dancing with the devil | 12° Capítulo.

A semana não começou de fato no dia seguinte à aula — começou na cabeça de Taylor, ainda dentro da água, ainda sob o olhar que atravessava o vidro, ainda com a frase de Travis ecoando baixo demais para ser esquecida e alta demais para ser ignorada, e quando acordou na manhã seguinte, não foi o incidente da piscina que veio primeiro, nem o abraço de John, nem o aviso de Katheryn, foi a forma como Travis havia dito aquilo, com leveza suficiente para parecer casual, mas com intenção suficiente para deixar claro que não era, e isso a irritou mais do que deveria, porque significava que algo havia escapado do seu controle, ainda que minimamente, ainda que apenas na superfície.

A casa Mayer retomou seu ritmo com precisão quase irritante, como se cada membro tivesse decidido, consciente ou inconscientemente, que manter a rotina intacta era a única forma de impedir que as fissuras se tornassem visíveis, e Taylor se encaixou nisso com perfeição, cumprindo horários, acompanhando Rachel em cada compromisso, revisando tarefas, organizando a agenda com um cuidado quase obsessivo, porque agora não se tratava apenas de permanecer ali, mas de recuperar completamente a confiança de Katheryn e, ao mesmo tempo, manter-se dentro de um território seguro diante de John, que não havia recuado, apenas mudado a forma de se aproximar.

Ele passou a surgir em momentos mais específicos, menos frequentes, porém mais calculados, e havia sempre algo nos gestos dele que parecia casual demais para ser confrontado diretamente, mas consistente demais para ser coincidência, uma mão que se apoiava brevemente em seu ombro ao passar por trás dela enquanto explicava algo a Rachel, um elogio direcionado à forma como ela organizava a rotina da filha, sempre seguido de um olhar que demorava um segundo além do necessário, como se avaliasse mais do que o trabalho, e Taylor respondia com a mesma precisão, sem se afastar de forma brusca, sem dar espaço para interpretações, mantendo-se exatamente no limite entre a educação e a distância, porque sabia que qualquer reação mais evidente poderia ser usada contra ela.

Katheryn, por outro lado, tornou-se mais silenciosa em relação a Taylor, mas não menos presente, e havia algo no modo como observava, como fazia pequenas correções na rotina, como perguntava detalhes aparentemente irrelevantes sobre o dia de Rachel, que denunciava uma vigilância diferente, menos emocional e mais estratégica, e Taylor percebeu que, se quisesse continuar ali, precisaria ser ainda mais cuidadosa, ainda mais precisa, ainda mais invisível.

Foi nesse espaço de tensão controlada que ela encontrou a brecha para voltar ao que realmente importava.

A investigação.

Na quarta-feira à tarde, enquanto Rachel estava em uma atividade extracurricular e a casa permanecia mais vazia do que o habitual, Taylor voltou à sala principal com a desculpa de reorganizar alguns objetos que haviam sido deslocados por Sabrina, mas seu foco estava nos quadros alinhados na parede próxima à lareira, nas fotografias que já havia analisado superficialmente nos primeiros dias, mas que agora exigiam um olhar mais atento, mais minucioso, e desta vez, não se limitou a observar, pegou o celular, discretamente, e começou a fotografar cada uma das imagens, ajustando ângulos, aproximando, capturando rostos, nomes escritos em pequenas placas, qualquer detalhe que pudesse servir de ponto de partida.

Fez isso rápido, mas com cuidado suficiente para não deixar rastros, e quando terminou, voltou à rotina como se nada tivesse acontecido, embora o coração estivesse acelerado de uma forma diferente, mais próxima da excitação do que do medo, porque aquilo, finalmente, parecia um avanço.

Naquela noite, já em casa, sentou-se na cama com o celular nas mãos, percorrendo cada uma das imagens, ampliando rostos, tentando reconhecer traços, memórias fragmentadas que insistiam em não se organizar completamente, até que um nome chamou sua atenção de forma quase involuntária.

Emily Dallas.

Não era apenas um nome, era uma lembrança – difusa, incompleta, mas presente o suficiente para causar desconforto.

Taylor franziu o cenho, aproximando a imagem, tentando encaixar aquele rosto em algo que sua mente se recusava a organizar de imediato, e então abriu as redes sociais, digitando o nome com cuidado, como se aquilo, por si só, já fosse um risco.

Não demorou muito.

Perfis apareceram. Alguns descartáveis, outros possíveis.

E então um.

A idade batia. A cidade também.

