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26 de outubro de 2025

The Swift’s Christmas Trees | 01° Capítulo.

01° Capítulo – “Deixe a neve cair”

Natal! Até os mais descrentes e apáticos sabem que não há época mais mágica e envolvente do que a época natalina de dezembro, pois é a época que somos tomados pelo amor e encanto do bom e velho velhinho que aquece nosso coração neste período frio.

Não é apenas uma noite, o natal é mais do que isso. O natal é um conceito tão complexo que na prática se torna simplório demais, pois, no final do dia, o natal é sobre o amor e não há nada mais simplório do que amar.

E em cada canto no mundo, o natal é celebrado de diferentes formas, mas o elemento chave que não pode faltar nos milhares de lares ao redor do globo é a árvore de natal. E deve ser neste momento que a magia do natal floresce em cada pessoa, pois é quando, finalmente, pegamos a árvore para decorá-la e trazer os presentes para perto é que entendemos de uma vez por todas que a época natalina chegou e que tudo que poderíamos ter feito no ano, já era para ter feito. É a época de abandonar o passado e planejar o futuro.

Seja uma árvore grande ou pequena, o que importa é o simbolismo que ela carrega para cada família que sai de seus lares rumo às fazendas de pinheiros achar a sua árvore ideal. E é este momento favorito de Taylor Swift, que comanda a Swift’s Chritmas Trees, em Wisconsin – e que, segundo a cliente diz, é a melhor fazendas de pinhos da região. E não é para menos, estamos falando do legado de quatro gerações.

E assim como o natal, não é só o legado da família, mas uma tradição levar o simbolismo do natal para inúmeras famílias e tal legado que Taylor tinha o compromisso de passar para mais gerações da família Swift – ao menos, era no que ela acreditava.

Faltando cerca de cinco dias para o natal, o céu já apresentava sinais que escureceria mais rápido do que o habitual, pois, segundo o jornal local, viria a qualquer momento uma nevasca. E naquele dia, diferente de suas lembranças da infância, a fazenda não tinha tido um bom dia para os negócios, pois vendeu somente sete árvores.

A última árvore estava sendo escolhida por uma garotinha de seis anos que, bem agasalhada com seu casaco rosa e plumas, gritava pela fazenda:

— Papai! Papai! Aqui!

Acompanhada de Taylor, um homem de meia-idade foi até a criança e a viu apontando para uma árvore de pinho média, bem cheia e com flocos de neve ao redor de suas folhas.

— É essa, papai. É perfeita para nós. — a pequena completou.

— Acho que é muito grande para nossa casa, querida... — O homem respondeu.

— Não, não, papai! É perfeita! — a pequena retrucou firme. — E eu mesma irei decorar cada parte dela. Será o melhor natal de todos. — completou animada.

— Levaremos essa, Taylor. — o homem respondeu.

— Ótima escolha. — Taylor respondeu. — É uma das minhas favoritas.

— Nós sabemos, o Scott nos dizia para sempre escolher as árvores da esquerda. — o homem comentou. — E sua mãe, Taylor, como ela está?

— Bem, bem... Sabe como é, alguns dias são melhores que outros... — Taylor respondeu.

Taylor foi até a árvore com um machado e sinalizou a árvore, depois pegou uma motoserra elétrica e cortou a árvore de sua raiz visível com a ajuda do rapaz. Embalaram a árvore com cuidado e colocaram, juntos, na picape do homem. Após realizar o pagamento, o homem disse:

— Taylor, é melhor contratar um ajudante. É trabalho demais para você!

— Estou indo bem, eu gosto de fazer esse trabalho manual.

— Você quem sabe, mas agradeço a atenção à minha filha. Feliz natal.

— Feliz natal para vocês. — Taylor sorriu.

O homem pegou na mão de sua filha e foram rumo ao carro, com a pequena garota dizendo ao pai suas diferentes ideias para decoração da árvore. Em contrapartida, outro automóvel entrou a fazenda e estacionou perto da casa da família, um rapaz alto que vestia roupa social saiu de um Volvo XC90 e cumprimentou a mãe de Taylor que estava na varanda. Taylor caminhou em passos pesados e rápidos, cruzando toda a neve, até aproximar-se.

— Mamãe, por favor, entre! Está muito frio! — Taylor ordenou.

