silêncio e encarou
o rapaz por completo. Ele suspirou e retirou uma papelada de sua maleta,
esticou sua mão para entregá-la.
— Acredito que seu nome seja
Taylor, Taylor Swift, não é mesmo? A filha de Scott, ele falou-me muito sobre a
senhorita. — o rapaz sorriu. — Meu assunto é importante, garanto que você vai
querer me ouvir.
— Do que se trata isso... — Taylor
olhou a papelada por cima. — Hipoteca?
— Seu pai hipotecou a fazenda há alguns
anos por conta de uma grande dívida que ele não pagou. E agora a fazenda... não
pertence mais a ele.
— O Scott Swift... meu pai... meu
pai faleceu... — ela respondeu.
— Oh! Scott... está...? — ele
pareceu confuso. — Eu, eu não sabia... Como...
— É melhor o senhor ir embora,
começará uma nevasca a qualquer momento. E tratemos desse assunto em outro
momento mais oportuno. — Taylor
respondeu dura.
— Eu sei que a senhorita deseja se
esquivar, mas eu garanto que é melhor tratarmos disso agora, pois existe um
prazo... — ele respondeu. — Estamos à poucos dias do feriado, tudo fechará
neste período, mas no dia 13 de janeiro, vocês receberão uma visita dizendo
para deixar a fazenda porque... essa fazenda já não pertence a vocês!
— O que? — Taylor gritou, nervosa. —
Tão... tão rápido assim? Como eu, como eu nunca soube disso?
— Eu liguei algumas vezes, mandei
cartas, mas nunca obtive respostas. — ele respondeu-a, calmo. — Por isso
gostaria de conversar. Não estaria aqui se não fosse importante.
Taylor titubeou por alguns minutos,
mas cedeu, concordando com a cabeça. Ela abriu a porta e o recebeu na sala de
estar, o rapaz sentou-se em uma poltrona e observou-a tirar uma jaqueta pesada,
amarrando seu cabelo em um rabo-de-cavalo alto e inclinou-se na lareira, onde
colocou mais alguns pedaços de madeira para esquentar o ambiente. Sentou-se de
frente à Thomas e questionou-o:
— Quem é o senhor e como sabe tanto
sobre... a hipoteca da casa?
— Antes de conversarmos, seria
indelicadeza perguntar o que aconteceu com o sr. Scott?
Ela arregalou os olhos e balançou a
cabeça confusa, mal sabia ele que aquilo era algo sensível, um assunto quase
proibido naquela casa. Esfregou as mãos em suas pernas e respondeu:
— Meu pai faleceu em fevereiro com
um infarte fulminante. Aqui mesmo enquanto ainda trabalhava... — ela contou,
trêmula. — Foi quando voltei para cá, para dar continuidade...
Thomas ficou em silêncio, buscando
digerir a notícia que o atingiu como uma pedra, mas buscando não demonstrar que
tal novidade o impactou, tanto seus sentimentos, quanto seus planos.
— Isso explica por que ele nunca
mais retornou meus telefonemas e cartas... Sinto muito.
— O que te traz aqui, afinal? Por
que está atrás dele?
— Como te falei, sou Thomas
Hiddleston, sou funcionário do Wells Fargo, o banco em que seu pai mantinha
contas abertas, mas a minha filial principal é em Londres. Conheci seu pai há
alguns anos aqui mesmo em sua fazenda... — ele sorriu ao relembrar. — Isso faz
uns três anos, quando vim até aqui por indicação de uma funcionária que dizia
que era a melhor fazenda de pinhos da região. Sai de Chicago para cá só para
comprar uma árvore de natal para a unidade que trabalho. Venho para cá algumas
vezes ao ano para cuidar do meu departamento, normalmente, no final do ano para
fechar contabilidade. — ele suspirou. — Na primeira vez que vim, seu pai puxou
bastante assunto comigo, ele dizia que conhecer o cliente e suas intenções o
direcionava na melhor escolha.
Taylor passou a mão em seu rosto,
aquilo soava realmente como seu pai era. Sentiu seu coração palpitar mais
rápido, pois trouxera uma lembrança do homem que era.
