[conto revisado em setembro de 2025]
I
Selena caminhava distraída pela rua,
equilibrando-se na estreita linha entre a calçada e o asfalto como fazia desde
criança. Tinha os cabelos ondulados caindo pelos ombros, olhos escuros atentos
demais para alguém que dizia não se importar, bochechas cheias e lábios finos
realçados por um brilho transparente. Vestia um vestido azul-claro simples e
calçava o mesmo All Star preto, gasto e antigo, que carregava desde os quinze
anos.
Ela parou de repente.
Inclinou a cabeça para a esquerda e
sorriu — um sorriso conhecido por toda a cidade. A poucos metros dali, através
de uma janela aberta demais para um domingo de manhã, viu algo que, segundo
tudo o que sabia, não deveria estar acontecendo.
Demetria.
Sua antiga amiga de infância, afastadas
anos antes por interferência dos pais e por um novo namorado, estava nua da
cintura para cima, beijando Joseph com uma urgência que não deixava margem para
dúvidas. O detalhe irônico — e irresistível — era que Demetria era protestante
e mantinha um voto público de celibato até os vinte e um anos.
Selena virou o rosto, pegou o celular
e abriu o Instagram. Escolheu o primeiro filtro de stories, tirou uma selfie
aparentemente inocente e fez questão de enquadrar, ao fundo, a cena
comprometedora. Na legenda, escreveu apenas:
“Uma caminhada em pleno domingo de
manhã.”
Publicou.
O resto das próximas vinte e quatro
horas que falassem por si.
Deu de ombros, observou o rapaz
desaparecer da janela entre beijos, e seguiu seu caminho até o mercado para
comprar os pães que a mãe pedira. Era véspera do Dia dos Veteranos, e seu pai,
um veterano da Marinha, retornaria à cidade após meses fora.
Ela levou quase meia hora para voltar
para casa — Selena sempre se perdia em detalhes.
— Selena! — a mãe exclamou ao vê-la
entrar. — Que demora.
— Estava dando uma caminhada —
respondeu, sorrindo. — Onde está o papai?
— Tomando banho. — Mandy começou a
guardar as compras. — Este ano vamos levar dois pratos para a festa da cidade.
E você podia fazer seu bolo.
— Eles não merecem — Selena resmungou.
— Quem?
— A cidade. Não os veteranos —
corrigiu-se rapidamente ao perceber o olhar da mãe.
Subiu para o quarto, jogou-se de
bruços na cama e pegou o celular. O story já passava de cinquenta
visualizações. Entre elas, reconheceu o nome da melhor amiga de Demetria.
Sorriu satisfeita, largou o celular do outro lado da cama e fechou os olhos.
Quando ouviu o chuveiro desligar,
levantou-se num pulo.
Abriu a última gaveta, pegou roupas
velhas e manchadas, vestiu-as às pressas. Espalhou pelo corpo um líquido
vermelho que imitava sangue. Quando a maçaneta girou, jogou-se no chão, imóvel,
olhos arregalados, ardendo pela falta de piscadas.
— Não! — ouviu o grito do pai. — Temos
uma vítima aqui!
Brian a pegou no colo e correu pela
casa, colocando-a no sofá.
— Corre, Mandy! — chamou. — Ela ainda
respira!
— Vocês ainda brincam com isso… —
Mandy bufou.
— Ora, Mandy — disse Brian, rindo
enquanto levantava a filha. — É só uma brincadeira.
Selena se ergueu e o abraçou com
força. Ele a pegou no colo como quando era pequena. Ficaram assim por longos
minutos, corações batendo em ritmos diferentes, unidos pela mesma saudade.
Era uma brincadeira antiga.
Desde criança, Selena crescera sem a
presença constante do pai. Brian servia há treze anos no Afeganistão. Em uma de
suas voltas, contou à família que não conseguira salvar uma menina atingida por
tiros — tinha a idade de Selena. Desde então, aquela encenação era uma
tentativa silenciosa de salvamento repetido, uma memória reescrita.
Horas se passaram enquanto o pai
contava as novidades do Afeganistão — os combates, as perdas, as vítimas. Cada
palavra parecia hipnotizar Selena. Em troca, ela falava sobre Corning, a
pequena cidade que jamais mudava.
— Nada de novo — repetia, dando de ombros.
Poucos minutos antes de saírem de casa
rumo à residência dos Gomez, Selena avistou a antiga amiga parada do outro lado
da rua, entre os pais. Diana e Patrick estavam ali, rígidos, com Demetria entre
eles.
— Boa noite — Brian cumprimentou com
um sorriso cordial. — Estão indo para a festa?
Patrick não respondeu de imediato.
Seus olhos permaneceram fixos em Selena.
— Queremos conversar com vocês sobre o
que sua filha fez esta manhã — disse, ríspido.
— O que a Selena fez? — Mandy se
adiantou, a voz firme.
Sem pedir permissão, Patrick arrancou
o celular das mãos da filha.
— Demetria, me dê isso.
Ele abriu a galeria e estendeu o
aparelho na direção de Brian.
— Veja.
Brian franziu o cenho, aproximando o
rosto da tela.
— O que exatamente tem nessa foto da
minha filha?
— Olhe melhor, major — Patrick
rebateu, a voz carregada de desprezo. — Sua filha expôs a minha para a cidade
inteira.
— Eu não fiz nada disso! — Selena
elevou a voz, o nervosismo escapando. — É uma foto minha!
— Ao fundo, com a minha filha
transando com o namorado dela? — Patrick deu um passo à frente, invadindo o
espaço de Selena.
— Pode ter sido um mal-entendido,
Patrick — Mandy tentou intervir.
— Apague agora, garota! — Patrick
ergueu a mão.
Num reflexo imediato, Brian se colocou
à frente da filha, bloqueando qualquer aproximação.
— Nunca fale assim com a minha filha —
disse, em tom baixo e controlado. — Vá embora. Isso é melhor para você.
— Antes ela apaga essa foto — insistiu
Patrick. — Expor minha filha dessa maneira é inaceitável.
Foi então que Demetria ergueu o rosto.
O silêncio caiu pesado quando todos
viram o vergão vermelho, inchado, marcando-lhe a bochecha. Não foi preciso
dizer nada. Todos compreenderam o que havia acontecido. Patrick sempre fora
conhecido por seu conservadorismo rígido — e por cruzar limites.
