A semana não começou de fato no dia
seguinte à aula — começou na cabeça de Taylor, ainda dentro da água, ainda sob
o olhar que atravessava o vidro, ainda com a frase de Travis ecoando baixo
demais para ser esquecida e alta demais para ser ignorada, e quando acordou na
manhã seguinte, não foi o incidente da piscina que veio primeiro, nem o abraço
de John, nem o aviso de Katheryn, foi a forma como Travis havia dito aquilo,
com leveza suficiente para parecer casual, mas com intenção suficiente para
deixar claro que não era, e isso a irritou mais do que deveria, porque
significava que algo havia escapado do seu controle, ainda que minimamente,
ainda que apenas na superfície.
A casa Mayer retomou seu ritmo com
precisão quase irritante, como se cada membro tivesse decidido, consciente ou
inconscientemente, que manter a rotina intacta era a única forma de impedir que
as fissuras se tornassem visíveis, e Taylor se encaixou nisso com perfeição,
cumprindo horários, acompanhando Rachel em cada compromisso, revisando tarefas,
organizando a agenda com um cuidado quase obsessivo, porque agora não se
tratava apenas de permanecer ali, mas de recuperar completamente a confiança de
Katheryn e, ao mesmo tempo, manter-se dentro de um território seguro diante de
John, que não havia recuado, apenas mudado a forma de se aproximar.
Ele passou a surgir em momentos mais
específicos, menos frequentes, porém mais calculados, e havia sempre algo nos
gestos dele que parecia casual demais para ser confrontado diretamente, mas
consistente demais para ser coincidência, uma mão que se apoiava brevemente em
seu ombro ao passar por trás dela enquanto explicava algo a Rachel, um elogio
direcionado à forma como ela organizava a rotina da filha, sempre seguido de um
olhar que demorava um segundo além do necessário, como se avaliasse mais do que
o trabalho, e Taylor respondia com a mesma precisão, sem se afastar de forma
brusca, sem dar espaço para interpretações, mantendo-se exatamente no limite
entre a educação e a distância, porque sabia que qualquer reação mais evidente
poderia ser usada contra ela.
Katheryn, por outro lado, tornou-se
mais silenciosa em relação a Taylor, mas não menos presente, e havia algo no
modo como observava, como fazia pequenas correções na rotina, como perguntava
detalhes aparentemente irrelevantes sobre o dia de Rachel, que denunciava uma
vigilância diferente, menos emocional e mais estratégica, e Taylor percebeu
que, se quisesse continuar ali, precisaria ser ainda mais cuidadosa, ainda mais
precisa, ainda mais invisível.
Foi nesse espaço de tensão controlada
que ela encontrou a brecha para voltar ao que realmente importava.
A investigação.
Na quarta-feira à tarde, enquanto
Rachel estava em uma atividade extracurricular e a casa permanecia mais vazia
do que o habitual, Taylor voltou à sala principal com a desculpa de reorganizar
alguns objetos que haviam sido deslocados por Sabrina, mas seu foco estava nos
quadros alinhados na parede próxima à lareira, nas fotografias que já havia
analisado superficialmente nos primeiros dias, mas que agora exigiam um olhar
mais atento, mais minucioso, e desta vez, não se limitou a observar, pegou o
celular, discretamente, e começou a fotografar cada uma das imagens, ajustando
ângulos, aproximando, capturando rostos, nomes escritos em pequenas placas,
qualquer detalhe que pudesse servir de ponto de partida.
Fez isso rápido, mas com cuidado
suficiente para não deixar rastros, e quando terminou, voltou à rotina como se
nada tivesse acontecido, embora o coração estivesse acelerado de uma forma
diferente, mais próxima da excitação do que do medo, porque aquilo, finalmente,
parecia um avanço.
Naquela noite, já em casa, sentou-se
na cama com o celular nas mãos, percorrendo cada uma das imagens, ampliando
rostos, tentando reconhecer traços, memórias fragmentadas que insistiam em não
se organizar completamente, até que um nome chamou sua atenção de forma quase
involuntária.
Emily Dallas.
Não era apenas um nome, era uma
lembrança – difusa, incompleta, mas presente o suficiente para causar
desconforto.
Taylor franziu o cenho, aproximando a
imagem, tentando encaixar aquele rosto em algo que sua mente se recusava a
organizar de imediato, e então abriu as redes sociais, digitando o nome com
cuidado, como se aquilo, por si só, já fosse um risco.
Não demorou muito.
Perfis apareceram. Alguns descartáveis,
outros possíveis.
E então um.
A idade batia. A cidade também.
