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21 de janeiro de 2026

dancing with the devil | 04° Capítulo.

Duas semanas haviam se passado desde que Taylor obtivera acesso quase irrestrito à casa dos Mayer.

Por dentro, a casa parecia funcionar como um organismo silencioso, regido por horários rígidos, compromissos repetidos e uma ordem que não admitia improvisos. O tempo não era marcado por relógios, mas por expectativas: o momento exato de entrar, de sair, de falar — e, principalmente, de calar.

Taylor aprendera rápido a rotina. E, mais do que isso, aprendera onde Rachel se encaixava dentro dela.

De segunda a sexta-feira, pela manhã, Rachel ia à escola. Raramente faltava — as exceções eram apenas por razões médicas. O almoço acontecia sempre em casa, um ritual que Katheryn gostava de chamar de “momento em família”, sobretudo nas fotografias cuidadosamente publicadas em suas redes sociais.

À tarde, a agenda da criança era preenchida com compromissos meticulosamente distribuídos: às segundas-feiras, aula de francês; às terças e quintas, balé no estúdio do pai; às quartas, piano; às sextas, o clube de leitura com as colegas de turma, orientado por uma profissional contratada.

Era justamente a sexta-feira o dia menos favorito de Rachel.

Nesse dia, Taylor acompanhava a menina até a casa de Eleanor Talbot — colega de classe e amiga próxima — onde se reunia um grupo seleto de crianças da elite londrina. O pai de Eleanor, Alfred Talbot, era um conhecido promotor penal, e sua esposa, Margaret, organizava o clube com zelo excessivo.

Taylor já ouvira falar daquele círculo restrito. Sabia que, por trás da fachada literária, o verdadeiro objetivo era outro: observar, medir, confirmar se todas aquelas famílias pertenciam, de fato, à alta sociedade londrina. Os Mayer haviam sido incluídos ali recentemente, após o êxito de John na montagem de La Bayadère no Teatro Municipal de Londres.

Rachel, no entanto, não se encaixava.

E Margaret Talbot sabia disso. Taylor também.

Todos os dias, após as atividades extracurriculares, Taylor auxiliava Rachel com as tarefas escolares — especialmente geografia, sua maior dificuldade. Após o jantar, lia uma história para a menina adormecer e encerrava a noite com a mesma promessa sussurrada, como um ritual silencioso:

— Amanhã eu volto.

Naquela noite, Rachel demorou a pegar no sono.

— Taylor… — chamou, com voz manhosa.

— Diga — respondeu, sorrindo. — Precisa de algo?

— Eleanor me contou que a mãe dela vai conversar com a minha… — disse, de cabeça baixa. — Ela disse que eu não entendo bem as histórias… que eu não converso muito com as outras crianças… Acho que vão me tirar do clube.

Taylor sentou-se mais próxima, atenta.

— E como você se sente com isso?

— Não pode acontecer, Tay… — respondeu rápido demais. — Minha mãe falou que é importante eu ficar, mesmo não gostando. Disse que todos temos obrigações. E essa é a minha.

Taylor hesitou por um instante. Então, contrariando as regras não ditas da casa, tomou a mão de Rachel entre as suas e apertou com firmeza.

— Vamos mudar isso. Eu vou te ajudar a melhorar.

— Promete?

— Prometo.

Rachel respirou aliviada. Sorriu. Dormiu com a confiança ingênua de quem acredita que ainda há adultos capazes de cumprir promessas.

Ao sair do quarto, Taylor encontrou John parado no corredor.

Ele sorria.

— Podemos conversar? — perguntou, apontando para o escritório.

— Eu já estava indo embora… — respondeu, consultando o relógio.

— Serei breve.

Ela assentiu, contrariada.

No escritório, John sentou-se atrás da mesa. Observou Taylor como quem avalia algo que começa a lhe escapar do controle.

— Até agora, você não me reportou nada sobre Rachel.

— Não há nada a relatar — respondeu com cuidado. — Nossa relação tem sido estritamente profissional, como o senhor pediu.

— Nada? — insistiu.

— Nada.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— O que você prometeu a ela agora?

Taylor sentiu o impacto da pergunta antes mesmo de respondê-la.

— Apenas apoio — disse. — Ela está insegura com o clube de leitura.

— Eu ouvi você — afirmou John, com calma excessiva. — Sei o que é melhor para minha filha.

— Talvez fosse importante que o senhor mesmo dissesse isso a ela — respondeu Taylor. — Ela tem medo de decepcionar vocês.