Naquele instante, o estômago de Selena
se revirou. O arrependimento veio rápido, sufocante. Ainda assim, ela não
desmentiu sua suposta inocência.
Pegou o celular com mãos trêmulas,
abriu o Instagram e acessou o story. Antes de apagar, lançou um olhar rápido ao
pai. Mais de cem visualizações.
Apertou o botão.
— Pronto — disse, mostrando a tela, a
voz carregada de raiva.
— Agora vá, Patrick — Brian apontou na
direção de onde haviam vindo. — E nunca mais dirija a palavra à minha filha.
Enquanto se afastavam, Selena murmurou
entre os dentes:
— Idiotas… submissas.
— Como pôde fazer isso com ela,
Selena? — Mandy segurou o braço da filha com força. — Ela era sua amiga! Aquilo
no rosto dela é culpa sua por não cuidar da própria vida!
— Eu não fiz nada! — Selena tentou se
soltar, sem sucesso. — Era uma foto minha!
— Mentirosa! — Mandy gritou. — Vá para
o seu quarto e não saia de lá pelo resto da noite!
— Mandy… — Brian tentou intervir.
— Você não está aqui para ver o que
sua filha faz com os outros! — Mandy retrucou, sem tirar os olhos de Selena.
— E o que você faz, mãe? — Selena
disparou, batendo o pé ao se virar para a porta. — Conte a ele, ou conto eu, o
que faz enquanto ele está mundo afora salvando crianças!
— Do que você está falando, Selena? —
Brian tentou se aproximar, confuso, lançando um olhar tenso para a esposa.
— Selena, vá para o seu quarto agora!
— Mandy ordenou.
Assim que entrou em casa, Selena
seguiu direto para o quarto e batendo a porta. Do lado de fora, por alguns
minutos, o silêncio imperou. Depois vieram os gritos, abafados, mas
inconfundíveis: uma discussão em curso.
Mandy sentia-se encurralada — e traída
pela confiança da própria filha. Não era para menos. Cinco semanas antes,
Selena a havia flagrado aos beijos com Tommy, um grande amigo de Brian e também
veterano. Mandy implorara para que a filha não contasse nada ao pai. Selena
sabia que aquilo era errado. E contou.
Selena sempre tivera um senso de
julgamento falho. O que considerava certo ou errado era, muitas vezes,
contraditório — quase hipócrita, embora ela jamais enxergasse assim. Parecia
estar constantemente no lugar errado, na hora errada, testemunhando coisas que
não lhe diziam respeito. Ainda assim, nunca percebia que nem tudo precisava ser
dito. No seu mundo torto, apenas uma pessoa era digna de confiança absoluta: o
pai.
— Selena, nós vamos para a festa —
Brian disse, abrindo a porta do quarto sem esperar resposta. — Vista-se. Vamos.
Mandy desviou o rosto ao passar pela
filha em direção à saída. Já do lado de fora, Brian a envolveu num abraço
rápido, protetor.
— Vamos a pé… uma caminhada — sugeriu.
Selena assentiu em silêncio.
Caminharam alguns metros antes de
Brian falar novamente.
— Por que fez aquilo com a Demi? E não
diga que não percebeu. Desde pequena você sempre foi uma ótima observadora.
— Eu… não sei — Selena respondeu,
hesitante. — Não parecia certo.
— E o que o pai dela fez com ela,
parecia certo? — Brian perguntou, a expressão endurecendo.
— Não. E acho que poderíamos
denunciá-lo — disse Selena, firme, elevando a voz.
Brian parou no meio da calçada e
segurou os ombros da filha.
— Mas isso não é da nossa conta,
Selena. — Respirou fundo. — Você acabou de jogar na minha cara a verdade sobre
sua mãe e o Tommy, sem sequer pensar no que faria depois.
— Eu só contei a verdade — insistiu. —
É tudo o que faço. E ela confirmou: traiu você. A gente deveria deixá-la.
— Você conta meias verdades para as
pessoas — Brian retomou a caminhada —, e isso também é errado. Quando vir algo
assim de novo — sua amiga, sua mãe ou tantas outras coisas que sei que você já
presenciou, pense nas consequências. Pense nos motivos. E pergunte a si mesma,
antes de agir: isso é da minha conta?
Selena engoliu em seco.
— Pai… você está decepcionado comigo?
— Um pouco, sim — ele admitiu,
esboçando um sorriso cansado. — As pessoas mentem, Selena. Mentem muito. E
muitas são más. Mas também existem pessoas que dizem a verdade e ainda assim
machucam. Foi o que você fez hoje com a Demi.
— Ela parou de falar comigo — Selena
revirou os olhos. — Disse que eu não presto. Por causa do Joseph, aquele
namorado nada puritano.
Brian soltou uma risada breve.
— Selena, isso não é da sua conta. —
Olhou para ela com ternura. — Você vê coisas, observa atitudes, entende demais
para a sua idade. Mas isso não significa que precise tomar a frente de tudo.
A garota concordou com a cabeça e
prometeu, ainda que em silêncio, cuidar da própria vida dali em diante. A
promessa, porém, não resistiu nem duas horas.
Ao chegar ao grande salão de festas da
prefeitura, Selena sentiu o peso dos olhares antes mesmo de cruzar a porta.
Sorrisos forçados, cochichos, expressões fechadas. A história envolvendo
Demetria já havia se espalhado pela cidade, e a responsável pela vergonha da
filha prodígio dos Lovato estava ali, bem à entrada.
Talvez Brian não soubesse — ou
fingisse não saber para não ferir ainda mais a filha —, mas aquela não era a
primeira vez que Selena se tornava o centro de um escândalo em Corning.
Houve o episódio do professor de
Literatura, Antonnie, cuja traição com o professor substituto de Química,
dentro do colégio, veio à tona depois de Selena comentar o que vira. A verdade
provocou um divórcio turbulento e resultou em transferências silenciosas,
justificadas como “mudanças administrativas”, mas sussurradas como punição.
Teve também o mercado do senhor Jonas,
fechado após Selena comentar sobre ratos e baratas na dispensa — algo que a
vigilância sanitária confirmou dias depois.
E a noite em que flagrou o filho do
prefeito com a irmã da própria namorada, as gêmeas Mariane e Marie. O rapaz
alegou ter sido enganado. Uma das gêmeas acabou se mudando para outro estado.