A foto de perfil mostrava uma mulher mais velha, mas havia algo ali, nos olhos, na estrutura do rosto, que parecia familiar demais para ser coincidência.

Taylor hesitou por alguns segundos antes de clicar.

O perfil era parcialmente aberto. Fotos antigas, algumas mais recentes. E ali, em meio a imagens comuns, viagens, amigos, registros banais de uma vida aparentemente normal, havia um vídeo curto. Balé.

O corpo de Taylor reagiu antes mesmo que ela percebesse.

Deu play. A imagem era tremida, antiga, provavelmente um registro amador de uma apresentação, mas o suficiente para mostrar um grupo de meninas no palco, alinhadas, executando movimentos com precisão, e mesmo sem conseguir identificar claramente cada rosto, algo dentro dela apertou, porque aquele ambiente, aquela dinâmica, aquele tipo de apresentação… era familiar demais.

Respirou fundo.

E então voltou para o perfil. Havia uma opção de mensagem. O dedo pairou sobre a tela por um tempo maior do que o normal. O que dizer? Como começar? E, principalmente, até onde aquilo poderia ir?

Taylor permaneceu alguns segundos olhando para a tela, o nome ainda aberto diante de si, o cursor piscando na caixa de mensagem como se a pressionasse a tomar uma decisão que não tinha certeza de estar pronta para assumir, e foi nesse instante que a voz de Sabrina surgiu atrás dela, quebrando o silêncio de forma leve, mas suficiente para fazê-la travar o celular contra o corpo quase por reflexo.

— Está tudo bem?

Taylor virou o rosto rapidamente, recompondo a expressão com um cuidado automático, enquanto Sabrina apoiava o ombro no batente da porta, os olhos atentos, mas sem a curiosidade invasiva de antes, havia algo diferente ali, mais contido, quase cauteloso, como se o incidente da piscina tivesse reorganizado não só a dinâmica da casa, mas também a forma como todos se aproximavam uns dos outros.

— Estou — respondeu Taylor, guardando o celular com naturalidade calculada. — Só organizando algumas coisas.

Sabrina assentiu devagar, caminhando alguns passos para dentro do cômodo, passando os dedos pela superfície de um móvel que já estava limpo demais para precisar de atenção, claramente procurando uma forma de permanecer ali sem parecer invasiva demais.

— Rachel está mais tranquila hoje... — comentou, em tom neutro. — Katheryn também, depois daquilo.

Taylor sentiu o peso daquilo, ainda que sutil. Aquilo doeu mais do que qualquer acusação direta poderia doer.

Taylor assentiu, sem saber exatamente o que responder, e por alguns segundos o silêncio entre as duas pareceu mais confortável do que tinha sido nos últimos dias, como se ambas estivessem tentando reconstruir uma normalidade que ainda não se sustentava completamente.

— E você? — Sabrina perguntou, dessa vez olhando diretamente para ela. — Está mesmo bem?

A pergunta não era superficial e por um instante, considerou responder com algo mais honesto, mas o hábito falou mais alto.

— Estou — repetiu, mais firme. — Aquele foi só… um dia ruim.

Sabrina a observou por um segundo a mais, como se avaliasse aquela resposta, mas não insistiu.

— Se precisar de alguma coisa… — disse, já se virando para sair — você sabe onde me encontrar.

Taylor assentiu.

— Eu sei.

Quando Sabrina saiu, o silêncio voltou, mas não da mesma forma, agora havia uma sensação estranha de que, mesmo sem dizer diretamente, a casa inteira estava ciente de que algo havia mudado, e que ninguém ainda sabia exatamente como lidar com isso.

A noite caiu dentro da rotina previsível que já havia se reinstalado, e Taylor cumpriu cada tarefa de maneira quase mecânica, porque manter tudo funcionando era, naquele momento, a única forma de manter a si mesma no controle.

Mas, por trás disso, a mente não parava.

Emily Dallas.

O nome voltava com insistência. O rosto. O vídeo. A sensação incômoda de reconhecimento incompleto.

Quando finalmente deixou a mansão, o ar do lado de fora pareceu mais leve, mas não o suficiente para dissipar o peso que carregava, e o caminho até sua casa foi tomado por pensamentos que se sobrepunham, possibilidades, riscos, perguntas que não tinham respostas claras, e, ainda assim, uma intuição insistente que dizia que aquilo não era coincidência.

Era um ponto de partida. Um tiro no escuro, talvez, mas era alguma coisa.

