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23 de janeiro de 2026

dancing with the devil | 06° Capítulo.

A Páscoa ficara para trás como uma fotografia já antiga no feed de Katheryn.

O tempo avançara quase sem ser notado, dissolvendo os últimos vestígios da primavera em dias mais longos, manhãs claras e um calor ainda contido — o início do verão se anunciava nas janelas abertas da mansão Mayer, no perfume mais intenso das flores do jardim e na mudança sutil do ritmo da casa.

Nesse intervalo de tempo, Taylor consolidara sua posição.

Conhecia a mansão como quem aprende um corpo alheio aos poucos: os rangidos específicos do assoalho, os horários em que a casa ficava mais silenciosa, os corredores que Katheryn evitava, os espaços onde John raramente entrava quando estava atrasado para o estúdio ou para compromissos sociais sempre tratados com hora marcada.

O plano seguia.

Rachel confiava nela – não de forma ruidosa, não com dependência explícita. Taylor fora cuidadosa demais para isso, mas com a naturalidade de uma criança que finalmente se sentia segura o suficiente para existir. A menina falava mais, fazia perguntas, ria com menos receio. Contava-lhe segredos triviais, frustrações miúdas, medos noturnos. Falava das discussões dos pais sem entender direito os motivos, mas sentindo o peso delas no corpo pequeno.

Taylor ouvira discussões – às vezes abafadas pelas paredes grossas da casa, às vezes claras demais para serem ignoradas. Vozes elevadas no escritório, portas fechadas com força, silêncios longos demais à mesa. Ela nunca se intrometia. Nunca comentava. Limitava-se a registrar mentalmente cada padrão, cada repetição.

Com os funcionários, a aproximação também se tornara inevitável. 5Sabrina falava demais, Amira e Salma observavam tudo com olhos atentos, Jason tornara-se cordial, e Juan… Juan permanecia silencioso demais para ser ignorado. Um observador constante.

O que realmente importava era que Taylor seguia seu plano com precisão: observava, aprendia, aguardava.

Mas ainda assim, havia John – mesmo ausente por longos períodos, quando estava em casa fazia questão de se aproximar. Um comentário elogioso aqui. Um toque breve nos ombros ao passar. A mão que permanecia um segundo a mais na cintura quando buscava guiá-la por um corredor estreito. Tudo sempre disfarçado de gentileza, de cuidado, de presença paterna estendida.

Seu corpo sempre se repelia, era inevitável o mal-estar que ele causava sem ao menos perceber o nojo que Taylor sentia e controlava dentro de si. Essa era a sua maior batalha.

Foi numa tarde quente quando a audição surgiu quase como um segredo tímido, anunciado por Rachel numa tarde morna, enquanto fazia a lição de casa na mesa da varanda.

— Mamãe disse que vai ter uma audição… — comentou, sem erguer muito os olhos do caderno. — Para O Quebra-Nozes. Na escola de artes.

Taylor interrompeu o que fazia por um segundo. O nome da peça ecoou de maneira estranha dentro dela, como algo esquecido no fundo de um corpo que ainda respondia à memória antes da razão.

— E você quer participar? — perguntou, mantendo o tom leve.

Rachel hesitou antes de assentir.

— Quero… — disse por fim. — Quero que eles se orgulhem de mim.

Havia algo naquela frase que não combinava com a idade da criança. Taylor não comentou. Apenas sorriu, incentivadora.

A partir daquele dia, os finais de tarde ganharam uma nova rotina.

Depois das lições, Rachel pedia para ensaiar. Não era insistente — nunca era. Mas havia uma expectativa contida em seu olhar, uma ansiedade doce que Taylor reconheceu de imediato.

Os ensaios aconteciam no pátio externo, na ampla varanda que se abria para o jardim. O piso de pedra ainda guardava o calor do dia, e o espaço era amplo o suficiente para que Rachel se movimentasse sem medo de errar.

No início, Taylor limitava-se a observar.

Batidas tímidas de pé. Tentativas desajeitadas de giros. Braços que não sabiam muito bem onde repousar. Ela corrigia apenas com palavras simples, evitando qualquer gesto que revelasse demais.

Mas, aos poucos, a guarda foi baixando.

Talvez fosse o riso de Rachel quando errava. Talvez a forma como o corpo da criança pedia orientação. Ou talvez fosse a memória insistente de um tempo em que tudo aquilo também lhe pertencera.

Taylor ajoelhou-se diante dela numa dessas tardes.

— Olha… — disse, segurando suavemente os ombros da menina. — Pensa que tem um fio puxando sua cabeça para cima.

Rachel riu, mas tentou.

