dancing with the devil | 11° Capítulo.

Os dias seguintes se acomodaram em uma normalidade cuidadosamente reconstruída, como se a casa Mayer tivesse decidido, em comum acordo silencioso, apagar o que acontecera à beira da piscina e seguir adiante com ainda mais rigor do que antes, e Taylor percebeu isso nos detalhes: os horários retomados com precisão quase mecânica, no tom de voz de Katheryn voltando ao controle habitual, nas orientações dadas com clareza, sem espaço para improvisos, como se qualquer falha pudesse novamente abrir uma fissura que ninguém ali queria encarar. Ainda assim, havia algo que não voltara ao lugar, algo que se movia por baixo dessa rotina organizada, e Taylor sentia isso principalmente em Rachel, que se tornou ainda mais dependente, como se precisasse reafirmar constantemente que a ligação entre elas continuava intacta, como se ignorar o momento em que quase morreu fosse a única forma de não perder o laço.

Rachel passou a procurá-la para tudo, desde as tarefas mais simples até as conversas mais banais, encostando-se ao seu lado no sofá, segurando sua mão sem perceber, pedindo sua opinião sobre roupas, amigos, atividades, e Taylor respondia, presente, atenta, mas com uma camada nova de cuidado, porque agora cada gesto carregava peso, cada escolha parecia maior do que antes, e havia momentos em que, ao olhar para a menina, uma culpa silenciosa surgia sem aviso, lembrando-a de que aquela confiança não era mais limpa, não era mais leve, e ainda assim, ela não se afastava porque parte do plano exigia proximidade, e outra parte, mais incômoda, já não sabia mais distinguir onde terminava o plano e começava algo real.

John manteve-se em uma presença constante, porém diferente, menos direto do que nos dias anteriores ao incidente, como se tivesse entendido que a aproximação precisava ser gradual, e isso se revelava em pequenos momentos, em comentários aparentemente neutros sobre o dia de Rachel, em perguntas dirigidas a Taylor que poderiam ser interpretadas como interesse pelo trabalho, em olhares que duravam um segundo a mais do que o necessário, sempre observando, e às vezes, quando passava por ela em corredores estreitos, o toque inevitável de um ombro contra o outro ou a mão que se apoiava brevemente em suas costas parecia acidental demais para ser questionado, mas preciso demais para ser ignorado.

Katheryn, por outro lado, não voltou a confrontá-la diretamente após aquela conversa, mas a distância entre elas ganhou outra qualidade, menos emocional e mais calculada, como se estivesse avaliando cada movimento de Taylor com frieza, esperando por um novo erro ou talvez por algo que confirmasse o que já suspeitava, e ainda assim, continuava permitindo que ela ocupasse o espaço dentro de casa, porque precisava, porque a filha insistia, porque o marido forçava, e isso criava um equilíbrio instável dentro da casa, onde ninguém dizia tudo o que pensava, mas todos sabiam mais do que demonstravam.

Foi nesse cenário que a semana avançou, lenta e ao mesmo tempo carregada, até que o dia da primeira aula de natação chegou quase como um marco inevitável, algo que vinha sendo adiado pela mente de Taylor, mas que agora se tornava concreto demais para ignorar.

Naquela manhã, ela acordou antes do despertador novamente, não por causa de pesadelos dessa vez, mas por uma inquietação diferente, mais contida, e enquanto se arrumava, percebeu que seus movimentos estavam mais rígidos do que o normal, como se o corpo antecipasse algo que a mente ainda não organizara completamente, porque a ideia de entrar na água, mesmo sob a desculpa construída, trazia de volta não apenas o incidente, mas também o risco de ser observada de perto demais, de não conseguir sustentar a mentira que agora fazia parte da sua permanência ali.

Rachel, ao contrário, estava animada, falando sem parar durante o trajeto, descrevendo como imaginava que seriam as aulas, perguntando se Taylor também estava nervosa, rindo de si mesma ao admitir que talvez estivesse um pouco, mas que seria divertido aprender juntas, e havia algo genuíno nessa empolgação que tornava tudo mais difícil, porque Taylor precisava corresponder, precisava manter a narrativa, precisava ser exatamente o que Rachel acreditava que ela.

O centro aquático não ficava longe, um espaço amplo, moderno, com grandes janelas de vidro que deixavam a luz entrar de forma quase excessiva, refletindo na superfície da água com um brilho constante que incomodava os olhos por alguns segundos até que se acostumassem, e foi ali, ao atravessar aquele ambiente pela primeira vez, que Taylor o viu.