Ao chegar em casa, o silêncio a recebeu de forma quase acolhedora, e ela não demorou a se sentar novamente na cama, o celular já em mãos antes mesmo de tirar os sapatos, abrindo o perfil mais uma vez, como se precisasse confirmar que aquilo ainda estava ali, que não havia sido apenas uma impressão.

A caixa de mensagem continuava aberta. O cursor piscava.

Dessa vez, ela não hesitou tanto.

Digitou. Apagou. Digitou novamente.

Ajustou as palavras, buscando algo que não fosse invasivo demais, mas que também não soasse vazio, algo que permitisse uma resposta sem levantar suspeitas imediatas.

“Oi, Emily. Sei que isso pode soar estranho, mas acredito que tivemos algo em comum no passado, relacionado ao balé. O nome John Mayer diz alguma coisa para você? Gostaria de conversar, se você se sentir confortável.”

Simples. Direto o suficiente.

Ela releu uma vez. Duas. E então enviou. O envio foi imediato. A resposta, não.

Taylor soltou o ar devagar, deixando o celular ao lado do corpo, olhando para o teto por alguns segundos, sentindo o cansaço finalmente se instalar, mas também uma tensão diferente, mais silenciosa, mais profunda, como se tivesse acabado de abrir uma porta que não sabia exatamente para onde levava.

E foi então que o celular vibrou.

Ela virou o rosto rapidamente, o coração acelerando por um segundo, esperando ver uma resposta de Emily, mas o número desconhecido a fez tremer.

Ela hesitou. Um segundo. Dois. Então atendeu.

— Oi… — a voz saiu mais baixa do que pretendia.

Do outro lado, a resposta veio leve, quase sorrindo.

— Espero não estar atrapalhando.

A voz era despojada, havia um sorriso.

Travis.

— Não… — respondeu ela, ajeitando-se na cama, tentando ignorar o leve nervosismo que surgiu sem aviso. — Está tudo bem.

— Só pensei em saber se você sobreviveu à semana — disse ele, com um tom leve, mas atento. — Depois da nossa aula… você sumiu.

Taylor soltou um pequeno suspiro, quase um riso contido.

— Eu trabalho bastante.

— Eu imaginei. — respondeu ele. — Mas ainda assim… desapareceu rápido demais para alguém que disse que só sabia boiar.

Ela ficou em silêncio por um segundo, sentindo o subtexto ali, mas ele não pressionou.

— Relaxa — continuou ele, mais suave. — Não estou ligando pra te interrogar.

E então, uma pequena pausa.

— Na verdade… estou ligando pra te convidar.

Taylor franziu levemente o cenho, mesmo sabendo o que viria.

— Convidar?

— É — respondeu ele, simples. — Um café, um drink, qualquer coisa...

O coração dela acelerou, dessa vez de um jeito diferente.

— Travis…

— Sem pressão — interrompeu ele, com naturalidade. — Mas eu fiquei com a sensação de que… — hesitou brevemente, escolhendo as palavras — que temos o que conversar.

Silêncio.

— E quem sabe — completou, mais baixo — longe dali… você queira me contar o que realmente aconteceu.

A frase ficou no ar, mas carregada de intenção.

Taylor fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso de tudo se cruzando naquele momento, John, a casa, Rachel, Emily… e agora aquilo.

Um convite. Um risco.

Quando abriu os olhos novamente, ainda não tinha uma resposta.

— Você já sabe o que aconteceu. — afirmou. — John contou tudo sobre o incidente.

— Mas eu não quero saber de John, quero saber de você...

Taylor não respondeu de imediato, e o silêncio do outro lado da linha não foi interrompido por Travis, o que, de certa forma, a desarmou mais do que qualquer insistência faria, porque ele não pressionava, não preenchia o espaço com palavras desnecessárias, apenas esperava, como se já soubesse que ela estava calculando cada possibilidade antes de dizer qualquer coisa, e isso a fez respirar fundo, passando a mão pelo rosto, tentando organizar pensamentos que já não estavam tão organizados quanto ela gostaria.

— Eu… — começou, mas parou, porque qualquer resposta parecia carregar mais peso do que deveria.

Ele soltou um leve riso do outro lado, baixo, sem ironia.

— Você sempre pensa assim antes de responder tudo? — perguntou, com um tom quase curioso.

— Nem sempre — ela respondeu, recuperando um pouco do controle. — Só quando não sei qual é a resposta certa.

— Talvez não tenha uma resposta certa — ele devolveu, simples. — Só uma honesta.

Aquilo a atingiu de um jeito inesperado.

