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25 de janeiro de 2026

dancing with the devil | 07° Capítulo.

Despertara assustada ao ouvir vozes animadas vindas de outro cômodo. O som de risadas atravessava o apartamento como algo intrusivo, fora de lugar naquele silêncio ao qual seu corpo já se acostumara. Taylor abriu os olhos de supetão, o coração acelerado, como se tivesse sido arrancada de um sonho ruim — ou de um pensamento que não chegara a se formar por completo.

Virou-se para o relógio na mesa de cabeceira e sentiu o choque imediato: passava das dez da manhã.

— Droga… — murmurou, já se sentando na cama.

Estava atrasada.

Levantou-se num impulso, ainda com a sensação de urgência colada à pele, e abriu a porta do quarto com mais força do que pretendia. As vozes cessaram no mesmo instante.

— Bom dia, Tay. — Blake falou, encostado no balcão da cozinha, um sorriso largo no rosto. — Está tudo bem?

Taylor piscou algumas vezes, tentando alinhar o cenário diante de si. Blake. Selena. Canecas espalhadas pela mesa. Sacolas de padaria abertas. Um cheiro de café recém-passado que não combinava com seu estado de alerta.

— O que… — começou, confusa, a voz rouca de sono.

— Ela se esqueceu. — Selena disse, balançando a cabeça com um meio sorriso divertido. — Hoje é sábado. É a sua folga.

A informação demorou um segundo a se encaixar.

— Oh… — Taylor levou a mão ao rosto, deslizando os dedos pelos olhos, como se aquilo pudesse reorganizar o tempo.

Sábado.

Folga.

A palavra parecia estranha agora. Nos últimos meses, os dias tinham se misturado em uma sequência contínua de observação, cautela e cálculo. A casa dos Mayer ditava seus horários, seus silêncios, seus limites. Mesmo longe dali, seu corpo permanecia em estado de vigília.

Ela suspirou fundo e apoiou-se no batente da porta.

— Eu… esqueci completamente. — confessou, quase envergonhada.

Selena aproximou-se e tocou-lhe o braço com cuidado.

— Não é surpresa. — disse, mais séria agora. — Você anda distante, Tay. Mesmo quando está aqui, parece que ainda está lá.

Taylor desviou o olhar.

Após a conversa com Juan na noite anterior, sua mente não lhe concedera descanso. As palavras dele — simples, diretas, perturbadoras — haviam se alojado em um canto incômodo da consciência. “Às vezes é melhor não estar sozinha.” Não soava mais como um conselho casual. Soava como um aviso.

Blake pigarreou, tentando quebrar a tensão.

— A gente decidiu invadir sua casa. — disse, erguendo uma sacola. — Croissants, café e nenhuma conversa sobre trabalho. Pelo menos por algumas horas.

Taylor deixou escapar um sorriso breve, cansado, mas genuíno.

— Vocês não desistem, não é?

— Ainda bem. — Selena respondeu. — Alguém precisa lembrar você de que existe vida fora daquele lugar.

Taylor assentiu lentamente. Sabia que tinham razão. Mas também sabia que, mesmo ali, envolta por vozes familiares e cheiros confortáveis, uma parte dela permanecia alerta — como se algo estivesse prestes a acontecer, como se o verão que se anunciava carregasse mais do que dias longos e janelas abertas.

Ela respirou fundo e deu alguns passos em direção à cozinha.

Por algumas horas, permitiria a si mesma esquecer. Ou ao menos fingir que conseguia.

Do outro lado da cidade, a mansão Mayer despertava sob os resquícios da chuva da noite anterior. Pétalas esmagadas sobre o cascalho claro, folhas arrancadas dos canteiros, a grama ainda úmida refletindo o sol recém-surgido do início do verão. O ar carregava aquele cheiro metálico e fresco que sempre vinha depois das tempestades — limpo demais para ser inocente.

Juan fora chamado cedo.

Katheryn observara da varanda, enrolada em um robe claro, enquanto ele recolhia galhos quebrados e reorganizava os vasos mais próximos da entrada principal. Não disse muito. Apenas apontou o que precisava ser feito e voltou para dentro da casa, como se o jardim fosse apenas mais um detalhe a ser corrigido antes do café da manhã.

