A Páscoa ficara para trás como uma fotografia
já antiga no feed de Katheryn.
O tempo avançara quase sem ser notado,
dissolvendo os últimos vestígios da primavera em dias mais longos, manhãs
claras e um calor ainda contido — o início do verão se anunciava nas janelas
abertas da mansão Mayer, no perfume mais intenso das flores do jardim e na
mudança sutil do ritmo da casa.
Nesse intervalo de tempo, Taylor
consolidara sua posição.
Conhecia a mansão como quem aprende um
corpo alheio aos poucos: os rangidos específicos do assoalho, os horários em
que a casa ficava mais silenciosa, os corredores que Katheryn evitava, os
espaços onde John raramente entrava quando estava atrasado para o estúdio ou
para compromissos sociais sempre tratados com hora marcada.
O plano seguia.
Rachel confiava nela – não de forma
ruidosa, não com dependência explícita. Taylor fora cuidadosa demais para isso,
mas com a naturalidade de uma criança que finalmente se sentia segura o
suficiente para existir. A menina falava mais, fazia perguntas, ria com menos
receio. Contava-lhe segredos triviais, frustrações miúdas, medos noturnos.
Falava das discussões dos pais sem entender direito os motivos, mas sentindo o
peso delas no corpo pequeno.
Taylor ouvira discussões – às vezes
abafadas pelas paredes grossas da casa, às vezes claras demais para serem
ignoradas. Vozes elevadas no escritório, portas fechadas com força, silêncios
longos demais à mesa. Ela nunca se intrometia. Nunca comentava. Limitava-se a
registrar mentalmente cada padrão, cada repetição.
Com os funcionários, a aproximação
também se tornara inevitável. 5Sabrina falava demais, Amira e Salma observavam
tudo com olhos atentos, Jason tornara-se cordial, e Juan… Juan permanecia
silencioso demais para ser ignorado. Um observador constante.
O que realmente importava era que Taylor
seguia seu plano com precisão: observava, aprendia, aguardava.
Mas ainda assim, havia John – mesmo
ausente por longos períodos, quando estava em casa fazia questão de se
aproximar. Um comentário elogioso aqui. Um toque breve nos ombros ao passar. A
mão que permanecia um segundo a mais na cintura quando buscava guiá-la por um
corredor estreito. Tudo sempre disfarçado de gentileza, de cuidado, de presença
paterna estendida.
Seu corpo sempre se repelia, era inevitável
o mal-estar que ele causava sem ao menos perceber o nojo que Taylor sentia e
controlava dentro de si. Essa era a sua maior batalha.
Foi numa tarde quente quando a audição
surgiu quase como um segredo tímido, anunciado por Rachel numa tarde morna,
enquanto fazia a lição de casa na mesa da varanda.
— Mamãe disse que vai ter uma audição…
— comentou, sem erguer muito os olhos do caderno. — Para O Quebra-Nozes.
Na escola de artes.
Taylor interrompeu o que fazia por um
segundo. O nome da peça ecoou de maneira estranha dentro dela, como algo
esquecido no fundo de um corpo que ainda respondia à memória antes da razão.
— E você quer participar? — perguntou,
mantendo o tom leve.
Rachel hesitou antes de assentir.
— Quero… — disse por fim. — Quero que
eles se orgulhem de mim.
Havia algo naquela frase que não
combinava com a idade da criança. Taylor não comentou. Apenas sorriu,
incentivadora.
A partir daquele dia, os finais de
tarde ganharam uma nova rotina.
Depois das lições, Rachel pedia para
ensaiar. Não era insistente — nunca era. Mas havia uma expectativa contida em
seu olhar, uma ansiedade doce que Taylor reconheceu de imediato.
Os ensaios aconteciam no pátio
externo, na ampla varanda que se abria para o jardim. O piso de pedra ainda
guardava o calor do dia, e o espaço era amplo o suficiente para que Rachel se
movimentasse sem medo de errar.
No início, Taylor limitava-se a
observar.
Batidas tímidas de pé. Tentativas
desajeitadas de giros. Braços que não sabiam muito bem onde repousar. Ela
corrigia apenas com palavras simples, evitando qualquer gesto que revelasse
demais.
Mas, aos poucos, a guarda foi
baixando.
Talvez fosse o riso de Rachel quando
errava. Talvez a forma como o corpo da criança pedia orientação. Ou talvez
fosse a memória insistente de um tempo em que tudo aquilo também lhe
pertencera.
Taylor ajoelhou-se diante dela numa
dessas tardes.
— Olha… — disse, segurando suavemente
os ombros da menina. — Pensa que tem um fio puxando sua cabeça para cima.
Rachel riu, mas tentou.
Taylor corrigiu os pés, alinhou os
joelhos, mostrou com o próprio corpo o caminho do movimento. Seus gestos eram
naturais demais para quem “apenas ajudava”. Havia precisão. Consciência.
