dancing with the devil | 10° Capítulo.

Taylor acordou antes do despertador.

O corpo inteiro reagiu primeiro em um sobressalto seco, o ar preso no peito, os dedos agarrando o lençol como se ainda estivesse segurando alguma coisa… ou alguém.

Demorou alguns segundos para perceber onde estava.

Seu quarto, silêncio e escuro, mas a cena ainda estava ali.

Rachel afundando gritando seu nome:  “— Taylor!”

O som ecoava com uma nitidez cruel.

Taylor levou a mão ao rosto, respirando com dificuldade. O coração disparado, a garganta seca. Fechou os olhos com força, como se pudesse empurrar aquilo para longe, mas não adiantava porque, dessa vez, não era memória antiga.

Era recente e foi uma escolha. Eu não me movi.

E junto com ela, outra: “Apareça aqui amanhã cedo. Precisamos conversar.”

Não havia como fugir.

Vestiu-se com mais cuidado do que o necessário. Cada gesto medido, cada detalhe pensado como se pudesse, de alguma forma, compensar o que não tinha feito.

No caminho até a mansão, ensaiou as palavras, mas nenhuma parecia suficiente. Nenhuma era verdade completa.

A casa Mayer estava em silêncio. Não o silêncio confortável — o outro. Pesado.

Taylor foi recebida por Sabrina, que apenas a olhou por um segundo a mais do que o normal, sem dizer nada. Aquilo já dizia o suficiente.

— Eles estão no escritório. — murmurou.

Taylor assentiu.

Cada passo até lá parecia mais alto do que deveria. Parou diante da porta. Respirou fundo.

Bateu.

— Entre.

Taylor abriu.

Os dois estavam lá.

Katheryn de pé, postura rígida, braços cruzados. John mais ao fundo, encostado na mesa, expressão neutra demais.

— Então você resolveu aparecer... — disse Katheryn, sem rodeios.

Taylor manteve a postura.

— Eu precisava...

— Precisava? — interrompeu. — Minha filha poderia ter morrido.

Silêncio.

Taylor engoliu seco.

— Eu sei.

— Não, você não sabe. — Katheryn deu um passo à frente. — Porque se soubesse, teria feito alguma coisa.

— Katheryn. — John interveio, calmo.

Ela virou o rosto, irritada.

— Não. Eu não vou tratar isso como um erro pequeno. Eu vi. Eu ouvi. Rachel chamou por ela.

O peso daquilo caiu novamente sobre Taylor.

— Eu quero ouvir — disse John, agora olhando diretamente para Taylor.

A voz dele não era alta, mas era firme.

— Quero entender.

Katheryn soltou uma risada breve, sem humor.

— Entender o quê? Está claro.

— Não para mim. — ele respondeu, simples.

E então voltou-se totalmente para Taylor.

— Fale.

O espaço pareceu se estreitar. Taylor sentiu as mãos suarem, o coração acelerou de novo. Ela sabia que estava sendo observada.

— Eu… — começou, a voz falhando — eu... eu não sei nadar.

O silêncio veio imediato.

Ela continuou, agora mais rápido, atropelando as próprias palavras:

— Eu congelei. Eu entrei em pânico. Eu… eu não sabia o que fazer.

Era mentira, mas o tremor na voz… não.

— Eu tive medo — completou, mais baixo.

Katheryn a encarava com incredulidade.

— Medo? — repetiu.

John não desviou o olhar.

Por um segundo longo demais, Taylor sentiu que ele estava tentando enxergar além daquilo e isso a assustou.

Mas então ele assentiu devagar.

— Faz sentido... — disse.

Katheryn virou-se para ele, chocada.

— Não, não faz!

— Faz, sim. — ele respondeu, ainda calmo. — As câmeras mostram que ela não se moveu. Isso não é omissão consciente… é bloqueio.

Taylor sentiu o ar voltar aos pulmões.

— Ela não pulou porque não sabe nadar — continuou ele. — Simples.

Katheryn passou a mão pelo rosto, frustrada.

— Isso não muda o que aconteceu.

— Não, não muda... — John concordou. — mas muda como lidamos com isso.

Ele se aproximou de Taylor devagar, não tinha pressa. E aquilo, por algum motivo, fez o corpo dela enrijecer.

Parou perto demais.

— Você devia ter pedido ajuda — disse, mais baixo agora. — Gritado. Reagido de alguma forma.

Taylor assentiu rapidamente.

— Eu sei.

— Mas entrou em pânico.

Ela assentiu de novo.

E então, ele a puxou. O gesto foi súbito, mas firme.

Um abraço.

Taylor travou por um segundo.

O corpo não respondeu imediatamente, mas então… cedeu.

Cedeu porque estava cansada e abalada. Porque, naquele momento, precisava se apoiar em alguma coisa, mesmo que fosse errado.

Sentiu a mão dele nas suas costas, pressionando levemente, controlando o tempo do contato.