Juan trabalhava em silêncio, como sempre. Os gestos precisos, econômicos. Conhecia aquele espaço melhor do que qualquer arquiteto que o tivesse desenhado. Sabia onde a água acumulava, quais flores resistiam melhor ao excesso de sol, quais caminhos John evitava quando estava de mau humor.

Foi por isso que percebeu a presença antes mesmo de ouvir os passos.

— A chuva deixou tudo fora do lugar. — John comentou, como se falasse do tempo.

— Já estou resolvendo, senhor. — respondeu Juan, sem se virar.

— Ontem à noite… — John continuou, pausado. — Você deu carona à Taylor.

Juan endireitou-se lentamente. Limpou as mãos na calça antes de encará-lo.

— Sim. O acaso fez com que eu fizesse uma gentileza.

John inclinou a cabeça, observando-o com atenção calculada.

— Eu não perguntei por quê. — disse. — Perguntei o que você pensa que está fazendo.

O ar entre eles ficou pesado.

— Somos colegas. — respondeu Juan, firme. — Apenas isso.

John soltou um riso curto, sem humor.

— Colegas não se desviam da hierarquia. — aproximou-se um passo. — E você sabe muito bem disso.

Juan manteve o olhar, mas sentiu o aviso por trás das palavras.

— Não se esqueça tudo que fiz por você. — John continuou, agora em voz baixa. — Resolvi seus problemas de imigração quando ninguém mais quis se envolver. Dei-lhe um emprego. Dei-lhe uma casa dentro da minha propriedade.

Juan engoliu em seco.

— Não esqueço isso, senhor.

— Espero que não. — John respondeu. — Porque lealdade não é opcional. É o preço.

Silêncio.

— Eu pedi que você observasse a Taylor. — John prosseguiu. — Não que criasse vínculos. Não que se aproximasse. Muito menos que se colocasse entre mim e ela.

Juan franziu o cenho, pela primeira vez.

— O senhor pediu que eu a monitorasse. — disse. — E é o que faço.

John o encarou de forma dura.

— Então faça direito. — rebateu. — E mantenha distância.

Houve uma pausa curta, mas densa.

— Ela não é alguém para você. — John acrescentou. — Não confunda as coisas.

Juan assentiu lentamente.

— Não há nada entre nós. — disse. — Nunca houve.

John sustentou o olhar por mais alguns segundos, avaliando.

— Ótimo. — respondeu, por fim. — Porque tudo o que você tem… — inclinou-se levemente para a frente — depende de eu continuar acreditando nisso.

Ele se afastou em seguida, caminhando de volta para a casa como se tivesse tratado de um assunto trivial.

John entrou na sala de jantar com a mesma compostura de sempre, como se o jardim, Juan e a conversa recente não tivessem existido. Ajustou a manga da camisa, serviu-se de café e sentou-se à mesa com um gesto tranquilo demais para quem carregava pensamentos em movimento.

Katheryn ergueu os olhos do prato ao vê-lo.

— Bom dia. — John disse, ocupando seu lugar.

— Bom dia. — Katheryn respondeu, observando-o com atenção leve demais para parecer casual. — Vi você conversando com Juan no jardim. Algum problema?

John serviu-se de café com calma, como se ponderasse a resposta.

— Nada demais. — disse. — Apenas orientações. A chuva deixou o jardim num estado lastimável.

Katheryn franziu o cenho por um instante, mas não insistiu. Estava acostumada àquela forma vaga de John tratar assuntos da casa — sempre no controle, sempre um passo à frente.

— E quais são os planos para hoje? — ele perguntou, mudando o foco com naturalidade. — Já que é sábado.

Rachel ergueu os olhos imediatamente.

— Eu não tenho aula! — disse, animada.

John sorriu para a filha, um sorriso que parecia cuidadosamente ensaiado.

— Justamente por isso pensei em algo diferente. — apoiou os cotovelos na mesa. — Que tal irmos ao Borough Market?

