Na manhã seguinte, Taylor despertou
antes mesmo de o alarme tocar na mesa de cabeceira. O quarto ainda estava
mergulhado numa penumbra azulada, e o ar da madrugada guardava um frio antigo,
com cheiro de madeira envelhecida. Ela passara boa parte da noite encarando o
teto, enquanto as palavras de Selena ecoavam sem descanso em sua mente: “você
está flertando com o perigo… ele vai te reconhecer… vai te destruir de novo.”
Taylor sabia que poderia acontecer.
Mas não acreditava que aconteceria. Agora, ela tinha controle. E, mesmo que
estivesse errada, já era tarde demais para recuar.
Empurrou o cobertor para o lado,
sentou-se na cama e permaneceu alguns segundos apenas respirando, até que os
pés encontraram o chão frio. Caminhou até a cômoda, abriu a terceira gaveta —
sempre com o mesmo cuidado ritualístico — e afastou algumas peças de roupa
dobradas com precisão quase obsessiva. Ali, escondida como uma ferida que nunca
cicatrizara, estava a caixa de madeira.
A superfície era marcada pelo tempo:
pequenas fissuras, uma lasca na borda. No entanto, o detalhe mais significativo
era o cadeado minúsculo, quase infantil, que contrastava com o peso emocional
que guardava.
A chave, como sempre, estava com ela —
invisível para o mundo, presa discretamente à parte interna de sua pulseira de
prata. Taylor a retirou com cuidado e a encaixou no cadeado. O clique metálico
soou mais alto do que deveria naquela manhã silenciosa.
Ao levantar a tampa, um sopro do
passado pareceu escapar dali, impregnando o ar do quarto. Taylor reteve a
respiração.
Dentro da caixa havia fotografias
antigas, recortes de jornal, panfletos de apresentações de balé, folhas
amareladas pelo tempo. Pegou uma foto específica e a levou até a luz fraca que
atravessava a cortina.
Era ela. Ou alguém que um dia fora
ela.
Uma menina de olhos escuros demais
para um rosto tão pequeno. Cabelos cacheados, presos de maneira descuidada.
Ombros estreitos, postura rígida. Taylor quase não se reconhecia.
Agora seus olhos eram de um azul falso,
mas inabalável. Os cachos foram domados, descoloridos e reinventados num loiro
médio que se tornara sua assinatura. Ganhara altura, contornos, expressão. O
corpo já não era o de uma criança; era o de uma mulher que aprendera a
sobreviver.
— Nunca mais aquela menina. —
murmurou, devolvendo a foto ao fundo da caixa.
Aquela versão dela não existia mais.
E, se existisse, ele jamais a reconheceria.
Taylor fechou a caixa, trancou o
cadeado e a escondeu novamente. Recolheu seus pertences para mais um dia na
casa dos Mayer e, antes de sair, encarou o próprio reflexo no espelho.
Reconheceu ali não uma cuidadora de crianças, mas uma mulher a caminho de um
acerto de contas. E aquele seria apenas mais um passo.
O trajeto até a casa dos Mayer foi
tomado por uma névoa fina, que parecia escorrer pelas ruas como um presságio.
Taylor caminhava sem pressa, sentindo a ansiedade se acumular no estômago, mas
sustentando um rosto calmo.
Quando chegou, Jason já estacionava o
carro para levar Rachel ao colégio. A menina correu até Taylor com um sorriso
aberto.
— Taylor! — disse, abraçando-a. —
Pensei que você não viria…
— Por que eu não viria? — Taylor
perguntou, rindo.
Rachel deu de ombros, mas sorriu ao
perceber que Taylor retribuíra o abraço. Jason abriu a porta do carro, e a
menina entrou segurando a mochila no colo. Antes que Taylor se aproximasse,
John chamou-a.
— Acredito que Katheryn não tenha
contado que Rachel é acompanhada apenas por Jason para a escola. Não há
necessidade alguma de você ir agora... — disse, com um sorriso educado. — E não
falei bom dia… perdoe-me. Bom dia, Taylor. Pode me acompanhar para
conversarmos?