— Quando contei que trabalhava no
banco, ele contou-me sua situação financeira... que não era muito boa. Eu
tentei ajudá-lo de forma mais... simples, não quis me envolver porque não era
algo da minha alçada. Mantive as informações padrões, mas ele dizia que
precisava de direcionamentos melhores, pediu-me mais tempo e que ele me daria o
pinho em troca de uma atenção maior... — ele riu. — como se o seu trabalho
fosse de menos comparado ao que ele enfrentava. Ele parecia preocupado, dizia
que era um homem justo e que honrava sua dívida, mas estava difícil. Aceitei
olhar suas finanças, mas cheguei tarde demais e seu pai já tinha... estragado
tudo!
— O que você viu?
— Seu pai já tinha hipotecado a
propriedade, logo quando sua mãe começou a apresentar problemas sérios de
saúde. Ela já não tinha condições de ajudá-lo e os remédios eram caros demais.
O sr. Scott tinha começado com um empréstimo de dez mil dólares, depois pegou
mais trinta mil dólares para poder pagar sua faculdade e comprar os remédios de
sua mãe. Por fim, ele pegou mais cinquenta mil dólares para poder sustentar a
fazenda e suas obrigações com você e sua mãe. Naquele mesmo natal, voltei aqui
para conversar com ele sobre a venda da propriedade, pois parecia o único meio
dele quitar toda a sua dívida...
A moça suspirava com cada
informação, tudo aquilo parecia mentira ou outra realidade que ela nunca
conheceu. Ela sabia que as vendas decaíram pelos anos, mas não sabia que seu
pai tinha ficado com dívidas até a cabeça, mal conseguia quantificar o quanto seu
pai ficou devendo.
— E o que você tem a ver com isso?
O que te traz aqui?
— Ele realmente era um homem bom. E
eu soube disso quando o vi desesperado para salvar sua família. — Thomas
contou. — Ele dizia que você era tudo e que você seria a primeira pessoa da
família a voltar para casa com um diploma. Ele tinha tanto orgulho de você, mas
também era orgulhoso porque ele se negou a vender a fazenda. Ele dizia “sr.
Hiddleston, não me leve a mal, sei que quer me ajudar, mas as coisas não são
tão simples, eu jamais venderia isso aqui. É tudo que temos!” ou me dizia
“Prometi a minha filha que jamais venderia seu lar, não posso descumprir essa
promessa”.
Taylor inclinou-se para frente e
limpou as lágrimas que escorriam em seu rosto, Thomas apoiou sua mão no joelho
da moça e completou:
— Não quero magoá-la.
— Por favor, continue. Quero que me
explique como um gerente de outro país veio fazer aqui nas vésperas de natal.
Qual é a sua participação nisso tudo?
— Tentei ajudá-lo, reorganizei suas
finanças e reestruturei suas economias. Quando vinha para Chicago, dirigia até
aqui para vê-lo. Foi uma amizade bem bacana. — ele contou, com um sorriso. —
Ele nunca aceitou nenhuma ajuda financeira, dizendo que não saberia como me
pagaria, mas na última vez que o vi, no ano passado, ele disse que as coisas
tinham melhorado um pouco, mas não o suficiente para pagar as dívidas. E que os
juros estavam muito altos, sua dívida já beirava duzentos mil dólares. O sr.
Scott sabia que perderia a casa a qualquer momento.
— E agora nós iremos perder a casa,
não é? — Taylor riu, desesperada. — É isso que te traz aqui?!
— Taylor, não é só isso que me
trouxe aqui. — Thomas levantou-se. — Pensei que teria mais tempo com seu pai,
mas isso não é possível, então, cabe a você me ouvir bem e, eu sei que será
difícil, mas buscar entender que estou longe de querer o mal para você.
— Diga!
— Essa fazenda, toda essa
propriedade... Tudo pertence a mim!
Taylor arregalou os olhos e
levantou-se em um único impulso, foi tomada por uma raiva irracional e empurrou
Thomas pelo peito aos gritos:
— Saia daqui! Saia daqui agora!
Saia da minha casa!
— Taylor, por favor, eu sei que é
difícil me ouvir no momento, mas apenas...
— Vá embora! Saia daqui! — repetia.
— Não quero vê-lo aqui!
