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29 de abril de 2018

Hush

[conto revisado em setembro de 2025]

I

Selena caminhava distraída pela rua, equilibrando-se na estreita linha entre a calçada e o asfalto como fazia desde criança. Tinha os cabelos ondulados caindo pelos ombros, olhos escuros atentos demais para alguém que dizia não se importar, bochechas cheias e lábios finos realçados por um brilho transparente. Vestia um vestido azul-claro simples e calçava o mesmo All Star preto, gasto e antigo, que carregava desde os quinze anos.

Ela parou de repente.

Inclinou a cabeça para a esquerda e sorriu — um sorriso conhecido por toda a cidade. A poucos metros dali, através de uma janela aberta demais para um domingo de manhã, viu algo que, segundo tudo o que sabia, não deveria estar acontecendo.

Demetria.

Sua antiga amiga de infância, afastadas anos antes por interferência dos pais e por um novo namorado, estava nua da cintura para cima, beijando Joseph com uma urgência que não deixava margem para dúvidas. O detalhe irônico — e irresistível — era que Demetria era protestante e mantinha um voto público de celibato até os vinte e um anos.

Selena virou o rosto, pegou o celular e abriu o Instagram. Escolheu o primeiro filtro de stories, tirou uma selfie aparentemente inocente e fez questão de enquadrar, ao fundo, a cena comprometedora. Na legenda, escreveu apenas:

“Uma caminhada em pleno domingo de manhã.”

Publicou.

O resto das próximas vinte e quatro horas que falassem por si.

Deu de ombros, observou o rapaz desaparecer da janela entre beijos, e seguiu seu caminho até o mercado para comprar os pães que a mãe pedira. Era véspera do Dia dos Veteranos, e seu pai, um veterano da Marinha, retornaria à cidade após meses fora.

Ela levou quase meia hora para voltar para casa — Selena sempre se perdia em detalhes.

— Selena! — a mãe exclamou ao vê-la entrar. — Que demora.

— Estava dando uma caminhada — respondeu, sorrindo. — Onde está o papai?

— Tomando banho. — Mandy começou a guardar as compras. — Este ano vamos levar dois pratos para a festa da cidade. E você podia fazer seu bolo.

— Eles não merecem — Selena resmungou.

— Quem?

— A cidade. Não os veteranos — corrigiu-se rapidamente ao perceber o olhar da mãe.

Subiu para o quarto, jogou-se de bruços na cama e pegou o celular. O story já passava de cinquenta visualizações. Entre elas, reconheceu o nome da melhor amiga de Demetria. Sorriu satisfeita, largou o celular do outro lado da cama e fechou os olhos.

Quando ouviu o chuveiro desligar, levantou-se num pulo.

Abriu a última gaveta, pegou roupas velhas e manchadas, vestiu-as às pressas. Espalhou pelo corpo um líquido vermelho que imitava sangue. Quando a maçaneta girou, jogou-se no chão, imóvel, olhos arregalados, ardendo pela falta de piscadas.

— Não! — ouviu o grito do pai. — Temos uma vítima aqui!

Brian a pegou no colo e correu pela casa, colocando-a no sofá.

— Corre, Mandy! — chamou. — Ela ainda respira!

— Vocês ainda brincam com isso… — Mandy bufou.

— Ora, Mandy — disse Brian, rindo enquanto levantava a filha. — É só uma brincadeira.

Selena se ergueu e o abraçou com força. Ele a pegou no colo como quando era pequena. Ficaram assim por longos minutos, corações batendo em ritmos diferentes, unidos pela mesma saudade.

Era uma brincadeira antiga.

Desde criança, Selena crescera sem a presença constante do pai. Brian servia há treze anos no Afeganistão. Em uma de suas voltas, contou à família que não conseguira salvar uma menina atingida por tiros — tinha a idade de Selena. Desde então, aquela encenação era uma tentativa silenciosa de salvamento repetido, uma memória reescrita.

Horas se passaram enquanto o pai contava as novidades do Afeganistão — os combates, as perdas, as vítimas. Cada palavra parecia hipnotizar Selena. Em troca, ela falava sobre Corning, a pequena cidade que jamais mudava.
— Nada de novo — repetia, dando de ombros.

Poucos minutos antes de saírem de casa rumo à residência dos Gomez, Selena avistou a antiga amiga parada do outro lado da rua, entre os pais. Diana e Patrick estavam ali, rígidos, com Demetria entre eles.