A foto de perfil mostrava uma mulher
mais velha, mas havia algo ali, nos olhos, na estrutura do rosto, que parecia
familiar demais para ser coincidência.
Taylor hesitou por alguns segundos
antes de clicar.
O perfil era parcialmente aberto. Fotos
antigas, algumas mais recentes. E ali, em meio a imagens comuns, viagens,
amigos, registros banais de uma vida aparentemente normal, havia um vídeo
curto. Balé.
O corpo de Taylor reagiu antes mesmo
que ela percebesse.
Deu play. A imagem era tremida,
antiga, provavelmente um registro amador de uma apresentação, mas o suficiente
para mostrar um grupo de meninas no palco, alinhadas, executando movimentos com
precisão, e mesmo sem conseguir identificar claramente cada rosto, algo dentro
dela apertou, porque aquele ambiente, aquela dinâmica, aquele tipo de
apresentação… era familiar demais.
Respirou fundo.
E então voltou para o perfil. Havia
uma opção de mensagem. O dedo pairou sobre a tela por um tempo maior do que o
normal. O que dizer? Como começar? E, principalmente, até onde aquilo poderia
ir?
Taylor permaneceu alguns segundos
olhando para a tela, o nome ainda aberto diante de si, o cursor piscando na
caixa de mensagem como se a pressionasse a tomar uma decisão que não tinha
certeza de estar pronta para assumir, e foi nesse instante que a voz de Sabrina
surgiu atrás dela, quebrando o silêncio de forma leve, mas suficiente para
fazê-la travar o celular contra o corpo quase por reflexo.
— Está tudo bem?
Taylor virou o rosto rapidamente,
recompondo a expressão com um cuidado automático, enquanto Sabrina apoiava o
ombro no batente da porta, os olhos atentos, mas sem a curiosidade invasiva de
antes, havia algo diferente ali, mais contido, quase cauteloso, como se o
incidente da piscina tivesse reorganizado não só a dinâmica da casa, mas também
a forma como todos se aproximavam uns dos outros.
— Estou — respondeu Taylor, guardando
o celular com naturalidade calculada. — Só organizando algumas coisas.
Sabrina assentiu devagar, caminhando
alguns passos para dentro do cômodo, passando os dedos pela superfície de um
móvel que já estava limpo demais para precisar de atenção, claramente
procurando uma forma de permanecer ali sem parecer invasiva demais.
— Rachel está mais tranquila hoje... —
comentou, em tom neutro. — Katheryn também, depois daquilo.
Taylor sentiu o peso daquilo, ainda
que sutil. Aquilo doeu mais do que qualquer acusação direta poderia doer.
Taylor assentiu, sem saber exatamente
o que responder, e por alguns segundos o silêncio entre as duas pareceu mais
confortável do que tinha sido nos últimos dias, como se ambas estivessem
tentando reconstruir uma normalidade que ainda não se sustentava completamente.
— E você? — Sabrina perguntou, dessa
vez olhando diretamente para ela. — Está mesmo bem?
A pergunta não era superficial e por
um instante, considerou responder com algo mais honesto, mas o hábito falou
mais alto.
— Estou — repetiu, mais firme. — Aquele
foi só… um dia ruim.
Sabrina a observou por um segundo a
mais, como se avaliasse aquela resposta, mas não insistiu.
— Se precisar de alguma coisa… —
disse, já se virando para sair — você sabe onde me encontrar.
Taylor assentiu.
— Eu sei.
Quando Sabrina saiu, o silêncio
voltou, mas não da mesma forma, agora havia uma sensação estranha de que, mesmo
sem dizer diretamente, a casa inteira estava ciente de que algo havia mudado, e
que ninguém ainda sabia exatamente como lidar com isso.
A noite caiu dentro da rotina
previsível que já havia se reinstalado, e Taylor cumpriu cada tarefa de maneira
quase mecânica, porque manter tudo funcionando era, naquele momento, a única
forma de manter a si mesma no controle.
Mas, por trás disso, a mente não
parava.
Emily Dallas.
O nome voltava com insistência. O
rosto. O vídeo. A sensação incômoda de reconhecimento incompleto.
Quando finalmente deixou a mansão, o
ar do lado de fora pareceu mais leve, mas não o suficiente para dissipar o peso
que carregava, e o caminho até sua casa foi tomado por pensamentos que se
sobrepunham, possibilidades, riscos, perguntas que não tinham respostas claras,
e, ainda assim, uma intuição insistente que dizia que aquilo não era
coincidência.
Era um ponto de partida. Um tiro no
escuro, talvez, mas era alguma coisa.