Selena, no entanto, lembrava-se perfeitamente de tê-lo ouvido chamar a cunhada
pelo nome correto.
Era justo dizer que Selena não era uma
fofoqueira impulsiva. Diferente de Demi, que poderia acusá-la de vingança,
Selena não contava tudo no mesmo instante. Observava, guardava e escolhia o
momento. O mais perturbador — e talvez o mais perigoso — era que tudo o que
dizia, em algum ponto, ser verdade.
Até mesmo seu último namoro havia
terminado por isso. Não demorou para que o rapaz perdesse toda a credibilidade
quando Selena revelou a traição que ele insistia em negar.
Brian envolveu os ombros da filha com
um abraço discreto e caminhou com ela pelo salão, cumprimentando conhecidos.
Selena respirava fundo repetidas vezes, tentando não se deixar intimidar pelos
colegas da escola.
Em determinado momento, afastou-se do
pai para falar com Justin, que servia ponche para si mesmo. Ao vê-la, pegou
outro copo e lhe estendeu.
Eles se cumprimentaram e Selena se
virou para a mesa de salgados.
— Estão falando de você — Justin
comentou, rindo de leve. — De novo.
— Imagino — ela deu de ombros. — Cadê
sua mãe?
— Ficou em casa — respondeu, com a voz
um pouco embargada. — Ela não está nada bem desde a quimioterapia.
— Sinto muito — Selena o abraçou
rapidamente. — Acho que meu pai não vai fazer nada em relação à minha mãe...
— Deixe os adultos resolverem isso,
Selena — Justin disse, rápido. — Não vire agora… mas as garotas estão vindo na
nossa direção.
Selena largou o copo de ponche e se
virou de qualquer jeito, fazendo Justin balançar a cabeça em desaprovação.
Era Demetria, com os cabelos caindo à
frente do rosto, acompanhada da melhor amiga, Miley.
— E a Gomez agiu novamente — Miley
disse, empurrando Selena de lado para pegar o ponche.
A garota permaneceu em silêncio,
sustentando o mesmo sorriso fixo no rosto. Tentou ignorar Justin ao seu lado,
mas Miley esbarrou nela de propósito, fazendo o ponche se espalhar pelo
vestido.
Selena abriu os braços lentamente,
olhando para si mesma, agora manchada. Usava um vestido branco, simples, na
altura dos joelhos. O líquido cor de vinho escorria pelo tecido — uma marca que
jamais sairia por completo.
— Vamos, Demi! — Miley riu alto,
puxando a amiga pelo braço.
— Miley — Selena a chamou, a voz
firme, desafiadora. — Onde está o Liam?
Miley parou e se virou, o deboche
escorrendo no sorriso.
— O que você quer agora, Selena? Mais
uma mentira? Ou outra revelação?
— Nenhuma das duas — Selena deu de
ombros. — Só queria desejar boa sorte.
— O quê? — Miley avançou um passo, os
olhos carregados de raiva.
— Boa sorte — Selena repetiu, cínica.
— Ele engravidou a Tanya von Showender. Você não sabia?
— Outra mentira — Miley riu, nervosa
demais para parecer natural.
— Eles jogavam no mesmo time de
futebol — Selena continuou, tranquila demais. — Viajavam juntos. Lembro bem dos
dois sentados sempre nos últimos bancos do ônibus. Ela nunca dormia no quarto
do hotel. — Fez uma breve pausa. — Tanya se mudou da cidade há três meses.
Curioso que o Liam também passou a viajar quase todo fim de semana desde então.
Selena inclinou a cabeça de lado.
— Acho que não é mentira. E, se me
permite um palpite… é uma menina.
A mão de Miley se ergueu, pronta para
atingir o rosto de Selena, mas Demetria a segurou pelo pulso, apontando
discretamente para os olhares curiosos ao redor.
— Deseje boa sorte ao Liam — Selena
concluiu, pegando novamente o copo de ponche. Em seguida, puxou Justin pelo
braço. — E você, como sempre, burra demais para perceber.
Selena procurou o pai no meio da
multidão. Encontrou-o. Os olhos do pai, azuis e duros, carregavam uma decepção
silenciosa. Aquilo a atingiu com mais força do que qualquer tapa poderia. O
coração se partiu em dois — dividido entre arrependimento e a certeza amarga de
que não faria diferente.
Saiu do salão antes que alguém pudesse
detê-la.
Do lado de fora, uma frente fria
invadiu seu corpo de imediato. Tossiu, apertando o vestido sujo contra a pele,
e começou a caminhar sozinha em direção a casa. Quase quatro quilômetros. Na
ida, havia sido uma conversa leve com o pai. Na volta, apenas o som dos
próprios passos, o frio cortante, os calafrios e a dor nos pés.
Quando finalmente entrou em casa, tudo
estava apagado. Não acendeu nenhuma luz. Subiu direto para o quarto e se jogou
na cama, ainda com o vestido grudento e manchado.
— Merda de dia — murmurou, pela última
vez, antes de adormecer.
II
Selena acordou e voltou a dormir ao menos três vezes antes que o despertador
tocasse pela última vez, insistente, até que ela o desligasse com irritação.
Ainda meio sonolenta, virou o rosto para a escrivaninha — e então congelou.
Havia uma pequena árvore ali.
Sentou-se na cama, bocejou duas vezes
e só então se levantou, aproximando-se devagar, como se qualquer movimento
brusco pudesse fazê-la desaparecer. Girou o pequeno suporte que segurava o vaso
e inclinou o rosto para sentir o cheiro. Era real. As folhas verdes, vivas,
pareciam cintilar sob a luz da manhã; o tronco, marrom e firme, contrastava com
a simplicidade do quarto.
Selena sorriu.
Ao lado do vaso, repousava um pedaço
de pergaminho antigo, amarelado pelo tempo. Assim que o tocou, o papel começou
a se desfazer entre seus dedos, obrigando-a a ler rápido.
— Mil palavras até calar-se para
sempre. Faça o certo e falará; ao contrário, calar-se-á para sempre — leu
em voz baixa.
O bilhete se desfez por completo.
— O quê? — Selena riu, incrédula.
Voltou o olhar para a árvore no mesmo
instante em que algumas folhas se desprenderam, caindo ao redor da
escrivaninha. O verde brilhante se apagou, tornando-se seco e quebradiço.
Selena apanhou uma delas entre os dedos.
Estava morta.
— Que pena…
Outras duas folhas caíram.