Rachel arregalou os olhos.

— Sério? Posso escolher o sorvete?

— Pode escolher o sorvete, as flores… — John sorriu. — Pode escolher tudo.

Katheryn inclinou-se na cadeira, interessada.

— Um passeio em família… — repetiu, como se testasse a ideia em voz alta.

— Faz tempo que não fazemos isso. — John completou. — Só nós três. Sem compromissos. Sem pressa.

Houve um breve silêncio.

Katheryn observou o marido com um cuidado quase esquecido. Havia algo reconfortante naquela proposta — a promessa de normalidade, de proximidade.

— Acho uma ótima ideia. — disse, por fim. — Rachel precisa disso. Nós precisamos.

John assentiu, satisfeito.

— Então está decidido.

John levou a xícara aos lábios, mas seus pensamentos já não estavam mais ali.

Borough Market.

Ele conhecia aquele lugar melhor do que deixava transparecer. Sabia dos horários, dos fluxos, das mesas mais disputadas. E sabia, sobretudo, que Taylor gostava de passar os sábados ali — com amigos, rindo, distraída, fora do papel que desempenhava dentro da mansão.

Não era coincidência. Nunca fora.

Havia semanas que John a observava à distância, aprendendo seus trajetos, seus hábitos, seus pequenos rituais de liberdade. O mercado era um deles.

E agora, teria algo melhor do que um encontro casual: teria a família como disfarce, a normalidade como escudo, e o acaso como mentira bem contada.

John pousou a xícara na mesa com calma.

— Vamos sair em uma hora. — disse. — Quero aproveitar o dia.

Enquanto Katheryn sorria para Rachel e a menina já falava animada sobre flores e doces, John apenas pensava em uma coisa:

Ele sabia que a encontraria e quando isso acontecesse, seria o destino.

Eles se arrumaram sem pressa, como se o sábado tivesse concedido à casa uma trégua rara.

Katheryn optou por um vestido leve, claro, o cabelo preso de forma simples, quase juvenil. John dispensou o terno — camisa de linho, mangas dobradas até os antebraços, óculos escuros apoiados no bolso da camisa. Rachel vestiu algo confortável demais para uma criança acostumada a roupas rígidas: tênis, vestido solto, o cabelo preso às pressas. Pareciam, vistos de fora, exatamente o que não eram na maior parte do tempo. Uma família em harmonia.

No carro, Rachel falava sem parar. Comentava sobre os sabores de sorvete que pretendia provar, sobre as flores que escolheria para o hall da casa, sobre como queria que aquele dia durasse mais do que os outros.

Katheryn respondia, sorria, completava as frases da filha.

John dirigia.

Participava da conversa no tempo certo — um comentário aqui, uma risada breve ali, mas sua atenção estava fragmentada. Observava reflexos nos retrovisores, cruzamentos, pedestres. O mercado surgia em sua mente antes mesmo de aparecer na rua: as mesas externas, o burburinho constante, os bancos disputados, os rostos conhecidos que ele já aprendera a procurar.

Borough Market estava cheio, como sempre.

O cheiro de comida quente misturava-se ao de frutas frescas, flores, café recém-moído. Caminharam entre barracas, Rachel de mãos dadas ora com a mãe, ora com o pai. John comprou flores com cuidado exagerado, escolhendo cores que harmonizassem com a casa — gesto que Katheryn interpretou como atenção, era apenas controle.

Almoçaram ali mesmo, em uma mesa externa. Conversaram, riram, dividiram pratos. John parecia presente, mas seus olhos percorriam o espaço com método, como quem revisita um território já mapeado.

E então ele a viu.

Sentada alguns metros adiante, em uma mesa cercada de vozes e risadas, Taylor parecia outra pessoa. Usava roupas leves, o cabelo solto, o corpo relaxado. Havia algo nela que sempre escapava quando estava na mansão — uma liberdade silenciosa que John reconheceu de imediato.

Antes que pudesse reagir, Rachel também a viu.

— TAYLOR! — gritou, a voz clara atravessando o ruído do mercado.