Ao chegar em casa, o silêncio a
recebeu de forma quase acolhedora, e ela não demorou a se sentar novamente na
cama, o celular já em mãos antes mesmo de tirar os sapatos, abrindo o perfil
mais uma vez, como se precisasse confirmar que aquilo ainda estava ali, que não
havia sido apenas uma impressão.
A caixa de mensagem continuava aberta.
O cursor piscava.
Dessa vez, ela não hesitou tanto.
Digitou. Apagou. Digitou novamente.
Ajustou as palavras, buscando algo que
não fosse invasivo demais, mas que também não soasse vazio, algo que permitisse
uma resposta sem levantar suspeitas imediatas.
“Oi, Emily. Sei que isso pode soar
estranho, mas acredito que tivemos algo em comum no passado, relacionado ao
balé. O nome John Mayer diz alguma coisa para você? Gostaria de conversar, se
você se sentir confortável.”
Simples. Direto o suficiente.
Ela releu uma vez. Duas. E então
enviou. O envio foi imediato. A resposta, não.
Taylor soltou o ar devagar, deixando o
celular ao lado do corpo, olhando para o teto por alguns segundos, sentindo o
cansaço finalmente se instalar, mas também uma tensão diferente, mais
silenciosa, mais profunda, como se tivesse acabado de abrir uma porta que não
sabia exatamente para onde levava.
E foi então que o celular vibrou.
Ela virou o rosto rapidamente, o
coração acelerando por um segundo, esperando ver uma resposta de Emily, mas o número
desconhecido a fez tremer.
Ela hesitou. Um segundo. Dois. Então
atendeu.
— Oi… — a voz saiu mais baixa do que
pretendia.
Do outro lado, a resposta veio leve,
quase sorrindo.
— Espero não estar atrapalhando.
A voz era despojada, havia um sorriso.
Travis.
— Não… — respondeu ela, ajeitando-se
na cama, tentando ignorar o leve nervosismo que surgiu sem aviso. — Está tudo
bem.
— Só pensei em saber se você
sobreviveu à semana — disse ele, com um tom leve, mas atento. — Depois da nossa
aula… você sumiu.
Taylor soltou um pequeno suspiro,
quase um riso contido.
— Eu trabalho bastante.
— Eu imaginei. — respondeu ele. — Mas
ainda assim… desapareceu rápido demais para alguém que disse que só sabia
boiar.
Ela ficou em silêncio por um segundo,
sentindo o subtexto ali, mas ele não pressionou.
— Relaxa — continuou ele, mais suave.
— Não estou ligando pra te interrogar.
E então, uma pequena pausa.
— Na verdade… estou ligando pra te
convidar.
Taylor franziu levemente o cenho,
mesmo sabendo o que viria.
— Convidar?
— É — respondeu ele, simples. — Um
café, um drink, qualquer coisa...
O coração dela acelerou, dessa vez de
um jeito diferente.
— Travis…
— Sem pressão — interrompeu ele, com
naturalidade. — Mas eu fiquei com a sensação de que… — hesitou brevemente,
escolhendo as palavras — que temos o que conversar.
Silêncio.
— E quem sabe — completou, mais baixo
— longe dali… você queira me contar o que realmente aconteceu.
A frase ficou no ar, mas carregada de
intenção.
Taylor fechou os olhos por um segundo,
sentindo o peso de tudo se cruzando naquele momento, John, a casa, Rachel,
Emily… e agora aquilo.
Um convite. Um risco.
Quando abriu os olhos novamente, ainda
não tinha uma resposta.
— Você já sabe o que aconteceu. —
afirmou. — John contou tudo sobre o incidente.
— Mas eu não quero saber de John,
quero saber de você...
Taylor não respondeu de imediato, e o
silêncio do outro lado da linha não foi interrompido por Travis, o que, de
certa forma, a desarmou mais do que qualquer insistência faria, porque ele não
pressionava, não preenchia o espaço com palavras desnecessárias, apenas
esperava, como se já soubesse que ela estava calculando cada possibilidade
antes de dizer qualquer coisa, e isso a fez respirar fundo, passando a mão pelo
rosto, tentando organizar pensamentos que já não estavam tão organizados quanto
ela gostaria.
— Eu… — começou, mas parou, porque
qualquer resposta parecia carregar mais peso do que deveria.
Ele soltou um leve riso do outro lado,
baixo, sem ironia.
— Você sempre pensa assim antes de
responder tudo? — perguntou, com um tom quase curioso.
— Nem sempre — ela respondeu,
recuperando um pouco do controle. — Só quando não sei qual é a resposta certa.
— Talvez não tenha uma resposta certa
— ele devolveu, simples. — Só uma honesta.
Aquilo a atingiu de um jeito
inesperado.