Ela se aproximou mais da árvore, agora
desconfiada, mas ainda assim sorriu, como se aquilo fosse apenas uma
brincadeira de mau gosto. Virou-se e saiu do quarto em direção ao banheiro.
No relógio pendurado no fim do
corredor, percebeu que estava atrasada para o colégio. Aprontou-se às pressas.
A casa permanecia mergulhada em um silêncio pesado. Os pais não trocaram uma
palavra sequer quando ela passou pela cozinha recolhendo o material. Ainda
assim, Selena sentiu os olhos da mãe a acompanharem enquanto enfrentava o café
da manhã mais infeliz de sua vida.
Não se sentou à mesa. Recusou-se até
mesmo a beber água. Roubou um biscoito para enganar o estômago e saiu de casa,
deixando escapar um tchau quase inaudível.
O coração batia frio no peito, um nó
apertava-lhe a garganta. Caminhava de olhos baixos, observando a calçada,
segurando com força as alças da mochila, tentando conter a raiva que sentia do
mundo — e de si mesma.
Ao lançar um olhar por cima do ombro,
percebeu os olhares dos vizinhos, os cochichos mal disfarçados. Era sobre ela.
Disso não restava dúvida.
Depois da noite anterior, Selena
decidiu que tentaria fazer o que o pai pedira. Não se intrometer na vida dos
outros. Forçaria a si mesma a isso. Talvez já tivesse destruído coisas demais,
inclusive dentro da própria casa.
Parou em frente ao colégio e se
abaixou para amarrar o cadarço. Deu três nós, do jeito que o pai lhe ensinara —
um, dois… perfeito. Ainda assim, algo a prendia ali.
Ela não queria entrar.
Respirou fundo, ajustou as alças da
mochila e atravessou a avenida larga até a escadaria da escola.
Logo na entrada, mais olhares a
atingiram. As bochechas carnudas e os lábios pequenos não denunciaram
intimidação alguma. Pelo contrário, Selena abriu um sorriso ao encontrar a
única pessoa que a olhou com verdadeiro brilho nos olhos.
Justin.
Ele beijou-lhe o rosto com carinho e a
puxou para longe da confusão da entrada, como se soubesse exatamente do que ela
precisava.
— Está tudo bem? — Justin perguntou, a
testa franzida de preocupação.
— Claro que não — Selena respondeu,
tossindo levemente. — Meu pai ficou furioso com o que aconteceu. Tenho certeza
de que não vou sair de casa tão cedo. — Fez uma pausa. — Acho que estou ficando
doente.
— Seu pai nunca ficou tão bravo assim
com você.
— É… ele pediu para eu não me meter
nos problemas dos outros. — Revirou os olhos. — Justin, seja sincero comigo. Eu
sou uma má pessoa?
— Claro que não — ele sorriu, tentando
tranquilizá-la. — Acho que você é… inocente.
— Inocente? — Selena franziu a testa.
— Como assim?
— Você percebe as coisas, pelo menos
algumas delas, mas não sabe lidar com tudo o que vê. O mundo não é preto e
branco, Selena. Não existe só certo e errado. E, às vezes, você presta atenção
no que não deveria… e diz o que vê, quando talvez não devesse.
Selena balançou a cabeça, o olhar
endurecendo.
— Uau. Guardava isso há quanto tempo?
— disse, decepcionada. — A gente se vê no intervalo.
Virou-se e saiu pelo corredor sem
olhar para trás.
Justin ficou parado por um instante,
chateado com a reação da amiga. Não era sua intenção magoá-la. Suspirou, foi
até o armário pegar o material e só então lembrou que teriam aula juntos logo
pela manhã.
Seguiu Selena até o segundo andar e
sentou-se ao seu lado na sala de Química.
— Esqueci que tínhamos Química juntos
— Selena comentou, com um sorriso debochado. — E, só para constar, não sou
inocente.
— Tudo bem…
— Não, estou falando sério — ela o
interrompeu. — Eu sei que o mundo é mais do que verdade ou mentira. Só não
concordo em viver nessa hipocrisia. Minha mãe mente, as pessoas mentem… mas pra
quê?
— Você nunca teve nada a esconder? —
Justin perguntou.
— Não! — respondeu de imediato, sem
pensar. — Quer dizer… não tenho nada do que me envergonhar.
— Nem dessas folhas no seu cabelo? —
ele riu, apontando.
Selena se afastou da mesa e passou a
mão pelos cabelos lisos. Retirou três pequenas folhas presas entre os fios.
Assim que tocaram sua palma, murcharam, secando rapidamente. Ela as deixou cair
no chão.
— Acho que são da árvore que meu pai
me deu.
— Ele te deu uma árvore, mesmo bravo?
— Acho que ia me dar antes… acabou
dando de qualquer jeito. — Deu de ombros. — É pequena, só de enfeite no meu
quarto.
— Pensei que fosse uma árvore enorme, para
parar no seu cabelo.
— E eu pensei que só eu fosse a
curiosa da cidade — Selena forçou um sorriso.
Justin percebeu que ela ainda estava
irritada e decidiu não insistir. No mesmo instante, o professor de Química
entrou na sala.
O karma, afinal, parecia real.
Selena bufou quando sentiu algo
deslizar pelos cabelos. Outra folha caiu. Ela a segurou na palma da mão e
observou enquanto morria lentamente.
— Que saco — murmurou, passando a mão
pela cabeça à procura de mais.
Selena entrou em casa e passou direto
pela mãe, em silêncio, sem sequer diminuir o passo.
— Não vai dizer nada? — Brian analisou
a filha de cima a baixo. — Educação?
— Dizer o quê? Boa tarde? — Selena
respondeu com desdém, sem parar. — Boa tarde, pais!
Arrastou a mochila pelo chão até o
quarto e, ao abrir a porta, parou abruptamente.
A cômoda estava suja. O chão, coberto
de folhas e flores secas, todas em tons de marrom apagado, quebradiças ao
toque. Selena revirou os olhos, irritada, e entrou pisando sobre os restos
mortos.
— Ótimo — murmurou.
Pegou o vaso médio onde a árvore
ficava e saiu do quarto, atravessando a casa a passos duros.
— Essa merda está morta e ainda sujou
o meu quarto! — disparou, furiosa. — Vou jogar no lixo.
Os pais apenas observaram enquanto ela
seguia até o quintal dos fundos e despejava a árvore dentro da grande lixeira.