Taylor assentiu em silêncio e seguiu
John para dentro da mansão, caminhando a cinco passos de distância dele.
Passaram pela sala de estar, subiram as escadas e entraram em uma porta que
Taylor ainda não conhecia: o escritório.
Na soleira, John posicionou o dedo na
fechadura digital. A porta se abriu. Ele permitiu que Taylor passasse à frente
e entrou logo depois. O clique seco indicou que haviam sido trancados
automaticamente ali dentro. Taylor inspirou fundo, esforçando-se para manter a
calma.
— Por favor, sente-se — disse John. —
Você prefere café ou chá?
— Estou bem, obrigada — respondeu.
Ele a observou por alguns segundos,
depois riu.
— Taylor… veja bem. Não sei como foi
sua experiência com os Morris ou até mesmo com os Clarke, são conhecidos
antigos, mas aqui você passará boa parte do seu dia dedicada à Rachel.
Almoçará, jantará… alguns dias, dormirá aqui. Não faz mal tomar um café ou um
chá. Nada do que usufruir será descontado do seu salário.
— Eu sei — respondeu Taylor, firme. —
Mas já tomei café em casa. Bem reforçado.
John balançou a cabeça, serviu uma
xícara para si mesmo e sentou-se à mesa, de frente para ela.
— Como foi o primeiro dia?
— Muito proveitoso. Rachel é uma
criança doce e atenciosa.
— É verdade — concordou. — Mas preciso
conversar com você sobre a Rachel. Algumas coisas que acredito que Katheryn
deixou de fora, mas que são importantes para mim. Quero que tome cuidado com
ela. Rachel tende a ser… muito carente. Pegajosa.
Ele aguardou uma reação. Taylor
manteve-se imóvel.
— É algo que Katheryn não aceita, mas
foi um problema constante com as últimas babás. Quando recebe atenção, Rachel
se apega demais. E isso nos coloca em situações delicadas como família. Afinal,
o trabalho de uma babá é dar atenção… e ela acaba interpretando errado.
— E o que o senhor espera que eu faça?
— Taylor perguntou.
— Primeiro, mantenha distância
emocional. Nada de beijos, abraços, apelidos carinhosos ou toques afetivos.
Segundo, incentive que Rachel cresça — emocional e psicologicamente. Ela
precisa aprender a ser forte. E, por último, e isso fica entre nós, reporte-me
tudo o que Rachel tentar confidenciar a você. Conheço bem minha filha. Ela
falará de brigas, de problemas familiares… buscará um ombro amigo. Mas
lembre-se: você não é amiga dela. É apenas sua cuidadora. E quem lhe paga por
esse serviço sou eu.
Taylor fixou o olhar em John. Por
fora, manteve a postura e assentiu. Por dentro, sentiu algo se rasgar. Ele
continuava o mesmo. E agora fazia o mesmo com a própria filha: isolava,
vigiava, controlava.
— Estamos acertados? — perguntou.
— Sim, senhor Mayer — respondeu,
forçando um sorriso.
Levantou-se e deixou o escritório
apressada. No corredor, sentiu o mundo girar. A mão foi instintivamente ao
estômago, tomado por um embrulho súbito.
— Você está bem?
Taylor balançou a cabeça
negativamente. A voz feminina era leve, simpática. Ao erguer o olhar, encontrou
olhos azuis naturais, vivos.
— Taylor, não é? Venha comigo…
A mulher segurou sua mão e a conduziu
pela escada dos fundos.
— Essa é a escada dos funcionários. A
senhora Mayer não gosta que usemos as áreas principais — explicou. — Sou a
Sabrina, esqueci de me apresentar. Estava ansiosa para te conhecer… Amira,
ajuda aqui, a babá nova está passando mal!
— O que houve? — perguntou Amira.