Thomas foi posto para fora da
residência e foi tomado por uma ventania forte. A nevasca já começara e seu
carro já tinha sido parcialmente enterrado pela neve. Ele voltou-se a ela:
— Taylor, por favor, deixe-me
explicar tudo o que aconteceu.
— Você enganou meu pai!
— Nunca faria isso! Eu realmente
gostava do seu pai! — ele respondeu, calmo.
— Mentiroso! Saia da minha casa!
— Taylor...
— Como um banqueiro londrino sabe
das dívidas de um homem que pediu sua ajuda, em troca, compra a sua única
casa?! Não tem o que explicar! Você se aproveitou do meu pai!
— Fiz isso pelo bem dele...
— Vá embora!
Taylor avançou para cima de Thomas
mais uma vez, fazendo- recuar e pular os degraus da varanda da casa. Ele olhou
para o céu, assustado com a neve que caía de maneira grotesca e entrou em seu
carro.
— Boa sorte ao tentar sair daqui! —
Taylor disse, com um olhar vingativo.
Ele não respondeu, apenas
assistiu-a entrar novamente dentro de casa. Balançou a cabeça negativamente
pensando que toda a reunião foi um grande fracasso e que ir embora dali seria
mais difícil do que lidar com a fúria da moça.
Tentou dar partida no carro duas
vezes, dirigiu lentamente até o portão da propriedade, mas sentia os pneus
escorregadios e o para-brisa não conseguia dar conta dos flocos de neve que
caiam do céu sem nenhuma piedade. Toda a paisagem se tornou um quadro branco e
somente Thomas estava ali, no lado de fora, para encarar o frio.
Ele desligou o motor do carro e
ficou ali para ser enterrado na nevasca.
Pela janela da cozinha, Taylor
assistia Thomas fracassar em sair da fazenda. Ela descascava e cortava com
fúria os legumes para fazer uma sopa, mas seu foco estava na conversa que
ocorrera com Thomas – ela não entendia como tudo aquilo aconteceu sem que tivesse
qualquer desconfiança, sem seu pai confiar nela para contar a verdade.
Taylor encolheu-se sozinha aos
afazeres da cozinha em lágrimas, quase que silenciosas, ao perceber que ela
poderia dizer qualquer coisa, mas que já tinha perdido toda a batalha.
O barulho das escadas entregava sua
mãe, que descia com certa dificuldade. A moça limpou as lágrimas rapidamente e
virou a atenção para sua mãe, que disse:
— Tay, querida, aquele rapaz
morrerá de frio!
A filha ignorou a própria mãe,
continuando a fazer suas tarefas. Depois de colocar todos os legumes na panela
de pressão, voltou a atenção aos remédios, dando para sua mãe cerca de três
comprimidos.
— Taylor, você não é assim. —
insistiu. — Seu pai gostava desse rapaz...
— A senhora lembra dele? — Taylor
questionou, curiosa.
— Sim, sim... — respondeu, avoada. —
Ele vinha aqui várias vezes ajudar seu pai, ora nas contas da fazenda, ora na
própria fazenda. Não é um rapaz ruim, não o deixe ser engolido pela neve.
— Mamãe, não é certo...
— Você não é uma pessoa que guarda
raiva, Taylor. Eu sei disso, seu pai sabia disso.
— Ele não deveria ter vindo...
— Seu pai não era um homem
perfeito... Ele fez o que achava certo...
— Eu sei, mas... — Taylor balançou
a cabeça, ainda estava nervosa. — Deixa para lá!
Sua mãe foi até a sua poltrona e
trabalhou em algumas linhas de crochês, enquanto Taylor finalizava a sopa.
Ainda quente, Taylor jantou com sua mãe – que elogiara a filha. Depois, sua mãe
anunciou que estava cansada, com sono e que gostaria de ir me deitar, pois não
se sentia bem – um dos sintomas de sua doença, as dores que nunca cessam.
Taylor ajudou sua mãe a subir as
escadas e levou-a até a cama, assistindo-a adormecer.
Pela janela, Taylor mal conseguia
ver o carro de Thomas, pois, além da escuridão da noite transformar a fazenda
em um grande breu, a neve já tomara o carro por completo. Ela desceu as escadas
e vestiu suas botas térmicas e seu casaco felpudo, decidiu encarar o frio para
fazer o que era certo.
