Abriu a porta de casa com as mãos
ainda trêmulas, largou as sacolas sobre a mesa sem cuidado algum e seguiu
direto para o banheiro. Não houve tempo para respirar. Vomitou. O corpo inteiro
reagia como se tivesse sido exposto a algo tóxico demais para ser digerido.
Calafrios subiam-lhe pela espinha, a
testa fria, o estômago em revolta.
— Taylor? — a voz de Blake veio do
corredor, alarmada. — Você está bem? Foi alguma coisa que comeu?
Antes que Taylor respondesse, Selena
já estava ali, braços cruzados, o rosto fechado.
— Não foi comida. — disse, dura. — Foi
aquele homem.
Taylor abriu a porta do banheiro com
brusquidão.
— Selena, não fale nada.
— Não fale nada? — Selena retrucou, a
voz baixa, mas cortante. — Meu Deus, Taylor, eu não vou mentir por você. Não
quando isso é claramente perigoso.
— Selena… — Taylor tentou.
— Conte para a Blake. — interrompeu. —
Ou eu conto.
Blake olhava de uma para a outra,
completamente perdida.
— Contar o quê? — perguntou. — Do que
vocês estão falando?
— Não é nada, Blake… — Taylor disse
rápido demais.
— É sim. — Selena insistiu, firme. — E
eu não vou carregar isso sozinha.
Houve um silêncio pesado. Taylor
apoiou as mãos na pia, respirando fundo, evitando o espelho.
Selena desviou o olhar por um
instante, como se organizasse os próprios pensamentos, então falou:
— Eu já o vi antes. — confessou. —
Algumas vezes. No Borough Market. Sozinho. Observando. Mais de uma vez.
Blake franziu o cenho.
— Ele… quem?
— Ele está te seguindo, Taylor. —
Selena completou. — Isso é óbvio.
Taylor fechou os olhos por um segundo
longo demais.
— Eu sei, Selena. — respondeu, por
fim. — Eu sei.
— Sabe?! — Blake arregalou os olhos. —
Sabe quem é esse homem?
Taylor passou a mão pelo rosto,
exausta.
— Faz parte do plano. — disse. — Ele
quer se aproximar de mim, mas eu mantenho distância. O suficiente. Está tudo
sob controle.
Selena riu, sem humor algum.
— Sob o seu controle? — deu um passo à
frente. — Ou sob o controle dele?
Taylor não respondeu.
— O que vai acontecer quando ele
descobrir? — Selena continuou. — O que você vai fazer quando ele tentar… — a
voz falhou por um segundo — quando ele tentar te beijar?
Blake levou a mão ao peito.
— Do que você está falando?
Selena explodiu.
— John. John Mayer. — cuspiu o nome. —
Foi ele quem abandonou a Taylor anos atrás. Você conhece essa história, Blake.
Ou pelo menos parte dela.
Blake levou a mão à boca, chocada.
— E agora… — Selena continuou, sem
conseguir mais conter a raiva — agora ela trabalha para ele. É babá da filha
dele. E acha que está no controle, quando na verdade está dançando com o diabo.
O silêncio que se seguiu foi
ensurdecedor.
Taylor ergueu o olhar lentamente.
— Não é vingança cega. — disse, a voz
baixa, firme. — Eu sei exatamente quem ele é. Sei como ele pensa. Sei o que ele
quer.
— Não. — Selena rebateu. — Você acha
que sabe. E isso é o que mais me assusta.
Blake aproximou-se devagar.
— Taylor… — falou com cuidado. — Você
nunca me contou tudo. Só pedaços. E agora… agora parece grande demais pra você
carregar sozinha.
Taylor sentiu algo se quebrar por
dentro. Não chorou. Não ainda.
— Eu preciso terminar o que comecei. —
murmurou. — Estou perto demais para recuar.
Selena respirou fundo, mais contida
agora.
— Então você precisa entender uma
coisa. — disse. — Ele não te encontrou por acaso no mercado. Aquilo foi
planejado. E hoje… — hesitou — hoje ele te olhou como alguém que já acha que
possui.
Taylor sentou-se no chão frio do
banheiro, apoiando as costas na parede.
Pela primeira vez desde o Borough
Market, o medo ultrapassou a estratégia.
— Ele está se aproximando rápido
demais. — sussurrou.
Selena ajoelhou-se à sua frente.
— E você precisa decidir se vai
continuar fingindo que isso faz parte do plano… ou se vai admitir que o plano
já não é só seu.
Blake foi a primeira a romper o
silêncio.
— Qual é o plano de verdade, Taylor? —
perguntou, mais contida agora. — Não o que você repete pra si mesma. O real.
Taylor demorou a responder. Quando
ergueu o rosto, havia menos defesa e mais exaustão.
— Eu quero me vingar. — disse, por
fim. — Não no sentido infantil. Não gritando ou expondo nada sem provas. Eu
quero… atingir o que ele construiu. A reputação, o controle que ele tem de
tudo. — respirou fundo. — Pensei em atrapalhar a peça que ele monta, descobrir
algo do estúdio, algo que o fragilize. Ou informações. Se ele me machucou
daquele jeito… — a voz falhou — talvez não tenha sido só comigo.
