No domingo de Páscoa, os Mayer
ofereceram um luxuoso almoço em sua mansão.
A casa despertara mais cedo do que o
habitual, tomada por um movimento quase cerimonial. Desde as primeiras horas da
manhã, Amira e Salma transitavam pela cozinha com eficiência silenciosa,
alternando palavras rápidas em árabe e gestos precisos. O aroma de especiarias,
carnes assadas e pães recém-saídos do forno misturava-se ao cheiro doce das
flores frescas que Juan havia disposto pelo jardim e pelos corredores
principais.
Era a primeira vez que Taylor
participava de um evento daquele porte como parte visível da engrenagem social
dos Mayer — não apenas como funcionária, mas como alguém que precisava estar
presente, observando, auxiliando, existindo sem chamar atenção excessiva.
Katheryn supervisionava tudo com um
sorriso treinado. Vestia um conjunto claro e elegante, perfeitamente adequado
para as fotos que, Taylor sabia, apareceriam mais tarde nas redes sociais.
Caminhava pela casa com uma taça de vinho branco na mão, corrigindo detalhes
mínimos: um guardanapo fora do lugar, um arranjo desalinhado, o tom de voz de
Sabrina alto demais para o ambiente.
Rachel, por outro lado, parecia
deslocada. Usava um vestido delicado demais para sua idade e girava pela sala
de estar sem destino certo, observando os adultos que começavam a chegar —
amigos, parceiros de negócios, nomes importantes da recém-conquistada elite
londrina.
Taylor manteve-se próxima à menina,
como aprendera a fazer com cuidado. Não a tocava além do necessário, não a
puxava para perto, mas bastava um olhar atento, um sussurro breve, para que
Rachel se sentisse amparada. A criança buscava Taylor com os olhos sempre que
se sentia perdida, e isso não passava despercebido.
Especialmente por John.
Ele circulava entre os convidados com
naturalidade estudada: cumprimentos firmes, risadas calculadas, sempre no
controle do espaço que ocupava. Usava um terno escuro perfeitamente ajustado, o
corpo ereto, o rosto iluminado por uma cordialidade que parecia nunca falhar.
Mas, entre um aperto de mão e outro,
seus olhos retornavam a Taylor.
Ela percebeu, não como uma ameaça
ainda, mas como uma presença constante. Um olhar que demorava um segundo a mais
do que o necessário. Um comentário feito ao passar.
— Rachel parece mais tranquila hoje. —
disse ele em determinado momento, aproximando-se de Taylor enquanto fingia
observar a mesa posta.
— Sim, ela está cada dia mais
confiante. — respondeu Taylor.
John sorriu de lado.
— Você, sem dúvidas, transmite
confiança.
Ao dizer isso, sua mão tocou levemente
o braço de Taylor — um gesto breve, quase casual, como se fosse apenas uma
ênfase no comentário. O contato foi rápido demais para ser questionado, lento
demais para ser ignorado.
Taylor sentiu o corpo enrijecer por um
instante, mas manteve a expressão neutra. Afastou-se com naturalidade, buscando
Rachel do outro lado da sala.
Katheryn observava.
Não disse nada. Não precisava. Havia
algo em seu olhar, uma avaliação silenciosa, um incômodo ainda sem nome, enquanto
acompanhava a cena à distância.
À mesa, o almoço foi servido como um
espetáculo. Pratos impecáveis, conversas medidas, risos que surgiam nos
momentos certos. Taylor ajudava Rachel a se servir, orientava-a em silêncio,
corrigia pequenos gestos sem chamar atenção. A menina inclinava-se discretamente
em sua direção, buscando apoio em olhares e palavras sussurradas.
— Pode ir, Taylor! — disse Katheryn,
forçando um sorriso. — Rachel está grande o suficiente para comer conosco à
mesa, não é, querida? Daqui eu assumo.
Do outro lado da mesa, John observava
a cena com atenção excessiva para parecer apenas paternal.
Em poucos minutos, todos os convidados
ocuparam seus lugares em torno da família Mayer. John discursou brevemente
sobre paz, união e sucesso, enquanto Katheryn alongou a fala com palavras
cuidadosamente escolhidas sobre família.