— Boa noite — Brian cumprimentou com um sorriso cordial. — Estão indo para a festa?

Patrick não respondeu de imediato. Seus olhos permaneceram fixos em Selena.

— Queremos conversar com vocês sobre o que sua filha fez esta manhã — disse, ríspido.

— O que a Selena fez? — Mandy se adiantou, a voz firme.

Sem pedir permissão, Patrick arrancou o celular das mãos da filha.

— Demetria, me dê isso.

Ele abriu a galeria e estendeu o aparelho na direção de Brian.

— Veja.

Brian franziu o cenho, aproximando o rosto da tela.

— O que exatamente tem nessa foto da minha filha?

— Olhe melhor, major — Patrick rebateu, a voz carregada de desprezo. — Sua filha expôs a minha para a cidade inteira.

— Eu não fiz nada disso! — Selena elevou a voz, o nervosismo escapando. — É uma foto minha!

— Ao fundo, com a minha filha transando com o namorado dela? — Patrick deu um passo à frente, invadindo o espaço de Selena.

— Pode ter sido um mal-entendido, Patrick — Mandy tentou intervir.

— Apague agora, garota! — Patrick ergueu a mão.

Num reflexo imediato, Brian se colocou à frente da filha, bloqueando qualquer aproximação.

— Nunca fale assim com a minha filha — disse, em tom baixo e controlado. — Vá embora. Isso é melhor para você.

— Antes ela apaga essa foto — insistiu Patrick. — Expor minha filha dessa maneira é inaceitável.

Foi então que Demetria ergueu o rosto.

O silêncio caiu pesado quando todos viram o vergão vermelho, inchado, marcando-lhe a bochecha. Não foi preciso dizer nada. Todos compreenderam o que havia acontecido. Patrick sempre fora conhecido por seu conservadorismo rígido — e por cruzar limites.

Naquele instante, o estômago de Selena se revirou. O arrependimento veio rápido, sufocante. Ainda assim, ela não desmentiu sua suposta inocência.

Pegou o celular com mãos trêmulas, abriu o Instagram e acessou o story. Antes de apagar, lançou um olhar rápido ao pai. Mais de cem visualizações.

Apertou o botão.

— Pronto — disse, mostrando a tela, a voz carregada de raiva.

— Agora vá, Patrick — Brian apontou na direção de onde haviam vindo. — E nunca mais dirija a palavra à minha filha.

Enquanto se afastavam, Selena murmurou entre os dentes:

— Idiotas… submissas.

— Como pôde fazer isso com ela, Selena? — Mandy segurou o braço da filha com força. — Ela era sua amiga! Aquilo no rosto dela é culpa sua por não cuidar da própria vida!

— Eu não fiz nada! — Selena tentou se soltar, sem sucesso. — Era uma foto minha!

— Mentirosa! — Mandy gritou. — Vá para o seu quarto e não saia de lá pelo resto da noite!

— Mandy… — Brian tentou intervir.

— Você não está aqui para ver o que sua filha faz com os outros! — Mandy retrucou, sem tirar os olhos de Selena.

— E o que você faz, mãe? — Selena disparou, batendo o pé ao se virar para a porta. — Conte a ele, ou conto eu, o que faz enquanto ele está mundo afora salvando crianças!

— Do que você está falando, Selena? — Brian tentou se aproximar, confuso, lançando um olhar tenso para a esposa.

— Selena, vá para o seu quarto agora! — Mandy ordenou.

Assim que entrou em casa, Selena seguiu direto para o quarto e batendo a porta. Do lado de fora, por alguns minutos, o silêncio imperou. Depois vieram os gritos, abafados, mas inconfundíveis: uma discussão em curso.

Mandy sentia-se encurralada — e traída pela confiança da própria filha. Não era para menos. Cinco semanas antes, Selena a havia flagrado aos beijos com Tommy, um grande amigo de Brian e também veterano. Mandy implorara para que a filha não contasse nada ao pai. Selena sabia que aquilo era errado. E contou.

Selena sempre tivera um senso de julgamento falho. O que considerava certo ou errado era, muitas vezes, contraditório — quase hipócrita, embora ela jamais enxergasse assim. Parecia estar constantemente no lugar errado, na hora errada, testemunhando coisas que não lhe diziam respeito. Ainda assim, nunca percebia que nem tudo precisava ser dito. No seu mundo torto, apenas uma pessoa era digna de confiança absoluta: o pai.