A mãe assentiu, reconhecendo que, a cada minuto que passava, o tempo piorava e os flocos de neve caiam com mais densidade. Taylor acompanhou a mãe e fechou a porta, virando-se ao rapaz.

— Como posso ajudá-lo?

— Procuro por Scott Swift. — respondeu o rapaz. — Ou pelo responsável pela fazenda.

— E quem procura? — A jovem indagou, com a expressão desconfiada.

— Oh, desculpe-me. Meu nome é Thomas Hiddleston, mas o sr. Scott me conhece como Tom, vim falar sobre a propriedade de vocês. É importante.

— Sobre a fazenda? Do que deseja falar sobre a fazenda?

— Acredito que não falarei com o sr. Scott hoje, não é mesmo? — ele riu. — Meu assunto a tratar com ele, ou com o responsável pela fazenda, é sobre a hipoteca da casa.

A moça ficou em silêncio e encarou o rapaz por completo. Ele suspirou e retirou uma papelada de sua maleta, esticou sua mão para entregá-la.

— Acredito que seu nome seja Taylor, Taylor Swift, não é mesmo? A filha de Scott, ele falou-me muito sobre a senhorita. — o rapaz sorriu. — Meu assunto é importante, garanto que você vai querer me ouvir.

— Do que se trata isso... — Taylor olhou a papelada por cima. — Hipoteca?

— Seu pai hipotecou a fazenda há alguns anos por conta de uma grande dívida que ele não pagou. E agora a fazenda... não pertence mais a ele.

— O Scott Swift... meu pai... meu pai faleceu... — ela respondeu.

— Oh! Scott... está...? — ele pareceu confuso. — Eu, eu não sabia... Como...

— É melhor o senhor ir embora, começará uma nevasca a qualquer momento. E tratemos desse assunto em outro momento mais oportuno. —  Taylor respondeu dura.

— Eu sei que a senhorita deseja se esquivar, mas eu garanto que é melhor tratarmos disso agora, pois existe um prazo... — ele respondeu. — Estamos à poucos dias do feriado, tudo fechará neste período, mas no dia 13 de janeiro, vocês receberão uma visita dizendo para deixar a fazenda porque... essa fazenda já não pertence a vocês!

— O que? — Taylor gritou, nervosa. — Tão... tão rápido assim? Como eu, como eu nunca soube disso?

— Eu liguei algumas vezes, mandei cartas, mas nunca obtive respostas. — ele respondeu-a, calmo. — Por isso gostaria de conversar. Não estaria aqui se não fosse importante.

Taylor titubeou por alguns minutos, mas cedeu, concordando com a cabeça. Ela abriu a porta e o recebeu na sala de estar, o rapaz sentou-se em uma poltrona e observou-a tirar uma jaqueta pesada, amarrando seu cabelo em um rabo-de-cavalo alto e inclinou-se na lareira, onde colocou mais alguns pedaços de madeira para esquentar o ambiente. Sentou-se de frente à Thomas e questionou-o:

— Quem é o senhor e como sabe tanto sobre... a hipoteca da casa?

— Antes de conversarmos, seria indelicadeza perguntar o que aconteceu com o sr. Scott?

Ela arregalou os olhos e balançou a cabeça confusa, mal sabia ele que aquilo era algo sensível, um assunto quase proibido naquela casa. Esfregou as mãos em suas pernas e respondeu:

— Meu pai faleceu em fevereiro com um infarte fulminante. Aqui mesmo enquanto ainda trabalhava... — ela contou, trêmula. — Foi quando voltei para cá, para dar continuidade...

Thomas ficou em silêncio, buscando digerir a notícia que o atingiu como uma pedra, mas buscando não demonstrar que tal novidade o impactou, tanto seus sentimentos, quanto seus planos.

— Isso explica por que ele nunca mais retornou meus telefonemas e cartas... Sinto muito.

— O que te traz aqui, afinal? Por que está atrás dele?