— Está tudo bem — murmurou ele. — Vamos resolver isso.

Taylor fechou os olhos por um segundo.

Não estava tudo bem, mas não se afastou.

— Taylor?

A voz de Rachel.

Ela estava na porta. Pálida, com os olhos ainda marcados.

Taylor se afastou imediatamente de John e seu olhar foi direto para a pequena. Houve um silêncio, um daqueles que pesa mais do que qualquer discussão.

— Você… vai embora? — Rachel perguntou, baixo.

Taylor sentiu algo apertar dentro do peito.

Rachel olhou para os pais. Depois voltou para Taylor.

— Eu não quero que você vá.

Katheryn fechou os olhos por um segundo.

— Rachel— começou.

— Eu escorreguei — a menina disse rápido. — Foi sem querer. Ela… ela ficou com medo.

Taylor sentiu o impacto daquelas palavras. Rachel estava… defendendo-a depois de tudo.

— Eu ainda a quero! — completou.

O silêncio que se seguiu foi diferente. Mais tenso.

Katheryn respirou fundo, olhou para John. E ali, naquele olhar, havia concessão, não aceitação. Uma derrota momentânea.

— Isso não significa que está resolvido — disse, firme. — Nada está resolvido.

— Não precisa estar. — John respondeu.

Ele se afastou, retomando a postura.

— Precisamos garantir que não aconteça de novo.

Katheryn cruzou os braços.

— E como pretende fazer isso?

John olhou para Taylor.

— Corrigindo a falha.

Uma pausa.

— A partir de hoje, Rachel e Taylor terão aulas de natação. Já ajustei na agenda.

— Claro que ajustou — Katheryn respondeu, sem olhar para ele.

Taylor percebeu.

Aquilo não era sobre natação, era sobre controle.

E, mais uma vez, John havia assumido o comando sem pedir consenso.

Rachel, alheia à tensão completa, apertou a mão de Taylor com mais força.

— Não é opcional — ele interrompeu, ainda calmo. — É segurança. Para Rachel… — fez uma pausa breve — e para você também.

O olhar dele demorou um segundo a mais do que deveria.

— Já cuidei de tudo. E tudo dará certo.

Taylor sentiu um frio subir pela espinha. Algo naquela frase não era apenas sobre natação, mas assentiu porque, naquele momento, dizer não… não parecia possível.

Rachel sorriu como se nada tivesse quebrado. mas Taylor sabia que, agora, estava entrando em águas muito mais profundas do que havia planejado.

Naquela noite, Katheryn a chamou antes de ir embora.

Sozinha. Sem John.

— Eu espero que você entenda a posição em que está... — disse, encostada na mesa, o tom baixo, controlado.

Taylor permaneceu em pé.

— Entendo.

— Não, você entende parcialmente — corrigiu. — Minha filha confia em você. Isso é o único motivo de você ainda estar aqui.

A frase veio limpa. Sem rodeios.

— Eu não posso estar presente o tempo todo — continuou. — E preciso de alguém que preencha esse espaço. Não alguém que… congele quando é necessário agir.

Taylor sentiu o golpe, mas não reagiu.

— Essas aulas... — Katheryn suspirou — não são uma solução.

Ela se aproximou um pouco.

— Pelo menos, não é uma solução para mim. É apenas uma solução de John para te manter aqui! —aproximou-se ainda mais. — E eu quero deixar muito claro que não sou substituível. Fique longe de John, é meu conselho a você, Taylor.

— Não...

— Não me faça me arrepender.

Taylor assentiu.

— Não vou.

Mas, pela primeira vez desde que tudo começou, não tinha tanta certeza.

Taylor não respondeu de imediato quando saiu do escritório naquela manhã, porque algo dentro dela ainda estava preso no momento exato em que dissera “eu não sei nadar”, como se aquela frase tivesse aberto uma fissura que não poderia mais ser fechada, e mesmo caminhando pelo corredor da casa Mayer, com os passos silenciosos e calculados como sempre, sentia o corpo pesado demais, como se ainda estivesse à beira da piscina, como se ainda pudesse ouvir a água se fechando sobre Rachel e o próprio nome sendo gritado com desespero, e isso a acompanhou até o instante em que precisou retomar a rotina, porque ali dentro nada parava, nada esperava, a vida daquela família continuava com uma precisão quase cruel, como se incidentes fossem apenas desvios que precisavam ser corrigidos rapidamente, nunca realmente enfrentados.

