Bem-vindo ao Melodrama. Criado em 2014, este espaço nasceu do desejo de contar histórias que permanecem. Cada palavra aqui foi escrita com intenção, cuidado e identidade. Todo o conteúdo é autoral e protegido pela Lei nº 9.610/98 ♡

25 de janeiro de 2026

dancing with the devil | 08° Capítulo.

Abriu a porta de casa com as mãos ainda trêmulas, largou as sacolas sobre a mesa sem cuidado algum e seguiu direto para o banheiro. Não houve tempo para respirar. Vomitou. O corpo inteiro reagia como se tivesse sido exposto a algo tóxico demais para ser digerido.

Calafrios subiam-lhe pela espinha, a testa fria, o estômago em revolta.

— Taylor? — a voz de Blake veio do corredor, alarmada. — Você está bem? Foi alguma coisa que comeu?

Antes que Taylor respondesse, Selena já estava ali, braços cruzados, o rosto fechado.

— Não foi comida. — disse, dura. — Foi aquele homem.

Taylor abriu a porta do banheiro com brusquidão.

— Selena, não fale nada.

— Não fale nada? — Selena retrucou, a voz baixa, mas cortante. — Meu Deus, Taylor, eu não vou mentir por você. Não quando isso é claramente perigoso.

— Selena… — Taylor tentou.

— Conte para a Blake. — interrompeu. — Ou eu conto.

Blake olhava de uma para a outra, completamente perdida.

— Contar o quê? — perguntou. — Do que vocês estão falando?

— Não é nada, Blake… — Taylor disse rápido demais.

— É sim. — Selena insistiu, firme. — E eu não vou carregar isso sozinha.

Houve um silêncio pesado. Taylor apoiou as mãos na pia, respirando fundo, evitando o espelho.

Selena desviou o olhar por um instante, como se organizasse os próprios pensamentos, então falou:

— Eu já o vi antes. — confessou. — Algumas vezes. No Borough Market. Sozinho. Observando. Mais de uma vez.

Blake franziu o cenho.

— Ele… quem?

— Ele está te seguindo, Taylor. — Selena completou. — Isso é óbvio.

Taylor fechou os olhos por um segundo longo demais.

— Eu sei, Selena. — respondeu, por fim. — Eu sei.

— Sabe?! — Blake arregalou os olhos. — Sabe quem é esse homem?

Taylor passou a mão pelo rosto, exausta.

— Faz parte do plano. — disse. — Ele quer se aproximar de mim, mas eu mantenho distância. O suficiente. Está tudo sob controle.

Selena riu, sem humor algum.

— Sob o seu controle? — deu um passo à frente. — Ou sob o controle dele?

Taylor não respondeu.

— O que vai acontecer quando ele descobrir? — Selena continuou. — O que você vai fazer quando ele tentar… — a voz falhou por um segundo — quando ele tentar te beijar?

Blake levou a mão ao peito.

— Do que você está falando?

Selena explodiu.

— John. John Mayer. — cuspiu o nome. — Foi ele quem abandonou a Taylor anos atrás. Você conhece essa história, Blake. Ou pelo menos parte dela.

Blake levou a mão à boca, chocada.

— E agora… — Selena continuou, sem conseguir mais conter a raiva — agora ela trabalha para ele. É babá da filha dele. E acha que está no controle, quando na verdade está dançando com o diabo.

O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.

Taylor ergueu o olhar lentamente.

— Não é vingança cega. — disse, a voz baixa, firme. — Eu sei exatamente quem ele é. Sei como ele pensa. Sei o que ele quer.

— Não. — Selena rebateu. — Você acha que sabe. E isso é o que mais me assusta.

Blake aproximou-se devagar.

— Taylor… — falou com cuidado. — Você nunca me contou tudo. Só pedaços. E agora… agora parece grande demais pra você carregar sozinha.

Taylor sentiu algo se quebrar por dentro. Não chorou. Não ainda.

— Eu preciso terminar o que comecei. — murmurou. — Estou perto demais para recuar.

Selena respirou fundo, mais contida agora.

— Então você precisa entender uma coisa. — disse. — Ele não te encontrou por acaso no mercado. Aquilo foi planejado. E hoje… — hesitou — hoje ele te olhou como alguém que já acha que possui.

Taylor sentou-se no chão frio do banheiro, apoiando as costas na parede.

Pela primeira vez desde o Borough Market, o medo ultrapassou a estratégia.

— Ele está se aproximando rápido demais. — sussurrou.

Selena ajoelhou-se à sua frente.

— E você precisa decidir se vai continuar fingindo que isso faz parte do plano… ou se vai admitir que o plano já não é só seu.

Blake foi a primeira a romper o silêncio.

— Qual é o plano de verdade, Taylor? — perguntou, mais contida agora. — Não o que você repete pra si mesma. O real.

Taylor demorou a responder. Quando ergueu o rosto, havia menos defesa e mais exaustão.

— Eu quero me vingar. — disse, por fim. — Não no sentido infantil. Não gritando ou expondo nada sem provas. Eu quero… atingir o que ele construiu. A reputação, o controle que ele tem de tudo. — respirou fundo. — Pensei em atrapalhar a peça que ele monta, descobrir algo do estúdio, algo que o fragilize. Ou informações. Se ele me machucou daquele jeito… — a voz falhou — talvez não tenha sido só comigo.