— Como te falei, sou Thomas Hiddleston, sou funcionário do Wells Fargo, o banco em que seu pai mantinha contas abertas, mas a minha filial principal é em Londres. Conheci seu pai há alguns anos aqui mesmo em sua fazenda... — ele sorriu ao relembrar. — Isso faz uns três anos, quando vim até aqui por indicação de uma funcionária que dizia que era a melhor fazenda de pinhos da região. Sai de Chicago para cá só para comprar uma árvore de natal para a unidade que trabalho. Venho para cá algumas vezes ao ano para cuidar do meu departamento, normalmente, no final do ano para fechar contabilidade. — ele suspirou. — Na primeira vez que vim, seu pai puxou bastante assunto comigo, ele dizia que conhecer o cliente e suas intenções o direcionava na melhor escolha.

Taylor passou a mão em seu rosto, aquilo soava realmente como seu pai era. Sentiu seu coração palpitar mais rápido, pois trouxera uma lembrança do homem que era.

— Quando contei que trabalhava no banco, ele contou-me sua situação financeira... que não era muito boa. Eu tentei ajudá-lo de forma mais... simples, não quis me envolver porque não era algo da minha alçada. Mantive as informações padrões, mas ele dizia que precisava de direcionamentos melhores, pediu-me mais tempo e que ele me daria o pinho em troca de uma atenção maior... — ele riu. — como se o seu trabalho fosse de menos comparado ao que ele enfrentava. Ele parecia preocupado, dizia que era um homem justo e que honrava sua dívida, mas estava difícil. Aceitei olhar suas finanças, mas cheguei tarde demais e seu pai já tinha... estragado tudo!

— O que você viu?

— Seu pai já tinha hipotecado a propriedade, logo quando sua mãe começou a apresentar problemas sérios de saúde. Ela já não tinha condições de ajudá-lo e os remédios eram caros demais. O sr. Scott tinha começado com um empréstimo de dez mil dólares, depois pegou mais trinta mil dólares para poder pagar sua faculdade e comprar os remédios de sua mãe. Por fim, ele pegou mais cinquenta mil dólares para poder sustentar a fazenda e suas obrigações com você e sua mãe. Naquele mesmo natal, voltei aqui para conversar com ele sobre a venda da propriedade, pois parecia o único meio dele quitar toda a sua dívida...

A moça suspirava com cada informação, tudo aquilo parecia mentira ou outra realidade que ela nunca conheceu. Ela sabia que as vendas decaíram pelos anos, mas não sabia que seu pai tinha ficado com dívidas até a cabeça, mal conseguia quantificar o quanto seu pai ficou devendo.

— E o que você tem a ver com isso? O que te traz aqui?

— Ele realmente era um homem bom. E eu soube disso quando o vi desesperado para salvar sua família. — Thomas contou. — Ele dizia que você era tudo e que você seria a primeira pessoa da família a voltar para casa com um diploma. Ele tinha tanto orgulho de você, mas também era orgulhoso porque ele se negou a vender a fazenda. Ele dizia “sr. Hiddleston, não me leve a mal, sei que quer me ajudar, mas as coisas não são tão simples, eu jamais venderia isso aqui. É tudo que temos!” ou me dizia “Prometi a minha filha que jamais venderia seu lar, não posso descumprir essa promessa”.

Taylor inclinou-se para frente e limpou as lágrimas que escorriam em seu rosto, Thomas apoiou sua mão no joelho da moça e completou:

— Não quero magoá-la.

— Por favor, continue. Quero que me explique como um gerente de outro país veio fazer aqui nas vésperas de natal. Qual é a sua participação nisso tudo?

— Tentei ajudá-lo, reorganizei suas finanças e reestruturei suas economias. Quando vinha para Chicago, dirigia até aqui para vê-lo. Foi uma amizade bem bacana. — ele contou, com um sorriso. — Ele nunca aceitou nenhuma ajuda financeira, dizendo que não saberia como me pagaria, mas na última vez que o vi, no ano passado, ele disse que as coisas tinham melhorado um pouco, mas não o suficiente para pagar as dívidas. E que os juros estavam muito altos, sua dívida já beirava duzentos mil dólares. O sr. Scott sabia que perderia a casa a qualquer momento.

— E agora nós iremos perder a casa, não é? — Taylor riu, desesperada. — É isso que te traz aqui?!

— Taylor, não é só isso que me trouxe aqui. — Thomas levantou-se. — Pensei que teria mais tempo com seu pai, mas isso não é possível, então, cabe a você me ouvir bem e, eu sei que será difícil, mas buscar entender que estou longe de querer o mal para você.