Taylor corrigiu os pés, alinhou os joelhos, mostrou com o próprio corpo o caminho do movimento. Seus gestos eram naturais demais para quem “apenas ajudava”. Havia precisão. Consciência. Memória muscular.

Os funcionários começaram a assisti-las.

Sabrina encostou-se à porta da cozinha, sorrindo abertamente. Amira e Salma observavam em silêncio respeitoso. Jason fingia arrumar algo perto demais só para assistir.

E Juan… Juan nunca fingia.

Ele sentava-se no banco de madeira ao lado da varanda, mãos apoiadas nos joelhos, o olhar atento. Gostava de ver Rachel dançar — isso era evidente. Mas havia algo mais em seu olhar quando acompanhava Taylor. Um reconhecimento silencioso. Um encanto contido, sem atravessar limites.

— De novo. — dizia Taylor com suavidade. — Agora mais leve.

Rachel girava. Errava. Tentava outra vez.

E, pela primeira vez desde que entrara naquela casa, Taylor esquecia de observar.

Foi nesse exato momento que John observou.

Do andar superior, parado diante da janela do corredor, ele não fazia barulho. Vira o movimento por acaso. O corpo da babá em postura, os braços erguidos com naturalidade, a forma como corrigia a filha sem tocar demais, mas sabendo exatamente onde tocar.

Aquilo não era improviso, era conhecimento.

John sentiu algo se mover dentro de si — não ternura, não orgulho paterno. Era outra coisa. Mais íntima. A sensação de ter descoberto algo que não lhe fora oferecido, mas que agora estava exposto.

Um segredo.

Taylor sorria para Rachel, completamente alheia. O sol dourava seus cabelos, o vestido leve acompanhava seus movimentos com discrição perigosa.

John não desceu ou interrompeu. Apenas observou.

Mas não era somente John que sabia observar, Juan levantou os olhos do jardim quase por instinto. Viu o patrão parado junto à janela do corredor, parcialmente oculto pela cortina clara. O corpo rígido demais. O olhar fixo demais. Não era o olhar distraído de um pai orgulhoso. Era outro.

Juan não reagiu. Não pigarreou. Não chamou Taylor. Não desviou Rachel.

Taylor, alheia, corrigia a postura da menina mais uma vez.

— Melhorou muito, viu? — disse, sorrindo. — Seu equilíbrio está ótimo hoje.

Rachel sorriu largo, ofegante, orgulhosa de si mesma.

Foi então que passos ecoaram no piso superior.

John desceu as escadas alguns minutos depois, o rosto recomposto, o sorriso já no lugar certo. A cordialidade habitual, quase impecável — mas havia algo novo ali, uma energia contida, como quem acabara de assistir a algo que não deveria.

— Vejo que temos uma bailarina em casa. — disse, aproximando-se.

Taylor virou-se de imediato. O corpo reagiu antes do pensamento. Endireitou-se, afastando-se um passo quase imperceptível de Rachel.

— Ela está se esforçando bastante. — respondeu.

John ignorou Taylor por um instante e agachou-se diante da filha.

— O que é isso que eu estou perdendo? — perguntou, com uma doçura ensaiada.

Rachel hesitou, olhou para Taylor.

— Conte! — incentivou. — É importante.

— Eu vou fazer uma audição. — disse a menina, por fim. — Para O Quebra-Nozes. Quero muito passar.

John abriu um sorriso largo demais.

— Claro que vai passar. — disse prontamente. — E se não passar, vai tentar de novo. Isso é o que importa.

Ele se levantou então, e só nesse momento voltou-se para Taylor.

— Você entende bastante disso. — afirmou, como quem constata algo óbvio.

Taylor sentiu o estômago apertar.

— Só estou ajudando. — respondeu, com cuidado.

— Mesmo assim. — insistiu. — Rachel pode praticar no meu estúdio. Lá tem espelhos, espaço… é melhor para ela.

O convite veio com naturalidade demais. O subtexto, não.

Rachel animou-se imediatamente.

— Sério, papai?

— Claro. — disse John, tocando levemente o ombro da filha. — E a Taylor pode continuar ajudando. Afinal, vocês duas parecem funcionar bem juntas.

O olhar dele permaneceu um segundo a mais sobre Taylor.

Ela assentiu, profissional.

— Se for melhor para a Rachel, eu acompanho.

John sorriu satisfeito, como quem acabara de mover uma peça para o lugar certo.

John retirou-se com a mesma compostura calculada com que surgira, batendo palmas uma única vez para chamar a atenção das cozinheiras.

— Não esqueçam o jantar no horário. — disse, já caminhando em direção ao corredor. — Temos uma rotina a manter.

Amira e Salma assentiram em silêncio. O som dos passos dele se perdeu no andar superior.

Foi quando Sabrina se aproximou de Taylor, com aquele ar de quem comenta algo banal, mas guarda farpas nas palavras.