Blake arregalou os olhos.

— Então você quer provar quem ele é de verdade.

— Sim. — Taylor assentiu. — Mas ainda não tenho nada palpável. Só sinais, padrões, olhares, toques. Nada que se segure sozinho.

Blake inclinou-se para frente, impulsiva.

— Então a gente constrói isso juntas. — disse. — Você não precisa fazer isso sozinha. Eu posso ajudar a observar, pesquisar, cruzar informações—

— Não. — Selena cortou, firme, quase dura. — É exatamente assim que tudo sai do controle.

Ela se aproximou de Taylor, ajoelhando-se à sua frente, segurando-lhe as mãos.

— Você está se enganando se acha que isso ainda é estratégia. — disse, com cuidado, mas sem suavizar demais. — Isso já virou risco. Você está dentro da casa dele. Dentro da família dele. Ele já te vê. Já te deseja. — respirou fundo. — E você já perdeu demais por causa desse homem.

Taylor desviou o olhar.

— Seus pais… — Selena continuou, a voz embargada — morreram enquanto você ainda tentava se recompor. E o balé, Taylor, era quem você era antes de tudo ruir.

Taylor fechou os olhos. O peso veio inteiro, sem filtros.

— Você não pode se destruir tentando consertar o passado. — Selena concluiu. — Às vezes, a única vitória é se afastar.

O silêncio que se seguiu foi pesado demais.

— Selena tem razão. — Blake concluiu. — Seria loucura se nós continuássemos...

— Mas eu também não posso desistir agora. — disse Taylor.

— E nem se sacrificar por eles. — Selena disse. — Ainda tem muito para viver. E ser feliz.

Ela assentiu.

Naquela noite, Taylor quase não dormiu.

A casa Mayer estava em ebulição desde cedo. O evento beneficente daquela noite exigia precisão absoluta: jornalistas confirmados, convidados estratégicos, patrocinadores atentos. Katheryn seria homenageada como grande doadora, um título cuidadosamente cultivado ao longo dos últimos meses — nada podia sair do lugar. E Taylor deveria estar ali.

Às nove, Katheryn perguntou por ela.

Às dez, já exigia respostas.

— Ela não ligou? — perguntou, ríspida, Sabrina governanta.

Negativo.

Nenhuma mensagem. Nenhuma justificativa. Nenhum pedido de desculpas.

Katheryn sentiu o estômago se fechar. Taylor não era descuidada. Não era impulsiva. Muito menos irresponsável. Aquilo não era um atraso — era uma falha grave, e no pior dia possível.

John ajustava a gravata diante do espelho do corredor quando ela o alcançou.

— O que aconteceu? — perguntou, baixa, mas cortante. — Você falou com ela ontem?

Ele hesitou o suficiente para ser notado.

— Não. — respondeu. — Vi-a rapidamente no mercado, como você também a viu.

Katheryn deu um passo à frente, os olhos claros endurecendo.

— Não minta para mim, John. — disse, em tom controlado demais para ser calmo. — Eu vejo vocês dois cochichando pelos corredores há semanas. Vejo seus olhares. Vejo quando você some.

Ele abriu a boca para responder, mas ela o interrompeu.

— Seja o que for que você fez… — aproximou-se ainda mais — não faça merda novamente.

A frase ficou suspensa no ar, pesada demais para ser casual.
Não era a primeira vez. E ambos sabiam disso.

John desviou o olhar.

Katheryn respirou fundo, recompôs o rosto e virou-se com a elegância ensaiada de quem jamais permitiria que um escândalo, ou uma babá, arruinasse um plano maior.

Na cozinha, o clima também mudara.

Sabrina havia ouvido parte da conversa ao passar pelo corredor com uma bandeja de taças. Não ouvira tudo, mas ouvira o suficiente. Ao meio-dia, durante o almoço dos funcionários, a história já tinha corpo próprio.

— A Taylor não apareceu. — disse Sabrina, baixando a voz, teatral. — Justo hoje.

— Estranho. — Jason comentou. — Ela nunca falta.

Amira trocou um olhar rápido com Salma.

— Rachel perguntou por ela a manhã toda. — disse Salma. — Chorou no quarto.

— Eu vi o John discutindo com a Katheryn. — Sabrina continuou. — E não foi discussão pequena.

— Vocês acham que… — Jason hesitou — aconteceu alguma coisa com a Taylor?

O silêncio que se seguiu foi desconfortável.

— Eu já o vi encurralar ela antes. — Sabrina murmurou. — Não desse jeito, mas… — deu de ombros.

Juan permaneceu calado, o prato intacto à sua frente. Os olhos baixos, atentos demais para alguém alheio à conversa.

Ele sabia mais do que dizia.

E, naquele domingo, pela primeira vez, teve medo de que John tivesse ido longe demais.

Enquanto isso, no andar de cima, Katheryn ajustava o vestido diante do espelho, sorrindo para a própria imagem.

O evento aconteceria. Com ou sem Taylor.

[CONTINUA]

Nenhum comentário:

comente por favor!