Blake arregalou os olhos.
— Então você quer provar quem ele é de
verdade.
— Sim. — Taylor assentiu. — Mas ainda
não tenho nada palpável. Só sinais, padrões, olhares, toques. Nada que se
segure sozinho.
Blake inclinou-se para frente,
impulsiva.
— Então a gente constrói isso juntas.
— disse. — Você não precisa fazer isso sozinha. Eu posso ajudar a observar,
pesquisar, cruzar informações—
— Não. — Selena cortou, firme, quase
dura. — É exatamente assim que tudo sai do controle.
Ela se aproximou de Taylor,
ajoelhando-se à sua frente, segurando-lhe as mãos.
— Você está se enganando se acha que
isso ainda é estratégia. — disse, com cuidado, mas sem suavizar demais. — Isso
já virou risco. Você está dentro da casa dele. Dentro da família dele. Ele já
te vê. Já te deseja. — respirou fundo. — E você já perdeu demais por causa
desse homem.
Taylor desviou o olhar.
— Seus pais… — Selena continuou, a voz
embargada — morreram enquanto você ainda tentava se recompor. E o balé, Taylor,
era quem você era antes de tudo ruir.
Taylor fechou os olhos. O peso veio
inteiro, sem filtros.
— Você não pode se destruir tentando
consertar o passado. — Selena concluiu. — Às vezes, a única vitória é se
afastar.
O silêncio que se seguiu foi pesado
demais.
— Selena tem razão. — Blake concluiu. —
Seria loucura se nós continuássemos...
— Mas eu também não posso desistir
agora. — disse Taylor.
— E nem se sacrificar por eles. —
Selena disse. — Ainda tem muito para viver. E ser feliz.
Ela assentiu.
Naquela noite, Taylor quase não
dormiu.
A casa Mayer estava em ebulição desde
cedo. O evento beneficente daquela noite exigia precisão absoluta: jornalistas
confirmados, convidados estratégicos, patrocinadores atentos. Katheryn seria
homenageada como grande doadora, um título cuidadosamente cultivado ao
longo dos últimos meses — nada podia sair do lugar. E Taylor deveria estar ali.
Às nove, Katheryn perguntou por ela.
Às dez, já exigia respostas.
— Ela não ligou? — perguntou, ríspida,
Sabrina governanta.
Negativo.
Nenhuma mensagem. Nenhuma
justificativa. Nenhum pedido de desculpas.
Katheryn sentiu o estômago se fechar.
Taylor não era descuidada. Não era impulsiva. Muito menos irresponsável. Aquilo
não era um atraso — era uma falha grave, e no pior dia possível.
John ajustava a gravata diante do
espelho do corredor quando ela o alcançou.
— O que aconteceu? — perguntou, baixa,
mas cortante. — Você falou com ela ontem?
Ele hesitou o suficiente para ser
notado.
— Não. — respondeu. — Vi-a rapidamente
no mercado, como você também a viu.
Katheryn deu um passo à frente, os
olhos claros endurecendo.
— Não minta para mim, John. — disse,
em tom controlado demais para ser calmo. — Eu vejo vocês dois cochichando pelos
corredores há semanas. Vejo seus olhares. Vejo quando você some.
Ele abriu a boca para responder, mas
ela o interrompeu.
— Seja o que for que você fez… —
aproximou-se ainda mais — não faça merda novamente.
A frase ficou suspensa no ar, pesada
demais para ser casual.
Não era a primeira vez. E ambos sabiam disso.
John desviou o olhar.
Katheryn respirou fundo, recompôs o
rosto e virou-se com a elegância ensaiada de quem jamais permitiria que um
escândalo, ou uma babá, arruinasse um plano maior.
Na cozinha, o clima também mudara.
Sabrina havia ouvido parte da conversa
ao passar pelo corredor com uma bandeja de taças. Não ouvira tudo, mas ouvira o
suficiente. Ao meio-dia, durante o almoço dos funcionários, a história já tinha
corpo próprio.
— A Taylor não apareceu. — disse
Sabrina, baixando a voz, teatral. — Justo hoje.
— Estranho. — Jason comentou. — Ela
nunca falta.
Amira trocou um olhar rápido com
Salma.
— Rachel perguntou por ela a manhã
toda. — disse Salma. — Chorou no quarto.
— Eu vi o John discutindo com a Katheryn.
— Sabrina continuou. — E não foi discussão pequena.
— Vocês acham que… — Jason hesitou —
aconteceu alguma coisa com a Taylor?
O silêncio que se seguiu foi
desconfortável.
— Eu já o vi encurralar ela antes. —
Sabrina murmurou. — Não desse jeito, mas… — deu de ombros.
Juan permaneceu calado, o prato
intacto à sua frente. Os olhos baixos, atentos demais para alguém alheio à
conversa.
Ele sabia mais do que dizia.
E, naquele domingo, pela primeira vez,
teve medo de que John tivesse ido longe demais.
Enquanto isso, no andar de cima,
Katheryn ajustava o vestido diante do espelho, sorrindo para a própria imagem.
O evento aconteceria. Com ou sem
Taylor.
[CONTINUA]
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