Travis estava dentro da piscina, conversando com outro aluno quando elas chegaram, e mesmo à distância, sua presença chamava atenção de uma forma imediata, não apenas pela altura ou pela estrutura física evidente, mas pela forma como ocupava o espaço com naturalidade, como se tudo ao redor se ajustasse ao seu ritmo, e quando ele se virou na direção delas, o impacto foi inevitável, porque havia algo no contraste entre o corpo forte, atlético, e a expressão aberta, quase fácil demais, que tornava impossível não reparar.

Taylor percebeu antes mesmo de querer perceber – e isso a irritou, não o suficiente para desviar o olhar imediatamente, mas a irritou.

Rachel puxou sua mão, animada, conduzindo-a até a borda da piscina, onde Travis já saía da água, os movimentos firmes, seguros, a água escorrendo pelo corpo enquanto pegava uma toalha sem pressa, e quando se aproximou delas, o sorriso veio fácil, direcionado primeiro à criança.

— Você deve ser a Rachel — disse, em um tom leve, natural.

— Sou! — respondeu ela, animada demais — e essa é a Taylor.

O olhar dele se deslocou então para Taylor, e por um segundo breve demais para ser chamado de pausa, mas longo o suficiente para ser sentido, ele a avaliou, não de forma invasiva, mas atenta, como quem registra mais do que o necessário.

— Prazer — disse ele.

— Prazer — respondeu Taylor, mantendo a postura controlada.

— Seu pai já me contou um pouco sobre você... — continuou ele, ainda com o tom casual — e sobre o incidente também. Então, vamos começar bem básico, sem pressa.

Taylor sentiu algo se ajustar dentro de si ao ouvir aquilo. John já havia falado com ele.

Claro que havia.

Entraram na água com cautela, Rachel primeiro, rindo ao sentir o contato frio, Taylor logo depois, mais contida, mantendo cada movimento sob controle, consciente de cada detalhe, da respiração, da postura, da forma como o corpo reagia, porque ali não havia espaço para erros, não naquele ambiente, não sob aquele olhar que ela já começava a perceber que não era tão desatento quanto parecia.

Travis conduziu os primeiros exercícios com simplicidade, focando em respiração, em flutuação, em movimentos básicos, usando boias, orientando Rachel com paciência, incentivando suas tentativas com facilidade, enquanto com Taylor, o olhar demorava um pouco mais, as instruções vinham acompanhadas de pequenas observações, como se estivesse medindo algo que não dizia em voz alta.

Ela manteve o papel, disse que sabia pouco, que sabia pouco, mas sabia boiar. Ele aceitou.

A aula seguiu assim, entre pequenas conversas, tentativas, risos de Rachel que preenchiam o espaço com leveza, enquanto Taylor se mantinha mais fechada, respondendo apenas o necessário, evitando se expor além do que precisava, até que, ao final, quando Rachel saiu primeiro da piscina para buscar sua toalha, o espaço entre eles mudou.

Ficaram sozinhos por um instante.

Travis saiu da água, aproximando-se dela com calma, sem pressa, e foi nesse momento, tão próximo, que Taylor percebeu com mais clareza o que já havia notado antes, a forma como ele se movia, a presença física marcante, o contraste entre força e leveza, e odiou o fato de reparar nisso.

— Para quem não sabe nadar… — disse ele, pegando a toalha, o tom leve demais para parecer acusação. — você tem bastante confiança na água.

Taylor sentiu o corpo reagir antes da mente organizar a resposta.

O olhar encontrou o dele.

— Eu disse que sei o básico — respondeu, controlada.

Ele sorriu de leve, como quem não precisa insistir, mas sabia. E ela sabia que ele sabia.

E pela primeira vez desde que entrou naquela casa, desde que começou aquele plano, desde que passou a ser observada por John, algo diferente surgiu no meio de tudo aquilo. Um novo risco.

E talvez, pela primeira vez, algo que não fazia parte do controle de ninguém.

Travis não sustentou o olhar por tempo suficiente para transformar aquilo em confronto, mas também não recuou como alguém que aceitava a resposta sem questionar, e foi exatamente essa medida que fez com que Taylor sentisse algo se deslocar dentro de si, uma atenção nova, involuntária, que ela tentou sufocar no instante em que Rachel voltou correndo, interrompendo qualquer possibilidade de continuação daquela conversa silenciosa, e o momento se fechou como se nunca tivesse existido, embora permanecesse ali, latente, como uma linha que havia sido traçada e que inevitavelmente seria cruzada de novo.

— Eu consegui! — Rachel disse, animada, aproximando-se das duas com os cabelos ainda úmidos e o rosto iluminado por uma satisfação simples, pura demais para o ambiente carregado que Taylor carregava dentro de si — você viu?

— Vi! — respondeu Taylor, com um sorriso que veio mais fácil do que ela esperava, inclinando-se levemente para secar o rosto da menina com a toalha — você foi muito bem.