John mal teve tempo de se virar quando a filha já havia se soltado da cadeira, correndo em direção à mesa.

Taylor ouviu seu nome como um choque.

Levantou o rosto ainda sorrindo, mas o sorriso morreu no instante seguinte. Reconheceu Rachel primeiro — e logo atrás, inevitavelmente, os pais.

O sangue pareceu subir-lhe ao rosto.

Com um gesto rápido demais para parecer casual, levou a mão à bolsa e colocou os óculos escuros. Não usava as lentes azuis naquele dia. Ali, seus olhos eram os verdadeiros — e não poderiam ser vistos.

Levantou-se para receber Rachel, agachando-se para o abraço, tentando recompor a respiração enquanto sentia, mesmo sem olhar, a presença de John se aproximando.

Do outro lado da cena, John parou.

Observou Taylor por trás dos óculos, atento a cada movimento — ao gesto apressado, à tensão súbita em seu corpo, ao cuidado quase desesperado em esconder algo.

Não sorriu.

A coincidência que ele arquitetara agora estava diante de todos.

Rachel a soltou devagar, ainda animada demais para perceber o peso que se instalara no ar.

— Eu não acredito que é você! — disse, sorrindo largo. — A mamãe disse que hoje era dia de sorvete… mas isso é muito melhor!

Taylor forçou um sorriso sob os óculos escuros.

— Oi, pequena. — Sua voz saiu controlada demais. — Vejo que o plano do sorvete está indo bem.

Katheryn aproximou-se logo atrás, educada, discreta.

— Taylor, que coincidência agradável. — comentou, olhando para a mesa. — Vejo que está acompanhada.

— Sim… amigos. — respondeu, tocando de leve o encosto da cadeira, como se precisasse de apoio.

John chegou por último.

Parou ao lado da mesa, as mãos nos bolsos, avaliando o grupo com calma calculada. Um homem, duas mulheres. Nenhum gesto íntimo demais, nenhum sinal evidente de ameaça — ainda assim, ele observou cada um como se estivesse registrando rostos, memorizando padrões.

Taylor sentiu o peso daquele olhar atravessá-la mesmo por trás das lentes escuras. Não desviou. Sustentou-o por um segundo a mais do que seria confortável.

— Espero que não estejamos interrompendo — disse John, o tom leve, quase simpático. — Borough Market tem esse talento para encontros inesperados.

— É verdade. — Taylor respondeu. — Londres é pequena às vezes.

— Pequena demais. — ele concordou, com um meio sorriso.

Rachel puxou a mão de Taylor outra vez.

— Você podia se sentar com a gente! Ou ir escolher sorvete comigo!

John riu antes que Taylor pudesse responder.

— Ei, ei… — inclinou-se na direção da filha, teatral. — Taylor está de folga, lembra? Se continuarmos assim, ela vai acabar pedindo hora extra.

Rachel fez uma careta exagerada.

— Está bem… — suspirou. — Mas é injusto.

— Totalmente. — John piscou para Taylor. — Aproveite seu sábado.

Taylor assentiu.

— Bom passeio para vocês.

Katheryn sorriu, genuinamente satisfeita com a breve cordialidade, e segurou a mão da filha. John foi o último a se afastar. Antes de virar-se, lançou mais um olhar rápido à mesa — rápido demais para parecer casual.

Quando se foram, o burburinho do mercado voltou a ocupar o espaço entre eles, mas Taylor permaneceu imóvel por alguns segundos.

Selena foi a primeira a falar.

— Isso não foi normal.

Taylor respirou fundo, retirando os óculos e passando a mão pelo rosto.

— Não foi. — murmurou. — Ele me observou como se estivesse… medindo algo.

— Ele é perigoso. — Selena disse em voz baixa. — E sabe o que é pior?

Taylor ergueu os olhos.

— O quê?

Selena inclinou-se na direção dela.

— Ele é ainda mais perigoso quando parece educado. Quando chega perto demais sem ninguém perceber.

Taylor olhou na direção por onde a família havia desaparecido, sentindo um arrepio percorrer lhe a espinha.

Ele estivera perto. Perto demais.

[CONTINUA]

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