Ao voltar para dentro, mal deu dois
passos.
Selena caiu no chão com um baque seco.
Um gemido de dor escapou-lhe dos
lábios. O peso no abdômen era esmagador, como se algo a puxasse para dentro de
si mesma. As pernas não respondiam.
— Selena! — Brian se ajoelhou ao lado
da filha, segurando-lhe a cabeça. — Selena, olha para mim!
Lágrimas desciam pelo rosto dela,
misturadas ao desespero. Mandy permaneceu imóvel por um segundo longo demais,
os olhos arregalados, antes de também começar a chorar.
— Brian… o que está acontecendo? —
Mandy perguntou, em pânico.
— Eu não sei! — respondeu, a voz
falhando. — Pegue a chave do carro. Agora! Vamos levá-la ao hospital. Selena,
querida, fala comigo!
Selena abriu os olhos com dificuldade
e encarou o pai. Seu olhar era um pedido silencioso, piedoso, atravessado pela
dor. Mandy correu para buscar as chaves enquanto Brian a tomava nos braços.
Poucos segundos depois, os três
estavam no carro. Mandy dirigia em disparada, o olhar alternando entre a
estrada e o retrovisor, onde Brian tentava manter Selena consciente.
O carro parou bruscamente na entrada
do pronto-socorro. Brian saiu apressado, a filha ainda nos braços, e a colocou
na primeira maca disponível.
— Ajuda aqui! — gritou.
Dois médicos correram em sua direção.
— O que aconteceu? — perguntou um
deles, um homem de meia-idade.
— Eu não sei — Brian respondeu,
desesperado. — Ela chegou do colégio e simplesmente caiu no chão, com muita
dor. Ela não tem nenhum problema de saúde.
— Vamos cuidar dela — disse o médico.
— Fiquem aqui.
Selena segurava o abdômen com força
enquanto era empurrada pelo corredor. O teto branco do hospital passava rápido
demais acima de seus olhos. Vozes ecoavam ao redor, distantes, misturadas.
A dor cresceu.
Ela fechou os olhos.
E então, tudo escureceu.
III
Abriu os olhos e encontrou os pais
sentados à sua direita. Tornou a fechá-los imediatamente; o som da televisão
era incômodo demais.
— O que aconteceu? — perguntou, com a
voz baixa.
A mãe sorriu ao perceber a filha mais
desperta, embora a cena de terror ainda rondasse a mente do casal. Brian saiu
apressado pelo quarto do hospital e chamou os médicos que conversavam no
corredor. Segundos depois, os três retornaram.
— Selena, como está se sentindo? —
perguntou o médico de meia-idade, observando-a com atenção. — Melhor?
— Sim… bem melhor. O que houve?
— Conversamos com seus pais e,
sinceramente, não encontramos uma explicação clara. Fizemos uma bateria
completa de exames e não há nada anormal. Você consegue nos dizer o que sentiu?
— Eu estava entrando em casa e… —
Selena hesitou. — Caí. Foi uma dor insuportável, como se… como se algo muito
pesado tivesse caído sobre mim. — Passou a mão pelo abdômen. — Ainda dói.
— Imagino. Deve ter sido terrível. —
Ele sorriu de forma contida. — Vamos mantê-la em observação esta noite e
investigar melhor essa dor.
— O senhor acha que estou mentindo?
— Existem dois tipos de mentira neste
hospital, Selena. — Ele a encarou com firmeza gentil. — E eu posso afirmar, com
anos de experiência, que você não mentiu quando chegou aqui. — Sorriu
novamente. — Voltarei mais tarde.
Quando ficaram a sós, Selena
recostou-se na cama e levou a mão à barriga. Levantou a blusa: tudo parecia
normal, intacto. Ainda assim, a sensação de algo atravessando seu corpo mais
cedo a fez arrepiar. Fechou os olhos por alguns segundos.
— Filha… — Mandy tentou segurar sua
mão. — Está tudo bem? Você se lembra do que aconteceu?
— Está tudo bem! — respondeu Selena, ríspida.
Brian respirou fundo.
— Sua mãe e eu conversamos esta manhã.
Quer saber sobre o quê?
Ele sentou-se na beirada da cama e
encarou a filha. Era óbvio que ela queria saber.
— Muitos anos atrás, antes de conhecer
sua mãe, eu namorava outra mulher. De outra cidade. Quando meu pai decidiu
voltar, achei que fosse o fim do mundo… até conhecer Mandy. A mulher mais linda
que já vi. Mesmo assim, não fui capaz de ficar só com ela. Queria mais, sempre
mais. Não demorou para que as duas descobrissem. Eu escolhi sua mãe. Sempre
escolhi. Errei muito, mas não me arrependo de ter lutado por ela… nem de termos
feito você. — Sua voz suavizou. — Mas quando fui convocado pela primeira vez, tudo
mudou. Uma missão virou duas, depois anos. Deixei sua mãe te criando sozinha.
E, ainda assim, ela foi melhor do que eu jamais conseguiria ser. — Brian olhou
para Mandy. — Ela está infeliz, e eu não a culpo. Disse a ela que, se quisesse
ir embora… eu entenderia.
— Quisesse outro homem? — Selena perguntou, direta. — E você, outra mulher?
— Não há mulheres no Oriente Médio — Brian riu sem humor. — Mas sim… outro
homem.
— É pior do que eu imaginava. — Selena se encolheu, afastando-se dos dois.
Mandy respirou fundo antes de
responder.
— Selena, o que você sabe sobre a
vida? O que fez até agora? Tem dezessete anos e coleciona fofocas e segredos.
Você poderia ser muito mais do que isso. Sempre admirei o quanto você observa
as pessoas, mas você não é uma justiceira da verdade nem dos bons costumes.
— Ah, claro. — Selena ironizou. —
Chegamos à parte em que todo mundo diz a mesma coisa.
— Talvez porque você já tenha ido longe demais — rebateu a mãe. — Nós queremos
o seu bem.
— E o que é o meu bem? — Selena
retrucou. — Ficar calada como vocês querem? Fingir que é normal meu pai aceitar
traição? Ou que todo mundo mente o tempo inteiro? Eu também devo mentir?
— Não estamos aqui para discutir isso.
— Brian passou a mão pelo rosto da filha. — Estamos aqui porque nos importamos.