— Selena, nós vamos para a festa — Brian disse, abrindo a porta do quarto sem esperar resposta. — Vista-se. Vamos.

Mandy desviou o rosto ao passar pela filha em direção à saída. Já do lado de fora, Brian a envolveu num abraço rápido, protetor.

— Vamos a pé… uma caminhada — sugeriu.

Selena assentiu em silêncio.

Caminharam alguns metros antes de Brian falar novamente.

— Por que fez aquilo com a Demi? E não diga que não percebeu. Desde pequena você sempre foi uma ótima observadora.

— Eu… não sei — Selena respondeu, hesitante. — Não parecia certo.

— E o que o pai dela fez com ela, parecia certo? — Brian perguntou, a expressão endurecendo.

— Não. E acho que poderíamos denunciá-lo — disse Selena, firme, elevando a voz.

Brian parou no meio da calçada e segurou os ombros da filha.

— Mas isso não é da nossa conta, Selena. — Respirou fundo. — Você acabou de jogar na minha cara a verdade sobre sua mãe e o Tommy, sem sequer pensar no que faria depois.

— Eu só contei a verdade — insistiu. — É tudo o que faço. E ela confirmou: traiu você. A gente deveria deixá-la.

— Você conta meias verdades para as pessoas — Brian retomou a caminhada —, e isso também é errado. Quando vir algo assim de novo — sua amiga, sua mãe ou tantas outras coisas que sei que você já presenciou, pense nas consequências. Pense nos motivos. E pergunte a si mesma, antes de agir: isso é da minha conta?

Selena engoliu em seco.

— Pai… você está decepcionado comigo?

— Um pouco, sim — ele admitiu, esboçando um sorriso cansado. — As pessoas mentem, Selena. Mentem muito. E muitas são más. Mas também existem pessoas que dizem a verdade e ainda assim machucam. Foi o que você fez hoje com a Demi.

— Ela parou de falar comigo — Selena revirou os olhos. — Disse que eu não presto. Por causa do Joseph, aquele namorado nada puritano.

Brian soltou uma risada breve.

— Selena, isso não é da sua conta. — Olhou para ela com ternura. — Você vê coisas, observa atitudes, entende demais para a sua idade. Mas isso não significa que precise tomar a frente de tudo.

 

 

A garota concordou com a cabeça e prometeu, ainda que em silêncio, cuidar da própria vida dali em diante. A promessa, porém, não resistiu nem duas horas.

Ao chegar ao grande salão de festas da prefeitura, Selena sentiu o peso dos olhares antes mesmo de cruzar a porta. Sorrisos forçados, cochichos, expressões fechadas. A história envolvendo Demetria já havia se espalhado pela cidade, e a responsável pela vergonha da filha prodígio dos Lovato estava ali, bem à entrada.

Talvez Brian não soubesse — ou fingisse não saber para não ferir ainda mais a filha —, mas aquela não era a primeira vez que Selena se tornava o centro de um escândalo em Corning.

Houve o episódio do professor de Literatura, Antonnie, cuja traição com o professor substituto de Química, dentro do colégio, veio à tona depois de Selena comentar o que vira. A verdade provocou um divórcio turbulento e resultou em transferências silenciosas, justificadas como “mudanças administrativas”, mas sussurradas como punição.

Teve também o mercado do senhor Jonas, fechado após Selena comentar sobre ratos e baratas na dispensa — algo que a vigilância sanitária confirmou dias depois.

E a noite em que flagrou o filho do prefeito com a irmã da própria namorada, as gêmeas Mariane e Marie. O rapaz alegou ter sido enganado. Uma das gêmeas acabou se mudando para outro estado. Selena, no entanto, lembrava-se perfeitamente de tê-lo ouvido chamar a cunhada pelo nome correto.

Era justo dizer que Selena não era uma fofoqueira impulsiva. Diferente de Demi, que poderia acusá-la de vingança, Selena não contava tudo no mesmo instante. Observava, guardava e escolhia o momento. O mais perturbador — e talvez o mais perigoso — era que tudo o que dizia, em algum ponto, ser verdade.

Até mesmo seu último namoro havia terminado por isso. Não demorou para que o rapaz perdesse toda a credibilidade quando Selena revelou a traição que ele insistia em negar.

Brian envolveu os ombros da filha com um abraço discreto e caminhou com ela pelo salão, cumprimentando conhecidos. Selena respirava fundo repetidas vezes, tentando não se deixar intimidar pelos colegas da escola.