— Você reparou? — murmurou, ajeitando o avental. — O patrão parece… gostar de você.

Taylor ergueu os olhos, cautelosa.

— Gosta?

Sabrina soltou uma risada curta, sem humor.

— Ele não gosta de ninguém. — disse, num sussurro quase cúmplice. — Mal vê a gente como gente. É estranho quando presta atenção demais.

Antes que Taylor respondesse, Sabrina já se afastava, como se nada tivesse sido dito.

O resto do dia transcorreu em uma calma quase artificial.

Taylor ajudou Rachel no banho, penteou seus cabelos com cuidado, escolheu junto com ela a roupa para o dia seguinte e organizou a mochila com uma atenção quase ritualística. A menina não parava de falar — sobre a audição, sobre o estúdio do pai, sobre como queria que tudo desse certo.

— Você acha que eu consigo? — perguntou, já de pijama, sentada na cama.

— Acho que você já está conseguindo. — respondeu Taylor, sincera. — O resto vem com o tempo.

Rachel sorriu, finalmente mais tranquila. Depois de alguns minutos, os olhos pesaram, e o entusiasmo cedeu lugar ao sono. Taylor apagou a luz, fechou a porta com cuidado e sentiu o corpo relaxar apenas quando atravessou o corredor em direção à saída de serviço.

Estava pronta para ir embora.

— Taylor.

A voz de John a alcançou antes que ela abrisse a porta.

Ele aproximou-se com passos suaves demais para aquele horário. Vestia-se de forma mais casual agora, sem o rigor do dia, o que o tornava ainda mais presente no espaço.

— Está indo? — perguntou, como se não fosse óbvio.

— Sim, senhor.

— Já está tarde. — disse, aproximando-se mais um pouco. — Posso te levar.

Ela sentiu o alerta subir pela espinha.

— Não é necessário. Eu…

Ele inclinou-se levemente, invadindo um espaço que não lhe fora concedido. O rosto próximo demais. A voz baixa.

— Não me incomodaria. Gosto de ajudar quem cuida da minha filha.

Antes que ela pudesse responder, o som de passos veio do jardim lateral.

— Taylor.

A voz de Juan surgiu como uma âncora.

Ele se aproximava, limpando as mãos num pano gasto, o semblante tranquilo como sempre, mas os olhos atentos demais para aquela hora.

— Eu já ia te procurar. — disse. — Tinha dito que te levaria hoje, lembra?

Taylor piscou, surpresa. Não lembrava de nenhum acordo, mas entendeu imediatamente.

— Ah… sim. — respondeu, acompanhando o jogo. — Claro.

John voltou o olhar para Juan, o sorriso permanecendo no rosto, mas endurecido nas bordas.

— Não sabia que já tinham combinado algo. — disse, sem esconder o incômodo.

— Conversamos mais cedo. — disse Juan, simples. — Hoje tenho um compromisso e a casa dela é um caminho.

John encarou-o por um segundo longo demais. Havia algo de contido ali — frustração, ciúme, uma irritação mal disfarçada.

— Claro. — disse, por fim, afastando-se. — Boa noite, Taylor.

Ela assentiu rapidamente e seguiu Juan sem olhar para trás.

O carro estacionado em frente à mansão era um Morris Minor antigo, azul-claro, impecavelmente conservado. O motor respondeu com um ronco baixo quando Juan girou a chave. Durante todo o trajeto, ele não disse uma palavra. Mantinha os olhos atentos à estrada, as mãos firmes no volante.

Taylor quebrou o silêncio apenas ao final.

— Obrigada. — disse, com sinceridade. — Eu… agradeço mesmo.

Juan assentiu, quase imperceptível.

— Às vezes — respondeu, por fim — é melhor não estar sozinha.

— O que quer dizer?

— Conheço o sr. Mayer há muito tempo... e sra. Katheryn também. —olhou-a sério. — Se ele está investindo dessa forma em você, talvez esteja na hora de você repensar outro emprego...

— Outro emprego? — indagou, quase que chocada. — Eu... eu não fiz nada, Juan. E nem quero nada com ele, sinto... — segurou-se. — Pode ter certeza que eu não...

— Você não, ele sim. — interrompeu-a. — E sra. Katheryn irá notar, como Sabrina notou.

Ficaram em silêncio.

— Melhor ir, descanse e pense no que te disse. — ordenou, suave.

Ela desceu do carro com a sensação incômoda de que aquela frase não era apenas sobre a noite.

Do outro lado da rua, invisível a eles agora, John observava a cena da janela, os punhos cerrados, o olhar escuro.

Ele não gostava de perder o controle. E, naquela noite, perdera mais do que queria.

[CONTINUA]


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