Atravessou em passos lentos a
fazenda, tentando se proteger daquele frio severo e bateu no vidro do carro
algumas vezes. Thomas abaixou o vidro, tentara disfarçar que se tremia dentro
do automóvel.
— Venha! Entre antes que morra de
frio! — Taylor disse.
— Não se preocupe, eu fico aqui até
melhorar. Então, partirei!
— Não vai melhorar. — Taylor
afirmou. — E eu não quero ligar para a polícia poucos dias antes do natal porque
um estrangeiro morreu aqui.
Ele concordou, com um riso. Fez
força para abrir a porta, pegou sua maleta e uma pequena mala que carregava
consigo. Seguiu Taylor até a casa, entrou todo molhado da chuva que caía junto
a neve. Encolheu-se próximo a lareira da sala de estar.
Taylor tirou seu casaco e limpou as
botas. Olhou para Thomas tentando se secar com a própria roupa do corpo e
revirou os olhos.
— Venha comigo!
Subiram as escadas e foram até a
segunda porta do corredor, Taylor abriu a gaveta e retirou algumas peças de
roupa, entregou para Thomas.
— Acredito que vão lhe servir. —
disse. — Você pode dormir aqui. É um quarto de hóspede. Depois que se trocar,
desça para comer um pouco de sopa e pegar algumas madeiras para acender a
lareira.
Taylor desceu as escadas, minutos
depois, Thomas vestia um pijama listrado antigo – era de um primo distante de
Taylor, que esquecera em um natal passado. A moça serviu-o a sopa ainda quente,
sentou-se em sua frente e assistiu-o comer em silêncio, já não se tremia tanto
quanto antes.
— Você queria me falar mais... —
Taylor encarou-o. — É a oportunidade!
Ele balançou a cabeça negativamente
e continuou comendo a sopa.
— Não vou me desculpar pelo modo
que reagi mais cedo, estava no meu direito.
— Não quero que peça desculpas.
Entendo que não foi certo da minha parte aparecer aqui para dar essas notícias,
mas eu quero ajudar.
— Você não para de repetir isso! —
Taylor retrucou, irritada. — O que tanto quer ajudar?
Thomas encarou-a, em silêncio.
Desviou o olhar para uma pequena caixa no centro da mesa, abriu e manuseou os
remédios que continha dentro.
— Como está a sua mãe?
— Tem dias melhores que outros.
Hoje foi um bom dia... — respondeu. — por quê?
— Sabe quanto custa um desses aqui
para quem sofre de hidrocefalia de pressão normal? Não é barato, nem fácil, a
condição da sua mãe... — Thomas disse de forma dura. — Seu pai dizia que essa
demência a transformou, ela se esquece das coisas...
Taylor assistiu-o guardar os
remédios e a afastar o prato já vazio.
— Estava uma delícia. — disse,
satisfeito.
— O que quis dizer... sobre minha
mãe?
— Ah, os remédios sempre chegam
aqui. Todo início de mês, sem nenhum custo, não é?
— Como sabe?
— Porque é verdade quando digo que
sempre tentei ajudar seu pai. Não são baratos e manter esses remédios com os
problemas financeiros que seu pai tinha, sua mãe não resistiria. — Thomas
respondeu. — E eu me comprometi a comprar cada um dos remédios, todos os
meses...
Taylor ficou em silêncio, sentiu
uma grande bancada atingir seu orgulho. Ela abaixou a cabeça e riu, mas fez de
maneira desesperançosa.
— Então, nós te devemos... — disse
ela, cabisbaixa. — Uau...
— Não disse isso. Apenas que, é
verdade, quando digo que me importei muito com toda a situação do seu pai e fiz
o que ele me permitiu fazer. Ele era um bom homem, ajudou-me em sua maneira,
mais do que realmente soube e eu só tentei contribuir.
— Você quitou a dívida do meu pai,
mesmo que tenha me tirado meu único lar, pagou os remédios de minha mãe...
devemos você tudo. — riu. — E devemos de uma forma que não temos como pagar...
— Também não pedi para que me
pagasse algo...