Quando os pratos principais começaram
a ser servidos à elite londrina na sala de jantar, os funcionários se
recolheram para a cozinha, como sempre acontecia nesses eventos. Era um ritual
silencioso e quase automático: enquanto a família Mayer e seus convidados
brindavam com taças de cristal, os empregados se acomodavam em torno da grande
mesa de madeira, ao fundo da casa, onde a comida ainda era farta, mas o clima
completamente diferente.
Amira distribuiu os pratos com
eficiência, Salma organizou os talheres, Sabrina comentava algo em tom baixo, e
Jason ria de uma piada que ninguém parecia ouvir direito. O contraste entre os
dois mundos era gritante — e constante.
Taylor observou a travessa principal
ainda intocada sobre o balcão: medalhões de cordeiro ao molho de vinho tinto,
acompanhados de purê de batatas trufado e legumes assados com ervas frescas.
Era um prato pensado para impressionar.
Ela serviu uma porção generosa em um
prato de porcelana branca e, em vez de sentar-se com os demais, caminhou até a
porta lateral que dava acesso ao jardim.
Juan estava ali, sentado no degrau de
pedra, afastado do burburinho, limpando as mãos com um pano. Ergueu o olhar ao
vê-la se aproximar.
— Achei que você ainda não tivesse
comido — disse Taylor, estendendo o prato. — E… parecia injusto deixar isso
esfriar.
Juan arqueou levemente as
sobrancelhas, surpreso.
— Obrigado — respondeu, aceitando o
prato com cuidado. — Está bonito demais pra ser comida de funcionário.
Taylor sorriu.
— O jardim também está — comentou,
sentando-se a uma distância respeitosa. — As flores… a combinação de cores… dá
pra perceber que alguém pensou em cada detalhe.
Juan inclinou a cabeça, como quem
recebe um elogio raro.
— É meu trabalho — disse, simples.
— É mais do que isso — ela insistiu. —
Dá vida à casa.
Ele mastigou em silêncio por alguns
segundos antes de responder.
— Vida… — repetiu, pensativo. — Faz
tempo que essa casa não parece viva de verdade.
Taylor respirou fundo.
— A Rachel parece diferente —
continuou Juan, sem encará-la. — Mais leve. Mais… presente. Não a via assim há
muito tempo.
— Ela é uma criança sensível — disse
Taylor. — Só precisava de espaço para ser ouvida.
Juan assentiu lentamente.
— Talvez. Mas aqui, espaço é coisa
rara.
Houve um silêncio breve, interrompido
apenas pelo som distante de risadas vindas da sala de jantar.
— Posso te dar um conselho? — ele
perguntou.
Taylor o olhou.
— Claro.
— Mantenha distância da família —
disse, em tom baixo. — Principalmente quando começar a perceber os conflitos
entre eles. Essas coisas… respingam. E quase sempre, caem primeiro na criança.
— E ninguém faz nada? — Taylor
questionou, com cuidado.
Juan a encarou pela primeira vez com
mais firmeza.
— Aqui, a gente aprende a ver antes de
falar.
Ela hesitou.
— E o John? — perguntou, por fim. — O
que você acha dele?
Juan levou mais um pedaço do cordeiro
à boca, mastigou devagar. Quando respondeu, sua voz estava controlada demais.
— Conheço o John desde pequeno —
disse. — Antes de ser quem é hoje. Foi através de um trabalho comunitário que
ele ajudou a manter que eu comecei aqui.
Taylor entendeu o recado.
— Então você não vai falar dele.
— Não — Juan confirmou. — Patrões
mudam. Casas mudam. Mas quem trabalha nelas aprende a sobreviver ficando em
silêncio.
Ele se levantou, devolvendo o prato
vazio a Taylor.
— Só… cuide de si — completou. — E
lembre-se: nem tudo que parece proteção é cuidado de verdade.
Juan se afastou em direção ao jardim,
deixando Taylor parada, segurando o prato agora frio.
Naquele instante, ela teve certeza de
algo que ainda não sabia nomear por completo: Juan via muito mais do que dizia.
E talvez fosse o único ali que
realmente enxergasse o perigo se formando.
[CONTINUA]
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