Rachel não desgrudou dela naquele dia, e isso foi ao mesmo tempo um alívio e um castigo, porque a menina a segurava pela mão com uma confiança que já não deveria existir, puxava-a para perto, contava pequenas coisas irrelevantes sobre a escola, sobre as amigas, sobre o que queria fazer no fim de semana, como se nada tivesse acontecido, como se o momento em que afundava na água e pedia ajuda não tivesse sido interrompido por um silêncio imperdoável, e Taylor respondia, sorria, inclinava-se para escutar, desempenhava o papel com perfeição, mas havia algo diferente agora, uma tensão interna que não existia antes, uma consciência constante de que estava sendo observada, não apenas por John, mas pela própria Rachel, que às vezes a encarava por um segundo a mais, como se tentasse confirmar que ela ainda estava ali, que ainda podia confiar.

John, por outro lado, não precisou dizer muito para deixar claro que nada ali havia sido esquecido, porque sua presença se tornou mais constante, mais próxima, mais silenciosamente invasiva, surgindo nos ambientes sem aviso, permanecendo por tempo demais em portas entreabertas, observando interações que antes ignoraria, e quando falava com Taylor, havia sempre um tom novo, algo entre cuidado e posse, como se a decisão de mantê-la ali tivesse vindo acompanhada de um direito que ele começava a exercer aos poucos, sem pressa, sem levantar suspeitas, apenas com pequenos gestos que, isolados, poderiam ser interpretados como preocupação, mas juntos formavam um padrão impossível de ignorar.

Foi no final da tarde que ele a chamou novamente, dessa vez no corredor, longe de Katheryn e longe de qualquer testemunha direta, e o modo como pronunciou seu nome fez com que ela parasse imediatamente, mesmo antes de decidir se queria ou não obedecer, porque havia algo na voz dele que não dava espaço para escolha.

— Quero que você encare isso como uma segunda chance — disse, aproximando-se o suficiente para reduzir o espaço entre eles a algo desconfortável, mas não explícito o bastante para ser contestado.

Taylor manteve o olhar firme, mesmo sentindo o corpo reagir com rigidez.

— Eu entendo — respondeu.

— Não… — ele corrigiu, inclinando levemente a cabeça, observando-a com atenção — você ainda não entende completamente.

O silêncio que se seguiu não era vazio, era carregado, e Taylor percebeu que ele esperava algo mais, alguma reação, alguma abertura que pudesse explorar, mas ela permaneceu imóvel, e isso pareceu agradá-lo de alguma forma, porque um leve sorriso surgiu, controlado, calculado.

— Eu vou garantir que você nunca mais se sinta… incapaz — continuou ele, a voz mais baixa — e isso inclui te preparar.

A palavra ficou no ar por um instante.

Preparar.

Não era apenas sobre nadar.

— As aulas começam essa semana — acrescentou, como se estivesse encerrando um assunto prático — e eu quero que você leve isso a sério.

Ela assentiu.

— Vou levar.

Ele não se afastou imediatamente, e naquele pequeno intervalo, estendeu a mão, tocando de leve o braço dela, um gesto rápido, mas firme o suficiente para marcar presença, e Taylor sentiu o impacto disso muito depois do contato ter cessado, porque não havia sido um toque casual, havia intenção ali, havia teste, havia um limite sendo medido.

Quando ele finalmente se afastou, foi como se o ar voltasse ao corredor, mas não trouxe alívio.

Mais tarde, enquanto organizava a mochila de Rachel para o dia seguinte, Taylor ouviu a discussão abafada vindo do outro lado do corredor, a porta do quarto do casal parcialmente fechada, e mesmo sem querer, parou por um segundo, porque o tom de Katheryn não era o de antes, não era apenas frustração, era algo mais incisivo, mais direto.

— Você não precisava decidir isso sozinho — disse ela, a voz baixa, mas firme.

— Eu já expliquei o porquê — respondeu John, igualmente controlado.

— Não, você justificou — corrigiu — não é a mesma coisa.

Houve uma pausa, breve demais.

— Ela fica — continuou ele — por causa da Rachel.

— Ou por sua causa? — Katheryn rebateu, sem elevar o tom, o que tornava a pergunta ainda mais pesada.

O silêncio que se seguiu foi suficiente para dizer mais do que qualquer resposta.

Taylor se afastou antes de ouvir o restante, porque não precisava, porque já havia entendido o suficiente para saber que aquilo não era apenas um conflito sobre uma funcionária, era algo que começava a se infiltrar na dinâmica da casa, silencioso, mas inevitável.

Naquela noite, quando finalmente voltou para casa, o corpo parecia exausto de uma forma que não vinha apenas do trabalho, mas da constante vigilância, da necessidade de manter cada expressão sob controle, cada palavra calculada, cada reação medida, e ainda assim, ao deitar-se, o sono não veio com facilidade, porque a mente insistia em voltar à água, ao som da voz de Rachel, ao instante em que decidiu não se mover, e agora, somava-se a isso outra coisa, mais recente, mais perigosa.

John não havia apenas decidido mantê-la.

Ele havia decidido cuidar dela.

E Taylor sabia, com uma clareza incômoda, que aquilo não significava proteção. Era controle e, de alguma forma, ela havia acabado de aceitar isso.

[CONTINUA]

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