Duas semanas haviam se passado desde
que Taylor obtivera acesso quase irrestrito à casa dos Mayer.
Por dentro, a casa parecia funcionar
como um organismo silencioso, regido por horários rígidos, compromissos
repetidos e uma ordem que não admitia improvisos. O tempo não era marcado por
relógios, mas por expectativas: o momento exato de entrar, de sair, de falar —
e, principalmente, de calar.
Taylor aprendera rápido a rotina. E,
mais do que isso, aprendera onde Rachel se encaixava dentro dela.
De segunda a sexta-feira, pela manhã,
Rachel ia à escola. Raramente faltava — as exceções eram apenas por razões
médicas. O almoço acontecia sempre em casa, um ritual que Katheryn gostava de
chamar de “momento em família”, sobretudo nas fotografias cuidadosamente
publicadas em suas redes sociais.
À tarde, a agenda da criança era
preenchida com compromissos meticulosamente distribuídos: às segundas-feiras,
aula de francês; às terças e quintas, balé no estúdio do pai; às quartas,
piano; às sextas, o clube de leitura com as colegas de turma, orientado por uma
profissional contratada.
Era justamente a sexta-feira o dia
menos favorito de Rachel.
Nesse dia, Taylor acompanhava a menina
até a casa de Eleanor Talbot — colega de classe e amiga próxima — onde se
reunia um grupo seleto de crianças da elite londrina. O pai de Eleanor, Alfred
Talbot, era um conhecido promotor penal, e sua esposa, Margaret, organizava o
clube com zelo excessivo.
Taylor já ouvira falar daquele círculo
restrito. Sabia que, por trás da fachada literária, o verdadeiro objetivo era
outro: observar, medir, confirmar se todas aquelas famílias pertenciam, de
fato, à alta sociedade londrina. Os Mayer haviam sido incluídos ali
recentemente, após o êxito de John na montagem de La Bayadère no Teatro
Municipal de Londres.
Rachel, no entanto, não se encaixava.
E Margaret Talbot sabia disso. Taylor
também.
Todos os dias, após as atividades
extracurriculares, Taylor auxiliava Rachel com as tarefas escolares —
especialmente geografia, sua maior dificuldade. Após o jantar, lia uma história
para a menina adormecer e encerrava a noite com a mesma promessa sussurrada,
como um ritual silencioso:
— Amanhã eu volto.
Naquela noite, Rachel demorou a pegar
no sono.
— Taylor… — chamou, com voz manhosa.
— Diga — respondeu, sorrindo. —
Precisa de algo?
— Eleanor me contou que a mãe dela vai
conversar com a minha… — disse, de cabeça baixa. — Ela disse que eu não entendo
bem as histórias… que eu não converso muito com as outras crianças… Acho que
vão me tirar do clube.
Taylor sentou-se mais próxima, atenta.
— E como você se sente com isso?
— Não pode acontecer, Tay… — respondeu
rápido demais. — Minha mãe falou que é importante eu ficar, mesmo não gostando.
Disse que todos temos obrigações. E essa é a minha.
Taylor hesitou por um instante. Então,
contrariando as regras não ditas da casa, tomou a mão de Rachel entre as suas e
apertou com firmeza.
— Vamos mudar isso. Eu vou te ajudar a
melhorar.
— Promete?
— Prometo.
Rachel respirou aliviada. Sorriu.
Dormiu com a confiança ingênua de quem acredita que ainda há adultos capazes de
cumprir promessas.
Ao sair do quarto, Taylor encontrou
John parado no corredor.
Ele sorria.
— Podemos conversar? — perguntou,
apontando para o escritório.
— Eu já estava indo embora… —
respondeu, consultando o relógio.
— Serei breve.
Ela assentiu, contrariada.
No escritório, John sentou-se atrás da
mesa. Observou Taylor como quem avalia algo que começa a lhe escapar do
controle.
— Até agora, você não me reportou nada
sobre Rachel.
— Não há nada a relatar — respondeu
com cuidado. — Nossa relação tem sido estritamente profissional, como o senhor
pediu.
— Nada? — insistiu.
— Nada.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— O que você prometeu a ela agora?
Taylor sentiu o impacto da pergunta
antes mesmo de respondê-la.
— Apenas apoio — disse. — Ela está
insegura com o clube de leitura.
— Eu ouvi você — afirmou John, com
calma excessiva. — Sei o que é melhor para minha filha.
— Talvez fosse importante que o senhor
mesmo dissesse isso a ela — respondeu Taylor. — Ela tem medo de decepcionar
vocês.