Sua aprovação pouco importa agora. Outras pessoas pensariam o mesmo, se você
não as prejudicasse com suas verdades. Guarde suas críticas para si.
Selena soltou uma risada debochada,
sem entender exatamente o porquê. Apenas riu. Deitou-se e pegou o controle
remoto, passando os canais da TV aberta sem atenção. Os pais se entreolharam;
Mandy foi embora, e Brian ficou para acompanhá-la.
— Vou deixar sua mãe no
estacionamento.
Selena não respondeu. Esperou os dois
saírem para desligar a televisão e fechar os olhos.
O sono leve a mantinha alerta aos sons
do corredor. Um estalo repentino a despertou de vez. Seus lábios se curvaram
para baixo, e os olhos reviraram ao ver a maldita árvore sobre o criado-mudo. O
pai dormia profundamente em uma poltrona próxima.
Ela esticou o braço e pegou o bilhete
ao lado.
— “Gastando palavras sem motivo. Pouco
a pouco, seu direito de defesa desaparece. Use suas palavras com sabedoria ou
cale-se para sempre.” — leu em voz baixa e riu. — Péssimo poema, papai.
Amassou o papel e o jogou ao lado da
árvore, que deixava cair pequenas folhas verdes pelo chão. Aquilo a fez pensar,
mas o quarto estava escuro demais, e o remédio já começava a pesar. Virou-se
para o outro lado e, enfim, adormeceu.
IV
— Nada! Não tenho nada. Até parece que
fui parar no hospital só porque não queria ir ao colégio!
— Ninguém vai pensar isso, querida.
— Dane-se o que pensam. Não foi isso
que você disse, papai?
— E agora, o que pretende fazer?
— Repousar, como o médico pediu. —
Selena analisou a casa vazia. — Vou para o meu quarto.
— Sua árvore. — Brian estendeu o
braço, segurando o vaso.
— Eu não quero isso. Não sei de onde
você tirou que eu queria uma árvore dentro de casa agora.
— Não fui eu quem te deu. — Brian riu
de leve e colocou o vaso sobre a mesa. — Foi você quem pediu.
— Pedi?
— Quando passou mal, a caminho do
hospital — explicou ele. — “Pegue minha árvore.” — Sorriu para a filha. — Foram
suas palavras, Selena. Se quiser, pode jogá-la fora de novo.
Selena revirou os olhos, pegou o vaso
e foi direto para o quarto. Colocou a planta exatamente onde a encontrara da
primeira vez: sobre o pequeno criado-mudo. Sentou-se na cama, mantendo certa
distância, e passou a encará-la com desconfiança.
— Pedi por você… — murmurou,
balançando a cabeça, decepcionada.
Para sua surpresa, algumas folhas se
desprenderam e caíram no chão. Selena percebeu que a planta parecia se desfazer
pela raiz, murchando rápido demais. Não era aversão à natureza — muito pelo
contrário. Biologia era sua matéria favorita, e ela sabia que folhas não
morriam daquela forma.
— Então… — outra folha caiu. — Você
tem vida própria. — Mais quatro se soltaram. — O que você quer?
Três folhas flutuaram até seus pés.
Selena se abaixou e pegou uma delas: seca, marrom, morta. Aproximou-a do rosto
e arregalou os olhos ao ver a palavra escrita ali: “cuidado”. Deu um pulo para
trás, congelando por alguns segundos. Pegou outra: “diz”. Depois outra: “com”.
Mais uma: “o que”. No verso de uma folha maior, lia-se: “682 palavras”.
Sentou-se no chão e organizou tudo com
cuidado até formar uma frase compreensível.
— “Cuidado com o que diz.” — leu em
voz alta.
Cinco novas folhas caíram. Selena
pegou uma ainda no ar.
— Agora… quinhentas e setenta e sete
palavras. — Mais cinco caíram.
Ela permaneceu imóvel, encarando a
pequena árvore acima de si, a respiração pesada.
— Palavras… — outra folha caiu. — Mais
duas…
Selena sentiu a pressão despencar.
Entendeu tudo de uma vez. A árvore, os bilhetes, as folhas… tudo estava
conectado a ela. Às suas palavras. Estavam sendo contadas. Cada uma.
Como aquilo era possível? Como aquilo
havia começado?
Recolheu as folhas e as colocou sobre
a escrivaninha. Depois voltou-se para a árvore, arrancando uma folha do galho.
— AÍ! — levou a mão ao couro cabeludo;
a dor foi como se alguém tivesse puxado seu cabelo. — Certo, plantinha… qual é
o seu mistério? Estamos ligadas agora? Somos a mesma coisa?
Incontáveis folhas voaram pelo quarto.
A garganta de Selena arranhava.
— Que se dane!
Pegou o vaso pelo tronco e o arrastou
pela casa até o quintal. Jogou a árvore no chão e acabou escorregando junto.
Seus olhos se encheram de lágrimas — não de dor, mas de raiva. Aquilo era
loucura. Estar conectada a uma planta era coisa de gente insana, no mínimo.
Sentou-se no gramado, pernas abertas,
esperando a dor da queda passar. O sol já começava a se pôr quando sentiu uma
mão firme em seu ombro.
— Quem é você? — perguntou ao ver um
rosto desconhecido.
Era uma mulher, traços fortes e
serenos. Ela levou a mão à boca de Selena.
— Não diga mais nada. A essa altura,
você já deve ter percebido que não pode desperdiçar suas palavras com bobagens.
Já gastou muitas delas. — Seus olhos eram firmes. — A vida é muito maior do que
a sua verdade, Selena. Você tem coisas importantes a dizer. Coisas certas.
Coisas boas. Faça o bem.
— Quem é você? — insistiu Selena, num
sussurro.
— Trouxe biscoitos. — Brian apareceu
logo atrás, rindo.
Selena arregalou os olhos. Não disse
nada. Apenas pegou um biscoito e comeu rapidamente. Levantou-se com a árvore
nos braços — intacta, como se nunca tivesse sido arremessada.
De volta ao quarto, deitou-se abraçada
à planta, pensativa. Suas palavras agora tinham limite. Uma mulher misteriosa
surgira do nada. Uma ligação inexplicável com uma árvore. O que mais poderia
acontecer naquele dia?
Lembrou-se do primeiro bilhete: cale-se
para sempre. Seria possível ficar muda? O que havia feito de tão errado?
Engoliu em seco e acabou adormecendo.