John se levantou.

— Eu cuidarei disso pessoalmente. Com Margaret. Sem envolver Katheryn.

Ele a acompanhou até a porta.

— Tenho um compromisso no Royal Albert Hall — comentou. — Uma montagem prevista para setembro.

— Parabéns — disse Taylor.

— Entre nós… — ele sorriu, aproximando-se um pouco demais — …acho que podemos dispensar formalidades. Chame-me de John.

Ela deu um passo discreto para trás.

— Como quiser.

— Vou lhe dar uma carona — continuou. — Já está tarde.

— Não precisa — respondeu rápido demais.

— Faço questão.

Antes que pudesse insistir, Katheryn surgiu no topo da escada.

— Ainda por aqui, Taylor? — perguntou, num tom que não era exatamente hostil. — Já passou do seu horário.

— Estávamos falando sobre Rachel — respondeu John, antes que Taylor pudesse fazê-lo. — E você estava certa. Taylor foi um bom... investimento.

Katheryn sorriu, breve.

Taylor se despediu e saiu pela escada de serviço.

Somente ao alcançar o portão da mansão sentiu o ar voltar aos pulmões. Seguiu por um caminho alternativo, mais longo, evitando qualquer possibilidade de cruzar novamente com John.

Chegou em casa depois das dez da noite.

Selena a esperava.

— Fiquei preocupada.

— Estou bem — respondeu Taylor. — Só estou cansada.

— Isso está ficando perigoso... — insistiu a amiga.

— Está tudo sob controle.

Para afastar o peso do dia, Taylor aproximou-se do rádio antigo encostado na parede da sala e girou o botão até encontrar a estação certa. O chiado inicial foi rapidamente substituído pelos primeiros acordes animados de Uptown Girl, de Billy Joel. Ela sorriu, um sorriso verdadeiro, raro, quase esquecido.

— Selena… — disse, já puxando a amiga pela mão.

— Não acredito nisso. — Selena riu, deixando-se levar.

A dança era improvisada, desengonçada, sem técnica alguma. Taylor girava, errava passos, batia o pé fora do ritmo. O cabelo solto acompanhava os movimentos, o corpo leve, despreocupado. Pela primeira vez em dias, ela não pensava na casa dos Mayer, em John, em Katheryn, em vigilância ou controle.

Só ria.

O vinho barato ajudava. Os risos enchiam o pequeno apartamento, misturando-se à música alta demais para os vizinhos tolerarem por muito tempo. Taylor sentiu o peito expandir, uma sensação infantil de que tudo estava, enfim, no lugar certo.

Tudo alinhado. Como deveria estar, pensara Taylor.

Do outro lado da rua, um carro permanecia estacionado com o motor desligado.

John observava pela janela aberta do veículo, parcialmente oculto pela escuridão. O prédio de Taylor estava iluminado apenas o suficiente para que ele pudesse enxergar o movimento de sombras atrás da cortina fina da sala.

Ele não precisava vê-la nitidamente.

O corpo reconhecia.

O riso abafado que escapava pela janela entreaberta. O movimento solto, quase dançado, que ele já identificara nos corredores de sua casa. A postura que jamais se desfazia por completo, mesmo quando ela acreditava estar relaxada.

Ele imaginava.

E isso bastava.

A mão de John repousava no volante com força excessiva. Os dedos longos apertavam o couro como se precisassem conter algo que crescia silencioso dentro dele — uma mistura de desejo, posse e uma excitação incômoda que não vinha do toque, mas da observação.

Ela parecia tão diferente ali.

Fora do controle dele. Fora do espaço dele. Fora da função que ele tentava impor.

Isso o irritava e o atraía ainda mais.

John inclinou-se levemente para frente, o olhar fixo na janela. A música atravessou a rua de forma abafada, suficiente para reconhecer a melodia. Um canto da boca se ergueu num sorriso lento, denso.

Taylor dançava sem saber.

Sem perceber que, enquanto girava despreocupada em sua sala pequena, alguém do lado de fora já a despia com os olhos, não com pressa, mas com intenção.

John permaneceu ali por longos minutos, respirando no mesmo ritmo da música, como se já estivesse ensaiando a maneira certa de se aproximar ainda mais.

Quando a canção terminou e as luzes do apartamento diminuíram, ele ligou o carro.

Partiu devagar, levando consigo uma certeza: ela seria dele.

[CONTINUA]

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