Bebia o café puro em pequenos goles,
não por estar saboroso, mas porque postergava a sua volta ao trabalho. Olhava
seu celular em cima da mesa com receio, parecia que naquele pequeno aparelho
tinha uma bomba que poderia explodir em suas mãos a qualquer momento. No pouco
que verificou, havia inúmeras mensagens e ligações perdidas de Katheryn e na
única mensagem que ousou ler, Katheryn mandara: “não estrague meu dia sem
nenhum motivo”.
Maldito ego, pensara Taylor.
Depois que tirara o domingo para si
mesma, para limpar sua mente e reorganizar as ideias, Taylor estava decidida a
continuar. Seria mais cuidadosa, não permitiria que John se aproximasse demais
e iria dar forma ao plano, pois Selena tinha razão, está demorando muito e, sem
querer admitir, estava se apegando muito à Rachel.
Taylor terminou o café, vestiu-se com
cuidado excessivo e saiu de casa com uma decisão silenciosa: continuaria. Mas
seria mais cuidadosa, mais distante e John não se aproximaria novamente daquele
jeito. E a maior decisão era que não hesitaria.
No caminho, ensaiou desculpas.
Mal-estar. Enxaqueca. Um problema pessoal. Qualquer coisa que não parecesse
frágil ou honesta demais.
A casa Mayer estava silenciosa demais
quando ela chegou.
Não havia o burburinho habitual, nem o
som apressado dos funcionários se preparando para o dia. O clima era contido,
quase cerimonioso. Sabrina a viu primeiro, interrompeu o que fazia e arregalou
os olhos, surpresa genuína atravessando o rosto.
— Você está bem? — perguntou, baixo
demais para ser apenas curiosidade.
— Estou. — respondeu Taylor, sem
convicção. — Onde está a Katheryn?
— No escritório improvisado. — Sabrina
hesitou. — Ela não está… num bom humor.
Taylor assentiu e seguiu pelo
corredor.
Katheryn não a convidou a entrar.
— Você sabe que ontem não era um dia
comum. — disse, sem levantar os olhos dos papéis. — E sabe que sua ausência não
passou despercebida.
— Eu tive um mal-estar. — Taylor
respondeu, mantendo a voz firme. — Não consegui sair de casa.
Katheryn finalmente ergueu o olhar.
Não havia raiva explícita ali. Havia
algo pior: frustração controlada.
— Você deveria ter avisado. — disse. —
Não somos uma família desorganizada.
— Eu sei. — Taylor assentiu. — Peço
desculpas.
Katheryn sustentou o silêncio por
alguns segundos, como se avaliasse se aquilo era suficiente.
— Rachel sentiu sua falta. — disse por
fim. — Muito mais do que eu gostaria.
Taylor sentiu o peso da frase.
— Posso falar com ela?
— Depois. — respondeu. — Hoje
mantenha-se nas funções básicas.
Era um recuo calculado.
No corredor, Taylor viu John pela
primeira vez desde o domingo, mas ele não se aproximou. Limitou-se a um aceno
distante, um gesto educado demais para ser natural. Não houve troca de palavras
ou olhar prolongado. Nada.
E isso a inquietou, pois Taylor
percebeu que ele também recalculava.
E assim a semana seguiu arrastada.
As agendas se repetiam com precisão:
escola, atividades, compromissos sociais, horários rígidos demais para permitir
improvisos. Taylor cumpria tudo à risca em busca de conseguir a confiança da
patroa de volta, mas sua atenção se dividia. Sempre que podia, observava John à
distância, tentando captar os novos padrões e seus hábitos.
Fotografou quadros na sala principal
sob o pretexto de organização. Buscou nomes de antigas alunas nas redes
sociais, cruzou datas, tentou reconhecer rostos, mas não conseguia nada
concreto. Eram apenas fragmentos.
Tentou acessar o escritório dele uma
vez, em um fim de tarde silencioso. A senha resistiu. O sistema, também. Tudo
parecia protegido demais.