Memória muscular.
Os funcionários começaram a assisti-las.
Sabrina encostou-se à porta da
cozinha, sorrindo abertamente. Amira e Salma observavam em silêncio respeitoso.
Jason fingia arrumar algo perto demais só para assistir.
E Juan… Juan nunca fingia.
Ele sentava-se no banco de madeira ao
lado da varanda, mãos apoiadas nos joelhos, o olhar atento. Gostava de ver
Rachel dançar — isso era evidente. Mas havia algo mais em seu olhar quando
acompanhava Taylor. Um reconhecimento silencioso. Um encanto contido, sem
atravessar limites.
— De novo. — dizia Taylor com
suavidade. — Agora mais leve.
Rachel girava. Errava. Tentava outra
vez.
E, pela primeira vez desde que entrara
naquela casa, Taylor esquecia de observar.
Foi nesse exato momento que John observou.
Do andar superior, parado diante da
janela do corredor, ele não fazia barulho. Vira o movimento por acaso. O corpo
da babá em postura, os braços erguidos com naturalidade, a forma como corrigia
a filha sem tocar demais, mas sabendo exatamente onde tocar.
Aquilo não era improviso, era
conhecimento.
John sentiu algo se mover dentro de si
— não ternura, não orgulho paterno. Era outra coisa. Mais íntima. A sensação de
ter descoberto algo que não lhe fora oferecido, mas que agora estava exposto.
Um segredo.
Taylor sorria para Rachel,
completamente alheia. O sol dourava seus cabelos, o vestido leve acompanhava
seus movimentos com discrição perigosa.
John não desceu ou interrompeu. Apenas
observou.
Mas não era somente John que sabia
observar, Juan levantou os olhos do jardim quase por instinto. Viu o patrão
parado junto à janela do corredor, parcialmente oculto pela cortina clara. O
corpo rígido demais. O olhar fixo demais. Não era o olhar distraído de um pai
orgulhoso. Era outro.
Juan não reagiu. Não pigarreou. Não
chamou Taylor. Não desviou Rachel.
Taylor, alheia, corrigia a postura da
menina mais uma vez.
— Melhorou muito, viu? — disse,
sorrindo. — Seu equilíbrio está ótimo hoje.
Rachel sorriu largo, ofegante,
orgulhosa de si mesma.
Foi então que passos ecoaram no piso
superior.
John desceu as escadas alguns minutos
depois, o rosto recomposto, o sorriso já no lugar certo. A cordialidade
habitual, quase impecável — mas havia algo novo ali, uma energia contida, como
quem acabara de assistir a algo que não deveria.
— Vejo que temos uma bailarina em
casa. — disse, aproximando-se.
Taylor virou-se de imediato. O corpo
reagiu antes do pensamento. Endireitou-se, afastando-se um passo quase
imperceptível de Rachel.
— Ela está se esforçando bastante. —
respondeu.
John ignorou Taylor por um instante e
agachou-se diante da filha.
— O que é isso que eu estou perdendo?
— perguntou, com uma doçura ensaiada.
Rachel hesitou, olhou para Taylor.
— Conte! — incentivou. — É importante.
— Eu vou fazer uma audição. — disse a
menina, por fim. — Para O Quebra-Nozes. Quero muito passar.
John abriu um sorriso largo demais.
— Claro que vai passar. — disse
prontamente. — E se não passar, vai tentar de novo. Isso é o que importa.
Ele se levantou então, e só nesse
momento voltou-se para Taylor.
— Você entende bastante disso. —
afirmou, como quem constata algo óbvio.
Taylor sentiu o estômago apertar.
— Só estou ajudando. — respondeu, com
cuidado.
— Mesmo assim. — insistiu. — Rachel
pode praticar no meu estúdio. Lá tem espelhos, espaço… é melhor para ela.
O convite veio com naturalidade
demais. O subtexto, não.
Rachel animou-se imediatamente.
— Sério, papai?
— Claro. — disse John, tocando
levemente o ombro da filha. — E a Taylor pode continuar ajudando. Afinal, vocês
duas parecem funcionar bem juntas.
O olhar dele permaneceu um segundo a
mais sobre Taylor.
Ela assentiu, profissional.
— Se for melhor para a Rachel, eu
acompanho.
John sorriu satisfeito, como quem
acabara de mover uma peça para o lugar certo.
John retirou-se com a mesma compostura
calculada com que surgira, batendo palmas uma única vez para chamar a atenção
das cozinheiras.
— Não esqueçam o jantar no horário. —
disse, já caminhando em direção ao corredor. — Temos uma rotina a manter.
Amira e Salma assentiram em silêncio.
O som dos passos dele se perdeu no andar superior.
Foi quando Sabrina se aproximou de
Taylor, com aquele ar de quem comenta algo banal, mas guarda farpas nas
palavras.