Taylor apoiou a cabeça na parede atrás da cama, os olhos fixos em um ponto qualquer do teto, sentindo o cansaço do dia misturado com aquela sensação nova que Travis trazia, algo menos pesado, menos calculado… e, justamente por isso, mais perigoso.

— Eu não sou muito boa com coisas fora de… rotina — disse por fim, escolhendo as palavras com cuidado.

— Eu percebi — ele respondeu, sem julgamento. — Mas rotina também pode ser uma forma de se esconder.

Ela fechou os olhos por um segundo.

— Você sempre fala assim com todo mundo?

— Não — ele respondeu, sem hesitar. — Só quando vale a pena.

O silêncio voltou, mas dessa vez não era desconfortável, era carregado de algo que ela não queria nomear ainda, porque dar nome tornava real demais.

— Que tipo de convite é esse? — perguntou ela, desviando um pouco.

— Um simples — disse ele. — Um lugar tranquilo, sem plateia, sem… — fez uma pausa breve — interferência externa.

Taylor entendeu exatamente o que ele quis dizer.

John.

A presença dele parecia atravessar até mesmo aquela conversa, mesmo sem estar ali, e isso a fez franzir levemente o cenho.

— Você sabe que ele vai perguntar — disse ela, mais baixa.

— Já pergunta — Travis respondeu, direto. — Sobre você, sobre como você está na água, sobre seu comportamento… coisas demais pra alguém que só quer garantir que a filha esteja segura.

Taylor sentiu o estômago revirar levemente.

— E você responde?

Houve uma pausa curta.

— O suficiente pra não levantar suspeita — disse ele. — Mas não o suficiente pra entregar você.

Ela abriu os olhos, encarando o teto com mais atenção agora.

— Por quê?

A resposta não veio de imediato, e quando veio, foi mais simples do que ela esperava.

— Porque eu não trabalho para ele. — disse Travis. — E porque… — hesitou, mas não recuou — eu gosto de você.

O coração dela falhou um compasso.

Simples assim.

Aquilo a desestabilizou mais do que qualquer aproximação calculada de John jamais conseguiu.

— Você mal me conhece — disse ela, quase como defesa.

— Conheço o suficiente — ele respondeu. — E o resto… eu posso descobrir se você deixar.

Taylor soltou um ar leve, quase um riso sem humor.

— Isso não é uma boa ideia.

— Provavelmente não — ele concordou, surpreendendo-a. — Mas nem tudo que não é uma boa ideia precisa ser evitado.

Ela permaneceu em silêncio, sentindo o peso daquela escolha se formar diante dela, não como uma decisão simples, mas como um desvio real do caminho que vinha seguindo com tanto controle até ali.

Porque aquilo não fazia parte do plano.

— Quando? — perguntou ela, antes mesmo de decidir se deveria.

Do outro lado, o sorriso dele era quase audível.

— No domingo... — respondeu. — Assim ninguém estranha. E você já vai estar… confortável o suficiente para fugir de mim, se quiser.

— Fugir de você? — ela repetiu, arqueando levemente a sobrancelha, mesmo que ele não pudesse ver.

— É — disse ele, leve. — Ainda não decidi se você é do tipo que foge ou do tipo que enfrenta.

Taylor ficou em silêncio por um segundo.

— Talvez eu ainda não tenha decidido também.

— Então a gente descobre. — ele respondeu.

Mais um silêncio. Dessa vez mais curto.

— Eu te mando o lugar — disse ele. — E você decide se aparece.

Ela assentiu, mesmo sabendo que ele não veria.

— Tá.

— Tá? — ele repetiu, com um leve riso.

— Tá — confirmou ela, mais firme.

— Boa noite, Taylor.

— Boa noite, Travis.

A ligação terminou.

O quarto voltou ao silêncio, mas não ao mesmo silêncio de antes, havia algo diferente agora, uma tensão mais leve, mais viva, que se misturava ao peso de tudo o que ela ainda carregava, e Taylor ficou ali por alguns segundos, o celular ainda na mão, olhando para a tela apagada como se esperasse que algo mais acontecesse.

E aconteceu.

Uma nova vibração. Dessa vez, uma notificação. Ela abriu. Não era Travis. Era uma resposta.

Emily Dallas.

O coração acelerou imediatamente, de uma forma completamente diferente da anterior, mais densa, mais urgente, e por um instante, Taylor apenas olhou para a mensagem sem abrir, como se aquele pequeno gesto fosse definir o rumo de tudo a partir dali.

Respirou fundo.

E tocou na tela.

“Quem é você?”

[CONTINUA]

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