Rachel, por outro lado, aproximava-se
mais.
Buscava Taylor para pequenas
confidências, sentava-se ao seu lado sem pedir permissão, segurava-lhe a mão
com naturalidade excessiva. Havia algo de dependência ali, algo que Taylor
percebia.
Foi no momento do café da manhã em família
no sábado que o pedido de Rachel surgiu.
— Só duas amigas. — disse, os olhos
brilhando. — Está muito calor. A piscina quase não é usada.
Katheryn hesitou. John não.
— Desde que haja supervisão. — disse.
— E nada exagerado.
Então, a tarde caiu insuportavelmente
quente.
A piscina refletia o céu limpo, a água
imóvel demais para parecer segura. Rachel corria de um lado para outro, as
amigas riam, copos coloridos de coquetéis infantis espalhados pela mesa
lateral.
Taylor observava tudo.
John assistia à cena de longe, sentado
sob a sombra, conversando com alguém ao telefone. Katheryn surgia
ocasionalmente, verificando detalhes, sempre à distância.
O ar parecia pesado demais para se
mover, e até o som das risadas das crianças vinha abafado, como se atravessasse
uma camada invisível antes de alcançar os ouvidos. Rachel corria pela borda da
piscina com duas amigas, brincando de pega-pega, os pés molhados deixando
marcas escorregadias no piso claro.
— Cuidado! — Taylor advertiu, erguendo
um pouco a voz.
Rachel riu.
— Eu sei!
Não sabia. O movimento foi mínimo. Um
passo em falso. O pé deslizou.
E então... O som da água quebrando.
Rachel caiu.
Não foi um mergulho. Foi descontrole.
O corpo entrou torto, desajeitado, e
quando emergiu, não havia riso. Não havia brincadeira. Havia pânico.
— Taylor! — o grito veio engasgado,
cortado pela água. — Taylor!
As mãos batiam na superfície sem
ritmo, sem técnica. O corpo afundava mais do que subia. O rosto desaparecia e
reaparecia rápido demais.
Taylor não se moveu.
O mundo ao redor pareceu recuar.
O som das outras crianças gritando
ficou distante. O sol perdeu intensidade. Tudo se estreitou naquele ponto —
Rachel na água… e ela.
Imóvel.
É agora.
O pensamento surgiu, cru, sem filtro.
Seria tão fácil.
A água engolindo. O silêncio depois. O
fim de uma história que nunca deveria ter existido.
Um segundo.
Dois.
Rachel voltou à superfície, tossindo,
desesperada.
— Taylor!
Aquilo era confiança. E Taylor… não se
moveu. Naquele instante terrível, ela quis não se mover.
Foi Juan quem ouviu.
Estava no jardim lateral, lidando com
as plantas, quando o tom do grito mudou e deixou de ser brincadeira para urgência.
Ele correu. Saltou.
O impacto na água foi forte, direto,
preciso. Em poucos movimentos, alcançou Rachel, segurou-a pelo braço, mantendo
o rosto dela acima da superfície.
— Calma! Calma! — repetia.
As amigas choravam.
Taylor ainda estava parada.
Quando Juan saiu da piscina com a
menina nos braços, Rachel se agarrou a ele, tossindo, chorando alto, o corpo
tremendo inteiro.
Foi então que Katheryn apareceu.
— O que aconteceu?! — a voz veio antes
dela.
Ao ver a filha encharcada,
desesperada, algo se rompeu.
— Meu Deus! Rachel!
Ela correu, puxando a menina para si,
examinando seu rosto, seus braços, como se procurasse sinais invisíveis de algo
pior.
— Ela caiu — Juan disse, ainda
ofegante. — Estava se afogando.
John chegou logo atrás.
O olhar dele percorreu a cena
rapidamente para a filha, o jardineiro, a água… e então parou em Taylor.