Foi a claridade que a despertou
naquele sábado. O relógio marcava nove da manhã. Suas roupas, sujas de terra,
estavam fedidas. Ainda assim, ao ver o vestido do baile anual — que aconteceria
no dia seguinte — seu coração se aqueceu. Era lindo, perfeitamente ajustado ao
seu corpo, costurado à mão por sua mãe com extremo cuidado. Magnífico.
Trocou de roupa, prendeu o cabelo em
um rabo de cavalo e foi até a cozinha. Cumprimentou os pais com um aceno,
sentou-se à mesa e beliscou uma torrada com goiabada.
— Gostou do vestido? — Mandy
perguntou, receosa.
Selena pensou em ignorar, mas não
queria ser cruel. Ainda não entendia as regras do seu novo jogo silencioso.
— Uh… — pigarreou. — Estou um pouco
rouca. — mentiu, sorrindo de leve. — O vestido é maravilhoso. Obrigada, mamãe.
Depois de comer, voltou ao quarto e
recolheu as folhas caídas. Contou-as: o número não havia mudado. A árvore
estava visivelmente mais vazia. Decidiu que não desperdiçaria mais nenhuma
palavra até entender como resolver aquilo — se é que havia solução.
Deitou-se com a árvore ao lado e um
livro que vinha adiando desde a biblioteca. Em silêncio, as horas passaram
lentamente.
A porta do quarto se abriu, e Selena
se sentou, abrindo um pequeno sorriso.
— Seus pais me deixaram entrar — disse
Justin, surpreso. — Como você está?
Ela respondeu com um aceno e voltou ao
livro.
— Você me assustou com aquela notícia…
espero que a dor tenha passado. — Ele tentou sorrir. — Podemos cancelar o baile
se você não estiver bem. É só uma bobagem.
O silêncio se estendeu, deixando
Justin desconfortável. Ele olhou ao redor e viu o vestido pendurado no cabide.
— É lindo, Selena. Combina com você.
Ela assentiu.
— Está tudo bem mesmo? Você está
estranha… quieta demais. — Ele hesitou. — Se for por causa daquela conversa, eu
não quis te magoar. Só quero que viva melhor. Essas meninas, essas coisas… não
são para você.
— Justin! — Selena se arrependeu no
instante em que falou. — Só… para.
— O que aconteceu?
A mente dela funcionava como uma
máquina, calculando cada palavra possível. Suspirou e se calou.
— Não percebe? — Justin deu de ombros.
— Estou aqui por você e… esquece.
Parou na porta, esperando que ela o
chamasse. Não aconteceu. Para isso, Selena precisaria usar palavras — e isso
ela não podia.
— Se não quiser ir comigo amanhã, tudo
bem. Posso ir sozinho.
Ela manteve os olhos no livro até que
ele saísse. Quando ficou sozinha, o coração disparou. Acabara de perder seu
único amigo. Pelo silêncio.
Fechou o livro e abafou um grito de
raiva contra o travesseiro.
Felizmente, nenhuma folha caiu.
V
Selena contava mentalmente as folhas
que ainda restavam. O número era quase o mesmo. Nenhum crédito por ter se
comportado nos últimos dois dias. Nenhuma recompensa pelo silêncio forçado.
Desistira oficialmente do baile.
Justin a dispensara por mensagens — e ela sequer respondera. Descobrira da pior
forma que mensagens também contavam como palavras. Um simples “ok” fora
o máximo que conseguira escrever.
Passou o resto do sábado e toda a
manhã de domingo sentada no quarto, olhando pela janela, sem realmente ver
nada. Pensava no que faria dali em diante. Passaria o resto da vida contando
palavras? No fim, ao menos descobriria o motivo daquele castigo? Qual bem ainda
poderia fazer, se tudo o que fizera em nome do “certo” agora lhe parecia apenas
um erro de perspectiva?
— Saco de vida! — disse, sem
arrependimento algum.
Algumas folhas caíram.
— Talvez eu aprenda língua de sinais
quando vocês terminarem de cair — continuou, indiferente.
Mais folhas.
Por um instante, Selena paralisou,
encarando a árvore.
— E se todas caírem…?
Fechou os olhos, respirando fundo.
Qual era o objetivo daquilo tudo, afinal?
— Ela ainda não saiu do quarto? —
ouviu o pai perguntar do outro lado da porta.
— Só para comer alguma coisa. Acho que ainda está com dor — respondeu a mãe.
Selena riu sozinha e virou-se na cama.
Dor. Quem sentira mais dor? Ela ou a árvore que jogara no lixo — e que voltara?
O céu foi escurecendo aos poucos, e
uma brisa leve entrou pela janela, deixando-a mais quieta. O sol sempre a
irritara de alguma forma. Seus olhos iam, vez ou outra, até o vestido
pendurado. Levou um susto quando o celular vibrou. Era Justin.
“Espero ver você essa noite. Soube que
vai ganhar rainha do baile. Minha mãe gostaria que fosse minha companhia. E eu
também.”
Selena riu em silêncio, respirando
fundo enquanto encarava o vestido.
Ela sabia o que precisava fazer. E odiava isso.
Pegou a árvore no colo e contou as
folhas restantes. Demorou bastante. Não chegou a um número exato, mas restavam
cerca de quatrocentas. Quatrocentas palavras.
Levantou-se, vestiu um short jeans e
uma camiseta larga. Antes de sair, olhou mais uma vez para a árvore.
Abriu a porta do quarto. Os pais
estavam na sala, sentados juntos no sofá. Assim que a viram, se ajeitaram,
atentos demais.
— Está tudo bem, filha? — perguntou a
mãe.
— Está, sim. — Selena fechou os olhos,
sentindo mais uma folha cair. — Preciso dizer algumas coisas para vocês. É
importante que escutem com atenção. Não posso repetir por bobeira.
Tossiu algumas vezes antes de
continuar.
— Não sei o que vai acontecer quando
elas acabarem, mas minhas últimas palavras para vocês são estas: mãe, eu te amo
mais do que fui capaz de demonstrar. Nunca te odiei. Talvez eu tivesse raiva de
ter crescido só com você e nunca ter direcionado essa raiva para quem realmente
causou a ausência. Tudo o que você fez por mim… eu não sei o que seria de mim
sem você. Me desculpa pelo que disse, pelo que fiz. Eu via o quanto você se
sentia sozinha e escolhi te culpar por coisas que não eram sua responsabilidade.
