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22 de janeiro de 2026

dancing with the devil | 05° Capítulo.

No domingo de Páscoa, os Mayer ofereceram um luxuoso almoço em sua mansão.

A casa despertara mais cedo do que o habitual, tomada por um movimento quase cerimonial. Desde as primeiras horas da manhã, Amira e Salma transitavam pela cozinha com eficiência silenciosa, alternando palavras rápidas em árabe e gestos precisos. O aroma de especiarias, carnes assadas e pães recém-saídos do forno misturava-se ao cheiro doce das flores frescas que Juan havia disposto pelo jardim e pelos corredores principais.

Era a primeira vez que Taylor participava de um evento daquele porte como parte visível da engrenagem social dos Mayer — não apenas como funcionária, mas como alguém que precisava estar presente, observando, auxiliando, existindo sem chamar atenção excessiva.

Katheryn supervisionava tudo com um sorriso treinado. Vestia um conjunto claro e elegante, perfeitamente adequado para as fotos que, Taylor sabia, apareceriam mais tarde nas redes sociais. Caminhava pela casa com uma taça de vinho branco na mão, corrigindo detalhes mínimos: um guardanapo fora do lugar, um arranjo desalinhado, o tom de voz de Sabrina alto demais para o ambiente.

Rachel, por outro lado, parecia deslocada. Usava um vestido delicado demais para sua idade e girava pela sala de estar sem destino certo, observando os adultos que começavam a chegar — amigos, parceiros de negócios, nomes importantes da recém-conquistada elite londrina.

Taylor manteve-se próxima à menina, como aprendera a fazer com cuidado. Não a tocava além do necessário, não a puxava para perto, mas bastava um olhar atento, um sussurro breve, para que Rachel se sentisse amparada. A criança buscava Taylor com os olhos sempre que se sentia perdida, e isso não passava despercebido.

Especialmente por John.

Ele circulava entre os convidados com naturalidade estudada: cumprimentos firmes, risadas calculadas, sempre no controle do espaço que ocupava. Usava um terno escuro perfeitamente ajustado, o corpo ereto, o rosto iluminado por uma cordialidade que parecia nunca falhar.

Mas, entre um aperto de mão e outro, seus olhos retornavam a Taylor.

Ela percebeu, não como uma ameaça ainda, mas como uma presença constante. Um olhar que demorava um segundo a mais do que o necessário. Um comentário feito ao passar.

— Rachel parece mais tranquila hoje. — disse ele em determinado momento, aproximando-se de Taylor enquanto fingia observar a mesa posta.

— Sim, ela está cada dia mais confiante. — respondeu Taylor.

John sorriu de lado.

— Você, sem dúvidas, transmite confiança.

Ao dizer isso, sua mão tocou levemente o braço de Taylor — um gesto breve, quase casual, como se fosse apenas uma ênfase no comentário. O contato foi rápido demais para ser questionado, lento demais para ser ignorado.

Taylor sentiu o corpo enrijecer por um instante, mas manteve a expressão neutra. Afastou-se com naturalidade, buscando Rachel do outro lado da sala.

Katheryn observava.

Não disse nada. Não precisava. Havia algo em seu olhar, uma avaliação silenciosa, um incômodo ainda sem nome, enquanto acompanhava a cena à distância.

À mesa, o almoço foi servido como um espetáculo. Pratos impecáveis, conversas medidas, risos que surgiam nos momentos certos. Taylor ajudava Rachel a se servir, orientava-a em silêncio, corrigia pequenos gestos sem chamar atenção. A menina inclinava-se discretamente em sua direção, buscando apoio em olhares e palavras sussurradas.

— Pode ir, Taylor! — disse Katheryn, forçando um sorriso. — Rachel está grande o suficiente para comer conosco à mesa, não é, querida? Daqui eu assumo.

Do outro lado da mesa, John observava a cena com atenção excessiva para parecer apenas paternal.

Em poucos minutos, todos os convidados ocuparam seus lugares em torno da família Mayer. John discursou brevemente sobre paz, união e sucesso, enquanto Katheryn alongou a fala com palavras cuidadosamente escolhidas sobre família.