Taylor apoiou a cabeça na parede atrás
da cama, os olhos fixos em um ponto qualquer do teto, sentindo o cansaço do dia
misturado com aquela sensação nova que Travis trazia, algo menos pesado, menos
calculado… e, justamente por isso, mais perigoso.
— Eu não sou muito boa com coisas fora
de… rotina — disse por fim, escolhendo as palavras com cuidado.
— Eu percebi — ele respondeu, sem
julgamento. — Mas rotina também pode ser uma forma de se esconder.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Você sempre fala assim com todo
mundo?
— Não — ele respondeu, sem hesitar. —
Só quando vale a pena.
O silêncio voltou, mas dessa vez não
era desconfortável, era carregado de algo que ela não queria nomear ainda,
porque dar nome tornava real demais.
— Que tipo de convite é esse? —
perguntou ela, desviando um pouco.
— Um simples — disse ele. — Um lugar
tranquilo, sem plateia, sem… — fez uma pausa breve — interferência externa.
Taylor entendeu exatamente o que ele
quis dizer.
John.
A presença dele parecia atravessar até
mesmo aquela conversa, mesmo sem estar ali, e isso a fez franzir levemente o
cenho.
— Você sabe que ele vai perguntar —
disse ela, mais baixa.
— Já pergunta — Travis respondeu,
direto. — Sobre você, sobre como você está na água, sobre seu comportamento…
coisas demais pra alguém que só quer garantir que a filha esteja segura.
Taylor sentiu o estômago revirar
levemente.
— E você responde?
Houve uma pausa curta.
— O suficiente pra não levantar
suspeita — disse ele. — Mas não o suficiente pra entregar você.
Ela abriu os olhos, encarando o teto
com mais atenção agora.
— Por quê?
A resposta não veio de imediato, e
quando veio, foi mais simples do que ela esperava.
— Porque eu não trabalho para ele. —
disse Travis. — E porque… — hesitou, mas não recuou — eu gosto de você.
O coração dela falhou um compasso.
Simples assim.
Aquilo a desestabilizou mais do que
qualquer aproximação calculada de John jamais conseguiu.
— Você mal me conhece — disse ela,
quase como defesa.
— Conheço o suficiente — ele
respondeu. — E o resto… eu posso descobrir se você deixar.
Taylor soltou um ar leve, quase um
riso sem humor.
— Isso não é uma boa ideia.
— Provavelmente não — ele concordou,
surpreendendo-a. — Mas nem tudo que não é uma boa ideia precisa ser evitado.
Ela permaneceu em silêncio, sentindo o
peso daquela escolha se formar diante dela, não como uma decisão simples, mas
como um desvio real do caminho que vinha seguindo com tanto controle até ali.
Porque aquilo não fazia parte do
plano.
— Quando? — perguntou ela, antes mesmo
de decidir se deveria.
Do outro lado, o sorriso dele era
quase audível.
— No domingo... — respondeu. — Assim
ninguém estranha. E você já vai estar… confortável o suficiente para fugir de
mim, se quiser.
— Fugir de você? — ela repetiu,
arqueando levemente a sobrancelha, mesmo que ele não pudesse ver.
— É — disse ele, leve. — Ainda não
decidi se você é do tipo que foge ou do tipo que enfrenta.
Taylor ficou em silêncio por um
segundo.
— Talvez eu ainda não tenha decidido
também.
— Então a gente descobre. — ele
respondeu.
Mais um silêncio. Dessa vez mais
curto.
— Eu te mando o lugar — disse ele. — E
você decide se aparece.
Ela assentiu, mesmo sabendo que ele
não veria.
— Tá.
— Tá? — ele repetiu, com um leve riso.
— Tá — confirmou ela, mais firme.
— Boa noite, Taylor.
— Boa noite, Travis.
A ligação terminou.
O quarto voltou ao silêncio, mas não
ao mesmo silêncio de antes, havia algo diferente agora, uma tensão mais leve,
mais viva, que se misturava ao peso de tudo o que ela ainda carregava, e Taylor
ficou ali por alguns segundos, o celular ainda na mão, olhando para a tela
apagada como se esperasse que algo mais acontecesse.
E aconteceu.
Uma nova vibração. Dessa vez, uma
notificação. Ela abriu. Não era Travis. Era uma resposta.
Emily Dallas.
O coração acelerou imediatamente, de
uma forma completamente diferente da anterior, mais densa, mais urgente, e por
um instante, Taylor apenas olhou para a mensagem sem abrir, como se aquele
pequeno gesto fosse definir o rumo de tudo a partir dali.
Respirou fundo.
E tocou na tela.
“Quem é você?”
[CONTINUA]


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