— Diga!

— Essa fazenda, toda essa propriedade... Tudo pertence a mim!

Taylor arregalou os olhos e levantou-se em um único impulso, foi tomada por uma raiva irracional e empurrou Thomas pelo peito aos gritos:

— Saia daqui! Saia daqui agora! Saia da minha casa!

— Taylor, por favor, eu sei que é difícil me ouvir no momento, mas apenas...

— Vá embora! Saia daqui! — repetia. — Não quero vê-lo aqui!

Thomas foi posto para fora da residência e foi tomado por uma ventania forte. A nevasca já começara e seu carro já tinha sido parcialmente enterrado pela neve. Ele voltou-se a ela:

— Taylor, por favor, deixe-me explicar tudo o que aconteceu.

— Você enganou meu pai!

— Nunca faria isso! Eu realmente gostava do seu pai! — ele respondeu, calmo.

— Mentiroso! Saia da minha casa!

— Taylor...

— Como um banqueiro londrino sabe das dívidas de um homem que pediu sua ajuda, em troca, compra a sua única casa?! Não tem o que explicar! Você se aproveitou do meu pai!

— Fiz isso pelo bem dele...

— Vá embora!

Taylor avançou para cima de Thomas mais uma vez, fazendo- recuar e pular os degraus da varanda da casa. Ele olhou para o céu, assustado com a neve que caía de maneira grotesca e entrou em seu carro.

— Boa sorte ao tentar sair daqui! — Taylor disse, com um olhar vingativo.

Ele não respondeu, apenas assistiu-a entrar novamente dentro de casa. Balançou a cabeça negativamente pensando que toda a reunião foi um grande fracasso e que ir embora dali seria mais difícil do que lidar com a fúria da moça.

Tentou dar partida no carro duas vezes, dirigiu lentamente até o portão da propriedade, mas sentia os pneus escorregadios e o para-brisa não conseguia dar conta dos flocos de neve que caiam do céu sem nenhuma piedade. Toda a paisagem se tornou um quadro branco e somente Thomas estava ali, no lado de fora, para encarar o frio.

Ele desligou o motor do carro e ficou ali para ser enterrado na nevasca.

Pela janela da cozinha, Taylor assistia Thomas fracassar em sair da fazenda. Ela descascava e cortava com fúria os legumes para fazer uma sopa, mas seu foco estava na conversa que ocorrera com Thomas – ela não entendia como tudo aquilo aconteceu sem que tivesse qualquer desconfiança, sem seu pai confiar nela para contar a verdade.

Taylor encolheu-se sozinha aos afazeres da cozinha em lágrimas, quase que silenciosas, ao perceber que ela poderia dizer qualquer coisa, mas que já tinha perdido toda a batalha.

O barulho das escadas entregava sua mãe, que descia com certa dificuldade. A moça limpou as lágrimas rapidamente e virou a atenção para sua mãe, que disse:

— Tay, querida, aquele rapaz morrerá de frio!

A filha ignorou a própria mãe, continuando a fazer suas tarefas. Depois de colocar todos os legumes na panela de pressão, voltou a atenção aos remédios, dando para sua mãe cerca de três comprimidos.

— Taylor, você não é assim. — insistiu. — Seu pai gostava desse rapaz...

— A senhora lembra dele? — Taylor questionou, curiosa.

— Sim, sim... — respondeu, avoada. — Ele vinha aqui várias vezes ajudar seu pai, ora nas contas da fazenda, ora na própria fazenda. Não é um rapaz ruim, não o deixe ser engolido pela neve.

— Mamãe, não é certo...

— Você não é uma pessoa que guarda raiva, Taylor. Eu sei disso, seu pai sabia disso.

— Ele não deveria ter vindo...

— Seu pai não era um homem perfeito... Ele fez o que achava certo...

— Eu sei, mas... — Taylor balançou a cabeça, ainda estava nervosa. — Deixa para lá!

Sua mãe foi até a sua poltrona e trabalhou em algumas linhas de crochês, enquanto Taylor finalizava a sopa. Ainda quente, Taylor jantou com sua mãe – que elogiara a filha. Depois, sua mãe anunciou que estava cansada, com sono e que gostaria de ir me deitar, pois não se sentia bem – um dos sintomas de sua doença, as dores que nunca cessam.