John se levantou.
— Eu cuidarei disso pessoalmente. Com
Margaret. Sem envolver Katheryn.
Ele a acompanhou até a porta.
— Tenho um compromisso no Royal Albert
Hall — comentou. — Uma montagem prevista para setembro.
— Parabéns — disse Taylor.
— Entre nós… — ele sorriu,
aproximando-se um pouco demais — …acho que podemos dispensar formalidades.
Chame-me de John.
Ela deu um passo discreto para trás.
— Como quiser.
— Vou lhe dar uma carona — continuou.
— Já está tarde.
— Não precisa — respondeu rápido
demais.
— Faço questão.
Antes que pudesse insistir, Katheryn
surgiu no topo da escada.
— Ainda por aqui, Taylor? — perguntou,
num tom que não era exatamente hostil. — Já passou do seu horário.
— Estávamos falando sobre Rachel —
respondeu John, antes que Taylor pudesse fazê-lo. — E você estava certa. Taylor
foi um bom... investimento.
Katheryn sorriu, breve.
Taylor se despediu e saiu pela escada
de serviço.
Somente ao alcançar o portão da mansão
sentiu o ar voltar aos pulmões. Seguiu por um caminho alternativo, mais longo,
evitando qualquer possibilidade de cruzar novamente com John.
Chegou em casa depois das dez da
noite.
Selena a esperava.
— Fiquei preocupada.
— Estou bem — respondeu Taylor. — Só
estou cansada.
— Isso está ficando perigoso... —
insistiu a amiga.
— Está tudo sob controle.
Para afastar o peso do dia, Taylor aproximou-se
do rádio antigo encostado na parede da sala e girou o botão até encontrar a
estação certa. O chiado inicial foi rapidamente substituído pelos primeiros
acordes animados de Uptown Girl, de Billy Joel. Ela sorriu, um sorriso
verdadeiro, raro, quase esquecido.
— Selena… — disse, já puxando a amiga
pela mão.
— Não acredito nisso. — Selena riu,
deixando-se levar.
A dança era improvisada, desengonçada,
sem técnica alguma. Taylor girava, errava passos, batia o pé fora do ritmo. O
cabelo solto acompanhava os movimentos, o corpo leve, despreocupado. Pela
primeira vez em dias, ela não pensava na casa dos Mayer, em John, em Katheryn,
em vigilância ou controle.
Só ria.
O vinho barato ajudava. Os risos
enchiam o pequeno apartamento, misturando-se à música alta demais para os
vizinhos tolerarem por muito tempo. Taylor sentiu o peito expandir, uma
sensação infantil de que tudo estava, enfim, no lugar certo.
Tudo alinhado. Como deveria estar,
pensara Taylor.
Do outro lado da rua, um carro
permanecia estacionado com o motor desligado.
John observava pela janela aberta do
veículo, parcialmente oculto pela escuridão. O prédio de Taylor estava
iluminado apenas o suficiente para que ele pudesse enxergar o movimento de
sombras atrás da cortina fina da sala.
Ele não precisava vê-la nitidamente.
O corpo reconhecia.
O riso abafado que escapava pela
janela entreaberta. O movimento solto, quase dançado, que ele já identificara
nos corredores de sua casa. A postura que jamais se desfazia por completo,
mesmo quando ela acreditava estar relaxada.
Ele imaginava.
E isso bastava.
A mão de John repousava no volante com
força excessiva. Os dedos longos apertavam o couro como se precisassem conter
algo que crescia silencioso dentro dele — uma mistura de desejo, posse e uma
excitação incômoda que não vinha do toque, mas da observação.
Ela parecia tão diferente ali.
Fora do controle dele. Fora do espaço
dele. Fora da função que ele tentava impor.
Isso o irritava e o atraía ainda mais.
John inclinou-se levemente para
frente, o olhar fixo na janela. A música atravessou a rua de forma abafada,
suficiente para reconhecer a melodia. Um canto da boca se ergueu num sorriso
lento, denso.
Taylor dançava sem saber.
Sem perceber que, enquanto girava
despreocupada em sua sala pequena, alguém do lado de fora já a despia com os
olhos, não com pressa, mas com intenção.
John permaneceu ali por longos
minutos, respirando no mesmo ritmo da música, como se já estivesse ensaiando a
maneira certa de se aproximar ainda mais.
Quando a canção terminou e as luzes do
apartamento diminuíram, ele ligou o carro.
Partiu devagar, levando consigo uma
certeza: ela seria dele.
[CONTINUA]
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