— Nada — respondeu Taylor, por fim. —
Só fiquei ansiosa.
— Conversou com o senhor Mayer? —
Sabrina sorriu. — É assim mesmo no começo. Ele intimida, mas é um bom patrão.
Bem melhor que a senhora Katheryn…
— Sabrina! — advertiram Amira e Salma
juntas.
— O quê? É verdade! — deu de ombros. —
Ela sempre desconta tudo em mim.
Taylor aceitou o copo d’água que Amira
lhe ofereceu e observou, em silêncio, a dinâmica entre elas.
— O que ele te falou? — perguntou
Sabrina.
— Sobre a Rachel… os cuidados —
respondeu.
— Claro — disse Amira. — O senhor
Mayer é muito atencioso com a filha. Mesmo que lhe falte tempo.
— Pelo amor de Deus… — murmurou
Sabrina.
— Sabrina! — Salma repreendeu, mais
dura.
— Você vai tirar suas próprias
conclusões, Taylor — disse Sabrina. — Mas um conselho: seja invisível nesta
casa. É isso que esperam de nós.
Taylor assentiu.
— Estamos preparando o almoço — avisou
Salma. — Massa. Você almoça conosco depois dos Mayer.
— Somos nós, Jason e, às vezes, o Juan
— completou Sabrina.
Taylor respirou fundo.
— Obrigada pela ajuda… e pelo
acolhimento. Vou organizar algumas coisas no quarto da Rachel, mas qualquer
coisa, estou por aqui.
— Até o almoço — respondeu Amira.
Taylor afastou-se com a sensação clara
de que, naquela casa, todos viam demais — e falavam de menos.
Taylor subiu as escadas com passos
contidos, como se o silêncio da casa pudesse se quebrar sob seus pés. O quarto
de Rachel permanecia como no dia anterior: organizado demais para uma criança
de nove anos, perfumado com um aroma floral suave, quase artificial. Havia ali
menos traços de infância do que se esperaria — mais disciplina do que bagunça.
Ela começou organizando a mochila da
menina, retirando papéis soltos, conferindo a agenda, separando os materiais
para o dia seguinte. Fazia isso com atenção mecânica, mas a mente ainda ecoava
a conversa com John. Mantenha distância. Não é amiga. Reporte tudo. As
palavras grudavam em sua pele como um aviso constante.
O som da porta da frente se abrindo
anunciou o retorno de Rachel do colégio.
Taylor desceu devagar, chegando à sala
no exato momento em que a menina deixava o casaco cair no sofá com um suspiro
cansado. O sorriso que surgiu ao vê-la foi imediato, quase involuntário.
— Oi — disse Rachel, aproximando-se.
Taylor conteve o impulso automático de
abrir os braços. Lembrou-se das regras. Ajoelhou-se à altura da criança,
mantendo uma distância respeitosa.
— Como foi o dia?
Rachel deu de ombros, chutando
levemente o tapete.
— Chato. A professora brigou comigo
porque eu estava distraída.
— E você estava? — perguntou Taylor,
em tom neutro.
A menina pensou por um instante,
depois assentiu.
— Estava pensando se você ia estar
aqui quando eu chegasse.
Taylor sentiu algo apertar em seu
peito. Manteve o rosto sereno.
— Eu disse que estaria, não disse?
Rachel sorriu pequeno, como se aquela
confirmação fosse suficiente para sustentar algo frágil dentro dela. Taylor
ajudou-a a organizar os livros, explicou calmamente o que fariam à tarde,
estabelecendo horários, pequenas metas, pausas. Nada de afeto explícito. Ainda
assim, Rachel a acompanhava como uma sombra atenta, respondendo a cada
orientação com dedicação incomum.
Do alto da escada, John observava.
Não disse nada. Apenas ficou ali,
imóvel, acompanhando a cena como quem analisa um movimento delicado. Taylor não
tocava Rachel como as outras babás haviam feito. Não exagerava na doçura. Não
infantilizava. Ainda assim, a menina estava inteira ali, concentrada, segura.