— Meu Deus, Thomas, esse papel de
bom samaritano não combina com um banqueiro. O que é isso, afinal? Uma obra de
Charles Dickens? Sou o Scrooge e você um dos bons fantasmas que veio salvar meu
natal?!
— Uau... — ele riu. — adoro Charles
Dickens, se quer saber...
— Eu sinto que existe uma pegadinha
aí, conte-me logo o que realmente te trouxe aqui.
— Taylor, pouco tenho vontade de
ficar com essa fazenda. Com todo respeito, nada me deixa mais enjoado do que o
interior americano. Posso lhe dizer a verdade, eu gostava muito do seu pai e
ele fez muito por mim, não financeiramente, longe disso... Mudou-me como pessoa
que enxergou a vida além do trabalho. Diria que sou eu o Scrooge antes do seu
pai me mostrar que há mais no mundo do que isso.
— Ele nunca me falou de você...
— Mas ele me contou muito sobre
você. Ele tinha orgulho de você, muito orgulho!
Taylor ficou em silêncio. Falar de
seu pai, ter alguém para lembrá-la do tanto que foi amada pelo seu pai,
deixava-a desarmada.
— Não quero essa fazenda. Vim aqui
para devolver a ele... Bom, agora quero devolver para você.
— A que preço isso vai acontecer? —
Taylor disse, irritada. — Thomas, não tem graça alguma conversar com você,
coloque-se no meu lugar. Eu não te conheço, o meu pai jamais me falou sobre
você... Sobre nada do que descobri hoje! E eu já não tenho nada por que você me
tomou tudo que achei que tinha, essa casa... era tudo que eu tinha! Além da
minha dignidade, nós te devemos até o pescoço e você diz que quer me devolver
sabendo que não temos como pagar!
Ela virou o rosto, voltando a
chorar, mostrando sua fraqueza ao homem que detinha todo o poder. Ele tentou
acolhê-la, mas ela rejeitou.
— Eu sei que é difícil, mas saiba
que vim com boas intenções. Deixe-me explicar que eu também estou em uma
situação difícil por conta dessa casa. Eu fiz um sacrifício e estou tentando
salvar todos nós, incluindo eu mesmo.
— O que quer dizer?
— Eu não comprei essa casa do seu
pai, já não pertence à família de vocês há meses. Em outubro do ano passado,
essa fazenda foi à leilão e foi a última vez que falei com seu pai, ele sabia e
me disse que já não tinha jeito... mas eu dei um jeito, eu comprei a casa no
leilão em janeiro, eu comprei para devolvê-lo porque... eu nunca amei algo
assim, mas ele amou.
— Você...
— Eu comprei para que, de alguma
forma, ele pudesse continuar o legado de vocês! Quando a papelada saiu, já era
maio e eu tentei entrar em contato com ele, mas nunca consegui. Vim até aqui
para poder contar que ainda não terminou, mas cheguei tarde...
Taylor ficou quieta, mas indagou:
— E como isso te afetou?
— Bom, eu... eu me envolvi de
maneira muito pessoal com um cliente, tentei mudar os acordos feitos por ele...
descobriram que eu agi de má-fé contra o banco para facilitar a vida de seu
pai. Acabei de comentar com uma pessoa que quebrou minha confiança sobre o
leilão e eu estou aqui tentando fazer com que as coisas deem certo... Quando
voltar para Londres, sei que perderei meu emprego...
— Tudo isso pelo meu pai?
— Um dia, quem sabe, você acredite
que ele me mudou. — Thomas respondeu.
— E qual era seu plano?
— Não tinha planos, até agora...
— Eu quero minha casa de volta,
Thomas! Diga-me o que posso fazer?!
— Tem duas alternativas mais
simples, mas você odiará ambas.
Thomas se levantou e aproximou-se
da lareira, voltou sua atenção à Taylor e sorriu.
— A primeira alternativa é você
comprar essa terra, um negócio bem simples. Já a segunda alternativa é um pouco
mais complicada, mas seria mais barato... e você vai querer negar, mas pense
com carinho...
Ele esticou sua mão para a jovem e
disse:
— Poderíamos nos casar... aceita
casar-se comigo?
[CONTINUA]

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