— Você reparou? — murmurou, ajeitando
o avental. — O patrão parece… gostar de você.
Taylor ergueu os olhos, cautelosa.
— Gosta?
Sabrina soltou uma risada curta, sem
humor.
— Ele não gosta de ninguém. — disse,
num sussurro quase cúmplice. — Mal vê a gente como gente. É estranho quando
presta atenção demais.
Antes que Taylor respondesse, Sabrina
já se afastava, como se nada tivesse sido dito.
O resto do dia transcorreu em uma
calma quase artificial.
Taylor ajudou Rachel no banho, penteou
seus cabelos com cuidado, escolheu junto com ela a roupa para o dia seguinte e
organizou a mochila com uma atenção quase ritualística. A menina não parava de
falar — sobre a audição, sobre o estúdio do pai, sobre como queria que tudo
desse certo.
— Você acha que eu consigo? —
perguntou, já de pijama, sentada na cama.
— Acho que você já está conseguindo. —
respondeu Taylor, sincera. — O resto vem com o tempo.
Rachel sorriu, finalmente mais
tranquila. Depois de alguns minutos, os olhos pesaram, e o entusiasmo cedeu
lugar ao sono. Taylor apagou a luz, fechou a porta com cuidado e sentiu o corpo
relaxar apenas quando atravessou o corredor em direção à saída de serviço.
Estava pronta para ir embora.
— Taylor.
A voz de John a alcançou antes que ela
abrisse a porta.
Ele aproximou-se com passos suaves
demais para aquele horário. Vestia-se de forma mais casual agora, sem o rigor
do dia, o que o tornava ainda mais presente no espaço.
— Está indo? — perguntou, como se não
fosse óbvio.
— Sim, senhor.
— Já está tarde. — disse,
aproximando-se mais um pouco. — Posso te levar.
Ela sentiu o alerta subir pela
espinha.
— Não é necessário. Eu…
Ele inclinou-se levemente, invadindo
um espaço que não lhe fora concedido. O rosto próximo demais. A voz baixa.
— Não me incomodaria. Gosto de ajudar
quem cuida da minha filha.
Antes que ela pudesse responder, o som
de passos veio do jardim lateral.
— Taylor.
A voz de Juan surgiu como uma âncora.
Ele se aproximava, limpando as mãos
num pano gasto, o semblante tranquilo como sempre, mas os olhos atentos demais
para aquela hora.
— Eu já ia te procurar. — disse. —
Tinha dito que te levaria hoje, lembra?
Taylor piscou, surpresa. Não lembrava
de nenhum acordo, mas entendeu imediatamente.
— Ah… sim. — respondeu, acompanhando o
jogo. — Claro.
John voltou o olhar para Juan, o
sorriso permanecendo no rosto, mas endurecido nas bordas.
— Não sabia que já tinham combinado
algo. — disse, sem esconder o incômodo.
— Conversamos mais cedo. — disse Juan,
simples. — Hoje tenho um compromisso e a casa dela é um caminho.
John encarou-o por um segundo longo
demais. Havia algo de contido ali — frustração, ciúme, uma irritação mal
disfarçada.
— Claro. — disse, por fim,
afastando-se. — Boa noite, Taylor.
Ela assentiu rapidamente e seguiu Juan
sem olhar para trás.
O carro estacionado em frente à mansão
era um Morris Minor antigo, azul-claro, impecavelmente conservado. O motor
respondeu com um ronco baixo quando Juan girou a chave. Durante todo o trajeto,
ele não disse uma palavra. Mantinha os olhos atentos à estrada, as mãos firmes
no volante.
Taylor quebrou o silêncio apenas ao
final.
— Obrigada. — disse, com sinceridade.
— Eu… agradeço mesmo.
Juan assentiu, quase imperceptível.
— Às vezes — respondeu, por fim — é
melhor não estar sozinha.
— O que quer dizer?
— Conheço o sr. Mayer há muito
tempo... e sra. Katheryn também. —olhou-a sério. — Se ele está investindo dessa
forma em você, talvez esteja na hora de você repensar outro emprego...
— Outro emprego? — indagou, quase que
chocada. — Eu... eu não fiz nada, Juan. E nem quero nada com ele, sinto... —
segurou-se. — Pode ter certeza que eu não...
— Você não, ele sim. — interrompeu-a. —
E sra. Katheryn irá notar, como Sabrina notou.
Ficaram em silêncio.
— Melhor ir, descanse e pense no que te
disse. — ordenou, suave.
Ela desceu do carro com a sensação
incômoda de que aquela frase não era apenas sobre a noite.
Do outro lado da rua, invisível a eles
agora, John observava a cena da janela, os punhos cerrados, o olhar escuro.
Ele não gostava de perder o controle. E,
naquela noite, perdera mais do que queria.
[CONTINUA]
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