Taylor ajudou sua mãe a subir as escadas e levou-a até a cama, assistindo-a adormecer.

Pela janela, Taylor mal conseguia ver o carro de Thomas, pois, além da escuridão da noite transformar a fazenda em um grande breu, a neve já tomara o carro por completo. Ela desceu as escadas e vestiu suas botas térmicas e seu casaco felpudo, decidiu encarar o frio para fazer o que era certo.

Atravessou em passos lentos a fazenda, tentando se proteger daquele frio severo e bateu no vidro do carro algumas vezes. Thomas abaixou o vidro, tentara disfarçar que se tremia dentro do automóvel.

— Venha! Entre antes que morra de frio! — Taylor disse.

— Não se preocupe, eu fico aqui até melhorar. Então, partirei!

— Não vai melhorar. — Taylor afirmou. — E eu não quero ligar para a polícia poucos dias antes do natal porque um estrangeiro morreu aqui.

Ele concordou, com um riso. Fez força para abrir a porta, pegou sua maleta e uma pequena mala que carregava consigo. Seguiu Taylor até a casa, entrou todo molhado da chuva que caía junto a neve. Encolheu-se próximo a lareira da sala de estar.

Taylor tirou seu casaco e limpou as botas. Olhou para Thomas tentando se secar com a própria roupa do corpo e revirou os olhos.

— Venha comigo!

Subiram as escadas e foram até a segunda porta do corredor, Taylor abriu a gaveta e retirou algumas peças de roupa, entregou para Thomas.

— Acredito que vão lhe servir. — disse. — Você pode dormir aqui. É um quarto de hóspede. Depois que se trocar, desça para comer um pouco de sopa e pegar algumas madeiras para acender a lareira.

Taylor desceu as escadas, minutos depois, Thomas vestia um pijama listrado antigo – era de um primo distante de Taylor, que esquecera em um natal passado. A moça serviu-o a sopa ainda quente, sentou-se em sua frente e assistiu-o comer em silêncio, já não se tremia tanto quanto antes.

— Você queria me falar mais... — Taylor encarou-o. — É a oportunidade!

Ele balançou a cabeça negativamente e continuou comendo a sopa.

— Não vou me desculpar pelo modo que reagi mais cedo, estava no meu direito.

— Não quero que peça desculpas. Entendo que não foi certo da minha parte aparecer aqui para dar essas notícias, mas eu quero ajudar.

— Você não para de repetir isso! — Taylor retrucou, irritada. — O que tanto quer ajudar?

Thomas encarou-a, em silêncio. Desviou o olhar para uma pequena caixa no centro da mesa, abriu e manuseou os remédios que continha dentro.

— Como está a sua mãe?

— Tem dias melhores que outros. Hoje foi um bom dia... — respondeu. — por quê?

— Sabe quanto custa um desses aqui para quem sofre de hidrocefalia de pressão normal? Não é barato, nem fácil, a condição da sua mãe... — Thomas disse de forma dura. — Seu pai dizia que essa demência a transformou, ela se esquece das coisas...

Taylor assistiu-o guardar os remédios e a afastar o prato já vazio.

— Estava uma delícia. — disse, satisfeito.

— O que quis dizer... sobre minha mãe?

— Ah, os remédios sempre chegam aqui. Todo início de mês, sem nenhum custo, não é?

— Como sabe?

— Porque é verdade quando digo que sempre tentei ajudar seu pai. Não são baratos e manter esses remédios com os problemas financeiros que seu pai tinha, sua mãe não resistiria. — Thomas respondeu. — E eu me comprometi a comprar cada um dos remédios, todos os meses...

Taylor ficou em silêncio, sentiu uma grande bancada atingir seu orgulho. Ela abaixou a cabeça e riu, mas fez de maneira desesperançosa.

— Então, nós te devemos... — disse ela, cabisbaixa. — Uau...

— Não disse isso. Apenas que, é verdade, quando digo que me importei muito com toda a situação do seu pai e fiz o que ele me permitiu fazer. Ele era um bom homem, ajudou-me em sua maneira, mais do que realmente soube e eu só tentei contribuir.