E ela estava Imóvel. Seca. Intocada.
— Você não fez nada? — Katheryn
perguntou, virando-se para ela.
— Eu...
— VOCÊ NÃO FEZ NADA?! — a voz de
Katheryn rasgou o ar.
Rachel chorava agarrada a ela.
— Ela estava chamando você! —
continuou, a raiva crescendo sem controle. — Eu ouvi! Todo mundo ouviu!
Taylor sentiu o corpo finalmente
reagir — tarde demais.
— Eu... Rachel... eu...
A voz estava fraca, os pensamentos
confusos. Ela tinha sido pega!
— Suma daqui agora!
A ordem de Katheryn não foi apenas
dita, foi expulsa.
Taylor não respondeu, pois não havia
espaço para resposta.
O corpo finalmente reagia, mas tarde
demais para qualquer gesto que pudesse ser interpretado como cuidado. Os dedos
ainda tremiam levemente, como se o impulso de agir tivesse chegado atrasado,
deslocado do tempo certo.
Rachel ainda chorava agarrada à mãe. Mas,
por um instante ergueu o rosto e olhou para Taylor. Não foi um olhar longo, nem
dramático. Foi pior.
E suficiente.
Ali não havia mais aquela confiança
aberta, quase ingênua, que Rachel depositava nela dias antes. Não havia o
brilho, nem a busca imediata por conforto. Havia dor e Taylor sentiu.
Desviou o olhar primeiro por não suportar
sustentar aquilo.
Katheryn continuava falando — palavras
rápidas, cortantes, indignadas, mas Taylor já não distinguia exatamente o que
era dito. O som chegava fragmentado, como se estivesse submersa.
Juan se mantinha próximo, atento. As
outras crianças haviam sido afastadas por Sabrina, que agora tentava controlar
o caos instalado.
John ainda não tinha se movido, mas
observava.
Taylor deu um passo para trás. Depois
outro. Ninguém a impediu. Ninguém a chamou.
Era como se, naquele instante, ela já
não fizesse mais parte daquela casa.
Virou-se.
Caminhou pelo jardim com passos firmes
demais para alguém que, por dentro, desmoronava em silêncio. O som da água
atrás de si parecia mais alto agora, quase insistente — como se a lembrasse, a
cada segundo, do que tinha escolhido não fazer.
Abriu a porta lateral.
O interior da casa parecia frio em
comparação com o calor sufocante do lado de fora. Os corredores estavam
silenciosos, organizados, intactos — como se nada tivesse acontecido ali
dentro.
Mas tinha e ela sabia.
Passou pela sala de estar sem olhar
para os lados. Não queria ver os retratos. Não queria ver nada que a conectasse
àquele lugar naquele momento.
Pegou sua bolsa. Caminhou até a porta
principal.
Abriu.
O ar externo a atingiu com força, mas
não trouxe alívio.
Apenas espaço.
Estava prestes a atravessar o portão
quando a voz veio.
— Apareça aqui amanhã cedo. Precisamos
conversar.
Taylor parou. Não virou imediatamente,
mas reconheceu o tom antes mesmo de registrar as palavras.
John.
Virou-se devagar.
Ele estava parado a alguns metros de
distância, parcialmente à sombra da varanda. O rosto neutro demais para ser
lido com facilidade. Não havia raiva explícita. Nem urgência. Apenas controle e
algo mais fundo.
Algo que ela já começava a reconhecer…
mesmo sem nomear.
Taylor assentiu uma única vez.
Virou-se novamente e saiu. Dessa vez,
sem olhar para trás.
O portão se fechou atrás dela com um
som seco.
E, pela primeira vez desde que tudo
começara, Taylor não pensou no plano.
Pensou apenas no instante em que não
se moveu e no olhar de Rachel.
Porque vingança, até então, sempre foi
ideia, mas aquilo... aquilo tinha sido real.
[CONTINUA]

Nenhum comentário:
Postar um comentário