Quando os pratos principais começaram a ser servidos à elite londrina na sala de jantar, os funcionários se recolheram para a cozinha, como sempre acontecia nesses eventos. Era um ritual silencioso e quase automático: enquanto a família Mayer e seus convidados brindavam com taças de cristal, os empregados se acomodavam em torno da grande mesa de madeira, ao fundo da casa, onde a comida ainda era farta, mas o clima completamente diferente.

Amira distribuiu os pratos com eficiência, Salma organizou os talheres, Sabrina comentava algo em tom baixo, e Jason ria de uma piada que ninguém parecia ouvir direito. O contraste entre os dois mundos era gritante — e constante.

Taylor observou a travessa principal ainda intocada sobre o balcão: medalhões de cordeiro ao molho de vinho tinto, acompanhados de purê de batatas trufado e legumes assados com ervas frescas. Era um prato pensado para impressionar.

Ela serviu uma porção generosa em um prato de porcelana branca e, em vez de sentar-se com os demais, caminhou até a porta lateral que dava acesso ao jardim.

Juan estava ali, sentado no degrau de pedra, afastado do burburinho, limpando as mãos com um pano. Ergueu o olhar ao vê-la se aproximar.

— Achei que você ainda não tivesse comido — disse Taylor, estendendo o prato. — E… parecia injusto deixar isso esfriar.

Juan arqueou levemente as sobrancelhas, surpreso.

— Obrigado — respondeu, aceitando o prato com cuidado. — Está bonito demais pra ser comida de funcionário.

Taylor sorriu.

— O jardim também está — comentou, sentando-se a uma distância respeitosa. — As flores… a combinação de cores… dá pra perceber que alguém pensou em cada detalhe.

Juan inclinou a cabeça, como quem recebe um elogio raro.

— É meu trabalho — disse, simples.

— É mais do que isso — ela insistiu. — Dá vida à casa.

Ele mastigou em silêncio por alguns segundos antes de responder.

— Vida… — repetiu, pensativo. — Faz tempo que essa casa não parece viva de verdade.

Taylor respirou fundo.

— A Rachel parece diferente — continuou Juan, sem encará-la. — Mais leve. Mais… presente. Não a via assim há muito tempo.

— Ela é uma criança sensível — disse Taylor. — Só precisava de espaço para ser ouvida.

Juan assentiu lentamente.

— Talvez. Mas aqui, espaço é coisa rara.

Houve um silêncio breve, interrompido apenas pelo som distante de risadas vindas da sala de jantar.

— Posso te dar um conselho? — ele perguntou.

Taylor o olhou.

— Claro.

— Mantenha distância da família — disse, em tom baixo. — Principalmente quando começar a perceber os conflitos entre eles. Essas coisas… respingam. E quase sempre, caem primeiro na criança.

— E ninguém faz nada? — Taylor questionou, com cuidado.

Juan a encarou pela primeira vez com mais firmeza.

— Aqui, a gente aprende a ver antes de falar.

Ela hesitou.

— E o John? — perguntou, por fim. — O que você acha dele?

Juan levou mais um pedaço do cordeiro à boca, mastigou devagar. Quando respondeu, sua voz estava controlada demais.

— Conheço o John desde pequeno — disse. — Antes de ser quem é hoje. Foi através de um trabalho comunitário que ele ajudou a manter que eu comecei aqui.

Taylor entendeu o recado.

— Então você não vai falar dele.

— Não — Juan confirmou. — Patrões mudam. Casas mudam. Mas quem trabalha nelas aprende a sobreviver ficando em silêncio.

Ele se levantou, devolvendo o prato vazio a Taylor.

— Só… cuide de si — completou. — E lembre-se: nem tudo que parece proteção é cuidado de verdade.

Juan se afastou em direção ao jardim, deixando Taylor parada, segurando o prato agora frio.

Naquele instante, ela teve certeza de algo que ainda não sabia nomear por completo: Juan via muito mais do que dizia.

E talvez fosse o único ali que realmente enxergasse o perigo se formando.

[CONTINUA]

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