Travis observou a cena por um segundo, em silêncio, e havia algo na forma como ele assistia à interação das duas que não era apenas profissional, como se registrasse não só o desempenho na água, mas a dinâmica entre elas, e, de algum modo, a contradição que aquilo carregava.

— Ela aprende rápido — comentou ele, voltando ao tom leve — em poucas semanas já vai nadar sozinha.

— Eu vou mesmo! — Rachel respondeu antes de Taylor, como se não houvesse dúvida alguma nisso, e puxou a mão dela novamente.

Taylor assentiu, mas não respondeu de imediato, porque sua atenção havia se deslocado por um instante para além da piscina, para a parede de vidro que separava o ambiente interno da área externa, e foi ali que o viu.

John.

Não estava próximo o suficiente para ouvir o que era dito, nem distante o bastante para ser ignorado, posicionado de forma estratégica atrás do vidro, observando, os braços cruzados, a postura relaxada demais para ser casual, e ainda assim, havia algo rígido na forma como mantinha o olhar fixo dentro da piscina, percorrendo a cena com uma atenção que não se limitava à filha, e quando os olhos dele encontraram os dela, não houve disfarce.

— Vamos? — sugeriu, a voz controlada.

Rachel concordou, ainda animada, e começou a subir com ajuda, enquanto Travis se afastava alguns passos, dando espaço, mas não completamente alheio ao que acontecia ao redor, porque, ao erguer o olhar, também percebeu a presença de John, ainda ali, observando, e por um breve instante, os dois homens se encararam através do vidro, um reconhecimento silencioso passando entre eles, rápido demais para ser nomeado, mas claro o suficiente para não ser ignorado.

Quando Taylor saiu da área da piscina, o ar pareceu mais pesado do que antes, a sensação de estar sendo observada mais intensa, mais direta, e ela evitou olhar novamente para o vidro, concentrando-se em Rachel, em seus movimentos, em qualquer coisa que a mantivesse dentro de um território seguro, embora soubesse que aquele conceito começava a se desfazer.

A despedida foi simples, quase banal, como se a aula tivesse sido apenas mais uma atividade na rotina da menina, e não o início de algo que já começava a se complicar, e Travis limitou-se a um aceno leve, direcionado às duas, mas quando Taylor passou por ele, já fora da água, já com a distância reduzida a poucos passos, ele falou baixo, suficiente para que apenas ela ouvisse.

— A gente continua isso depois.

Não foi uma pergunta. Foi um convite disfarçado.

Taylor não respondeu, não naquele momento, porque Rachel estava ali, porque o olhar de John ainda pesava sobre suas costas mesmo sem que ela o visse diretamente, e porque qualquer reação naquele instante poderia ser interpretada de maneiras que ela não estava disposta a lidar ainda, então seguiu, mantendo o ritmo, mantendo a postura, mantendo o controle que parecia cada vez mais frágil.

Do lado de fora, John já não estava mais encostado no vidro quando elas saíram, mas não demorou para que ele surgisse, como sempre, no ponto exato em que poderia interceptar sem parecer que estava esperando, e o sorriso que ofereceu a Rachel veio primeiro, aberto, quase orgulhoso.

— Como foi?

— Eu consegui boiar sozinha! — ela respondeu imediatamente, puxando-o pela mão para explicar, gesticulando, revivendo cada segundo com entusiasmo.

— Eu vi — disse ele, o olhar alternando entre a filha e Taylor — você foi incrível.

Havia orgulho ali, real, mas quando os olhos dele pousaram novamente em Taylor, algo mais se misturou, algo que não tinha a ver com a criança.

— E você? — perguntou, como se fosse apenas continuidade da conversa.

Taylor sustentou o olhar por um segundo breve.

— Estou aprendendo.

Ele assentiu, devagar.

— Vai aprender rápido.

A frase parecia simples, mas havia algo nela, um subtexto que se estendia além da piscina, além da aula, além daquele momento, e Taylor percebeu isso, sentiu isso, mesmo sem conseguir definir completamente o porquê.

O trajeto de volta foi preenchido pela voz de Rachel, ainda animada, ainda descrevendo detalhes, enquanto Taylor respondia quando necessário, mas grande parte de sua atenção estava em outro lugar, reorganizando o que havia acontecido, ajustando novas variáveis que não estavam previstas no plano inicial.

Travis sabia. Não tudo, mas o suficiente.

Quando chegaram à casa, a rotina retomou seu curso como se nada tivesse mudado, mas Taylor sabia que havia mudado.

Algo havia começado naquele dia. E, pela primeira vez desde que entrou na vida dos Mayer, ela não tinha certeza de como controlar o próximo passo.

[CONTINUA]

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