John franziu levemente o cenho. Havia
algo naquela contenção que o inquietava, mas também o atraía.
Quando Taylor conduziu Rachel até o
quarto para trocar de roupa antes do almoço, ele se afastou em silêncio,
levando consigo uma impressão que não sabia nomear.
Mais tarde, o almoço dos funcionários
aconteceu na pequena mesa ao fundo da cozinha, longe da formalidade da sala de
jantar. O clima era mais solto, ainda que contido. Conversas cruzadas, talheres
batendo, risadas discretas.
Taylor sentou-se entre Sabrina e
Jason, ouvindo mais do que falando. Observava os gestos, os tons de voz, os
silêncios entre uma frase e outra. Foi então que percebeu.
Juan estava ali.
Sentado um pouco afastado, com o prato
quase intacto à frente, ele a encarava. Não de maneira invasiva ou descarada —
era algo mais lento, mais atento. Um olhar que não fugia quando cruzava com o
dela.
Taylor sentiu o desconforto antes
mesmo de identificar a origem. Levantou os olhos e encontrou os dele. Juan não
sorriu. Não desviou. Apenas continuou observando, como se tentasse encaixá-la
em alguma memória antiga.
Ela desviou o olhar, o estômago
contraindo levemente.
— Não liga — murmurou Sabrina,
inclinando-se em sua direção. — Juan é assim mesmo.
— Ele… me olhou estranho — respondeu
Taylor, em voz baixa.
— Ele olha todo mundo assim — disse
Sabrina, embora o tom denunciasse que nem ela acreditava totalmente nisso.
Juan finalmente baixou os olhos,
voltando-se ao prato, como se tivesse percebido que fora notado.
O almoço seguiu, mas Taylor perdeu o
apetite. Havia algo naquele olhar que permanecia, uma sensação incômoda de ter
sido vista além do que deveria.
Quando terminaram, Sabrina se
aproximou enquanto as outras recolhiam a mesa.
— Posso te contar uma coisa? — disse,
em tom conspiratório.
Taylor hesitou por um segundo, depois
assentiu.
— Todo mundo acha que eles são o casal
perfeito. — começou Sabrina, apoiando-se na pia. — Fotos bonitas, jantares
chiques, eventos… Mas você não imagina o que acontece quando as portas se
fecham.
— Como assim? — perguntou Taylor, com
cuidado.
— Eles brigam muito. Muito mesmo. —
Sabrina abaixou a voz. — John desconfia de tudo. De todo mundo. Controla
horários, mensagens, passos. E a senhora Katheryn finge que está tudo bem,
porque a imagem é mais importante, mas... ela também desconfia de que ele... você
sabe... pula a cerca.
Taylor permaneceu em silêncio.
— E a Rachel… — Sabrina suspirou. —
Aquela menina cresce sozinha dentro daquela casa. Eles dizem que fazem tudo por
ela, mas nunca estão de verdade.
Taylor sentiu um nó se formar
lentamente.
— Por isso ele troca tanto de babá...
— continuou Sabrina. — Não é porque elas são ruins. É porque a Rachel se apega
e isso incomoda.
— Incomoda quem? — Taylor perguntou.
Sabrina deu um meio sorriso.
— Todo mundo. Mas principalmente ele.
O chamado distante de Salma
interrompeu a conversa. Sabrina se afastou, deixando Taylor sozinha com aquelas
informações ecoando dentro dela.
Ela olhou ao redor da cozinha, depois
para o corredor que levava ao restante da casa. Tudo ali parecia impecável
demais. Organizado demais. Silencioso demais.
E, pela primeira vez desde que
aceitara o trabalho, Taylor entendeu que a casa Mayer não escondia segredos —
ela os exibia, disfarçados de rotina.
E quanto mais invisível ela se
tornasse, mais veria.
E quanto mais visse, mais perigoso
seria permanecer.
[CONTINUA]
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