Sinto muito. Eu te amo.
Mandy já chorava.
— Pai… você sempre foi importante para
mim, mesmo ausente. Tudo o que vocês tentaram me ensinar, eu me recusei a
aprender. Fui orgulhosa. Fui cruel. Idiota. O que fiz com outras pessoas… eu
nem sei explicar. Achei que mostrar a “verdade” justificava tudo. Não
justificava. Só quero que saibam que eu amo vocês mais do que consigo colocar
em palavras.
— Selena… — Brian tentou falar.
— Papai, não me interrompa. — A voz
falhou. — Confie em mim. Vai chegar um momento em que eu não vou mais conseguir
explicar nada. E esse momento é hoje. Me perdoem. Por favor.
Ela os abraçou forte, colocou o
celular no bolso e caminhou até a porta.
— Onde você vai? — perguntou o pai.
Selena já perdera a conta das palavras
ditas, mas estava decidida a encerrar aquela noite — para o bem ou para o mal.
A brisa noturna batia em sua pele
enquanto corria pela rua quase vazia, o cabelo voando. A escola não ficava
longe. Estava iluminada, cheia de gente do lado de fora. Selena passou correndo
por todos, entrou pelos corredores sob olhares confusos e seguiu até o salão
principal, onde parou por alguns segundos para recuperar o fôlego.
— E agora, a rainha do baile! —
anunciou um aluno, bêbado, ao microfone. — As indicadas deste ano são: Miley
Cyrus, Annalise Duarte e Selena Gomez!
O salão explodiu em gritos.
Selena tentou encontrar Justin entre
as luzes apagadas e a música alta, mas era impossível.
— Selena Gomez! — gritou o rapaz. —
Cadê a nossa Selena “faladeira” Gomez?
Olhares se voltaram para ela. Alguns
curiosos, outros hostis. Alguns pertenciam a pessoas que ela havia exposto.
Selena abaixou a cabeça e caminhou, enquanto o salão se abria à sua passagem.
— Ela vem! E sem vestido de gala!
— Cala a boca — disse Selena, nervosa.
Recebeu a coroa e o microfone.
— É curioso que me chamem de
fofoqueira… e ainda assim me elejam rainha do baile. Não soa hipócrita? — riu
sozinha. — Quero usar esse momento para pedir desculpas. A professores, alunos…
a todos. Ninguém é obrigado a me perdoar. Minhas palavras não consertam o que
foi quebrado. Mas são sinceras. Tudo o que eu disse, sendo verdade ou não,
nunca foi da minha conta. Então… me desculpem.
Entregou o microfone. O salão
permaneceu em silêncio absoluto. Nem aplausos, nem vaias.
Selena saiu dali com as bochechas
queimando de vergonha, o coração acelerado. Do lado de fora, parou por alguns
segundos observando as árvores balançando com o vento. Nunca havia reparado em
como seus movimentos eram sincronizados.
Desceu os degraus — e alguém segurou
seu braço.
— Vai sair assim? Depois daquele
discurso? Sem falar comigo? O que eu te fiz, Selena?
Justin. Os olhos dele estavam cheios
de preocupação.
Ela respirou fundo.
— Não me resta muito tempo — disse,
tocando o rosto dele. — Justin, eu sei que você sempre sentiu algo por mim.
Sempre soube. Você é meu amigo… e eu tive medo de estragar isso. Mas já
estraguei. Eu nunca disse o que sentia porque me faltou coragem, mas eu te—
A palavra não saiu.
Tentou de novo. Nada. Nenhum som.
Levou a mão à garganta, desesperada. Justin a encarava, confuso.
Selena sorriu. Um sorriso triste,
sincero. Ele entendeu. Pelo menos aquilo.
Beijou-o suavemente e soltou sua mão
antes de sair correndo.
Sentia-se tonta. Tropeçou algumas
vezes. Reparou que as árvores se inclinavam na direção em que corria, como se a
acompanhassem.
Ao chegar em casa, não encontrou os
pais. Subiu para o quarto em desespero.
Ofegante, com o peito apertado, olhou
para o chão coberto de folhas. O tronco da árvore estava escuro, frágil, quase
morto.
Selena encarou a árvore.
Quando o tronco cedeu e caiu da raiz,
Selena também caiu.
De uma vez só.
[FIM]

Seu eu amei esse plot meu amor?????? EU AMEI MUITO!
ResponderExcluirPrimeiro que nem sei o que falar sobre, porque tudo o que eu achava que esse conto seria ele foi o contrário. Eu JURAVA que ia ter lição de moral e que a Selena iria aprender com os próprios erros MAS TU SIMPLESMENTE MATOU A GAROTAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA. Ai Mirela o que eu vou fazer com você??????
Novamente eu quero elogiar mto a escrita e a história que, querendo ou não, nos dá uma lição de moral sim. Enfim, eu n tenho palavras para dizer o quanto admiro e sou fã pq vc já sabe disso tudo.
Posta mais, posta logo tudo
te amo, love u, n sei mais falar te amo em outras linguas.
SURTO! CRISE! ME AJUDA!
ExcluirFico feliz que tenha gostado. Eu disse que você poderia ficar surpresa com o final e ficou.
Demorei UM ANO para escrever essa fanfic. Achei até que meu computador tinha datado errado, mas UM ANO. Tinha que surpreender, não é?
Eu dando lição de moral através de estorias me sinto o próprio Machado de Assis haha.
Sabe que estou preparando algo já.
Te amo muito, I Love You, Amo-te, T'estimo e Ti amo porque estou aprendendo italiano agora.
Beijos, Mirela.
mto bom
ResponderExcluirtriste pela selena ter morrido antes de falar com o justin achei que ela conseguiria
Fico feliz que tenha gostado.
ExcluirÉ, infelizmente não conseguiu :(
Beijos, Mirela.
pensei que ela conseguiria no final mas morreu
ResponderExcluiradorei a lição de moral da fic temos que cuidar da nossa vida e pronto Selena mereceu o castigo pelo que fiz com a demi coitada
Fico feliz que tenha gostado. Tanto da estoria quanto da lição de vida que coloquei, eu acho interessante esse tipo de construção.
ExcluirDe fato, ela mereceu o castigo, mas será que mereceu morrer por ele!?
Sim, eu fiquei triste com a Demi também haha :(
Beijos, Mirela.