— Você quitou a dívida do meu pai, mesmo que tenha me tirado meu único lar, pagou os remédios de minha mãe... devemos você tudo. — riu. — E devemos de uma forma que não temos como pagar...

— Também não pedi para que me pagasse algo...

— Meu Deus, Thomas, esse papel de bom samaritano não combina com um banqueiro. O que é isso, afinal? Uma obra de Charles Dickens? Sou o Scrooge e você um dos bons fantasmas que veio salvar meu natal?!

— Uau... — ele riu. — adoro Charles Dickens, se quer saber...

— Eu sinto que existe uma pegadinha aí, conte-me logo o que realmente te trouxe aqui.

— Taylor, pouco tenho vontade de ficar com essa fazenda. Com todo respeito, nada me deixa mais enjoado do que o interior americano. Posso lhe dizer a verdade, eu gostava muito do seu pai e ele fez muito por mim, não financeiramente, longe disso... Mudou-me como pessoa que enxergou a vida além do trabalho. Diria que sou eu o Scrooge antes do seu pai me mostrar que há mais no mundo do que isso.

— Ele nunca me falou de você...

— Mas ele me contou muito sobre você. Ele tinha orgulho de você, muito orgulho!

Taylor ficou em silêncio. Falar de seu pai, ter alguém para lembrá-la do tanto que foi amada pelo seu pai, deixava-a desarmada.

— Não quero essa fazenda. Vim aqui para devolver a ele... Bom, agora quero devolver para você.

— A que preço isso vai acontecer? — Taylor disse, irritada. — Thomas, não tem graça alguma conversar com você, coloque-se no meu lugar. Eu não te conheço, o meu pai jamais me falou sobre você... Sobre nada do que descobri hoje! E eu já não tenho nada por que você me tomou tudo que achei que tinha, essa casa... era tudo que eu tinha! Além da minha dignidade, nós te devemos até o pescoço e você diz que quer me devolver sabendo que não temos como pagar!

Ela virou o rosto, voltando a chorar, mostrando sua fraqueza ao homem que detinha todo o poder. Ele tentou acolhê-la, mas ela rejeitou.

— Eu sei que é difícil, mas saiba que vim com boas intenções. Deixe-me explicar que eu também estou em uma situação difícil por conta dessa casa. Eu fiz um sacrifício e estou tentando salvar todos nós, incluindo eu mesmo.

— O que quer dizer?

— Eu não comprei essa casa do seu pai, já não pertence à família de vocês há meses. Em outubro do ano passado, essa fazenda foi à leilão e foi a última vez que falei com seu pai, ele sabia e me disse que já não tinha jeito... mas eu dei um jeito, eu comprei a casa no leilão em janeiro, eu comprei para devolvê-lo porque... eu nunca amei algo assim, mas ele amou.

— Você...

— Eu comprei para que, de alguma forma, ele pudesse continuar o legado de vocês! Quando a papelada saiu, já era maio e eu tentei entrar em contato com ele, mas nunca consegui. Vim até aqui para poder contar que ainda não terminou, mas cheguei tarde...

Taylor ficou quieta, mas indagou:

— E como isso te afetou?

— Bom, eu... eu me envolvi de maneira muito pessoal com um cliente, tentei mudar os acordos feitos por ele... descobriram que eu agi de má-fé contra o banco para facilitar a vida de seu pai. Acabei de comentar com uma pessoa que quebrou minha confiança sobre o leilão e eu estou aqui tentando fazer com que as coisas deem certo... Quando voltar para Londres, sei que perderei meu emprego...

— Tudo isso pelo meu pai?

— Um dia, quem sabe, você acredite que ele me mudou. — Thomas respondeu.

— E qual era seu plano?

— Não tinha planos, até agora...

— Eu quero minha casa de volta, Thomas! Diga-me o que posso fazer?!

— Tem duas alternativas mais simples, mas você odiará ambas.

Thomas se levantou e aproximou-se da lareira, voltou sua atenção à Taylor e sorriu.

— A primeira alternativa é você comprar essa terra, um negócio bem simples. Já a segunda alternativa é um pouco mais complicada, mas seria mais barato... e você vai querer negar, mas pense com carinho...

Ele esticou sua mão para a jovem e disse:

— Poderíamos nos casar... aceita casar-se comigo?

[CONTINUA]

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