Em determinado momento, afastou-se do pai para falar com Justin, que servia ponche para si mesmo. Ao vê-la, pegou outro copo e lhe estendeu.

Eles se cumprimentaram e Selena se virou para a mesa de salgados.

— Estão falando de você — Justin comentou, rindo de leve. — De novo.

— Imagino — ela deu de ombros. — Cadê sua mãe?

— Ficou em casa — respondeu, com a voz um pouco embargada. — Ela não está nada bem desde a quimioterapia.

— Sinto muito — Selena o abraçou rapidamente. — Acho que meu pai não vai fazer nada em relação à minha mãe...

— Deixe os adultos resolverem isso, Selena — Justin disse, rápido. — Não vire agora… mas as garotas estão vindo na nossa direção.

Selena largou o copo de ponche e se virou de qualquer jeito, fazendo Justin balançar a cabeça em desaprovação.

Era Demetria, com os cabelos caindo à frente do rosto, acompanhada da melhor amiga, Miley.

— E a Gomez agiu novamente — Miley disse, empurrando Selena de lado para pegar o ponche.

A garota permaneceu em silêncio, sustentando o mesmo sorriso fixo no rosto. Tentou ignorar Justin ao seu lado, mas Miley esbarrou nela de propósito, fazendo o ponche se espalhar pelo vestido.

Selena abriu os braços lentamente, olhando para si mesma, agora manchada. Usava um vestido branco, simples, na altura dos joelhos. O líquido cor de vinho escorria pelo tecido — uma marca que jamais sairia por completo.

— Vamos, Demi! — Miley riu alto, puxando a amiga pelo braço.

— Miley — Selena a chamou, a voz firme, desafiadora. — Onde está o Liam?

Miley parou e se virou, o deboche escorrendo no sorriso.

— O que você quer agora, Selena? Mais uma mentira? Ou outra revelação?

— Nenhuma das duas — Selena deu de ombros. — Só queria desejar boa sorte.

— O quê? — Miley avançou um passo, os olhos carregados de raiva.

— Boa sorte — Selena repetiu, cínica. — Ele engravidou a Tanya von Showender. Você não sabia?

— Outra mentira — Miley riu, nervosa demais para parecer natural.

— Eles jogavam no mesmo time de futebol — Selena continuou, tranquila demais. — Viajavam juntos. Lembro bem dos dois sentados sempre nos últimos bancos do ônibus. Ela nunca dormia no quarto do hotel. — Fez uma breve pausa. — Tanya se mudou da cidade há três meses. Curioso que o Liam também passou a viajar quase todo fim de semana desde então.

Selena inclinou a cabeça de lado.

— Acho que não é mentira. E, se me permite um palpite… é uma menina.

A mão de Miley se ergueu, pronta para atingir o rosto de Selena, mas Demetria a segurou pelo pulso, apontando discretamente para os olhares curiosos ao redor.

— Deseje boa sorte ao Liam — Selena concluiu, pegando novamente o copo de ponche. Em seguida, puxou Justin pelo braço. — E você, como sempre, burra demais para perceber.

Selena procurou o pai no meio da multidão. Encontrou-o. Os olhos do pai, azuis e duros, carregavam uma decepção silenciosa. Aquilo a atingiu com mais força do que qualquer tapa poderia. O coração se partiu em dois — dividido entre arrependimento e a certeza amarga de que não faria diferente.

Saiu do salão antes que alguém pudesse detê-la.

Do lado de fora, uma frente fria invadiu seu corpo de imediato. Tossiu, apertando o vestido sujo contra a pele, e começou a caminhar sozinha em direção a casa. Quase quatro quilômetros. Na ida, havia sido uma conversa leve com o pai. Na volta, apenas o som dos próprios passos, o frio cortante, os calafrios e a dor nos pés.

Quando finalmente entrou em casa, tudo estava apagado. Não acendeu nenhuma luz. Subiu direto para o quarto e se jogou na cama, ainda com o vestido grudento e manchado.

— Merda de dia — murmurou, pela última vez, antes de adormecer.

II

Selena acordou e voltou a dormir ao menos três vezes antes que o despertador tocasse pela última vez, insistente, até que ela o desligasse com irritação. Ainda meio sonolenta, virou o rosto para a escrivaninha — e então congelou.

Havia uma pequena árvore ali.

Sentou-se na cama, bocejou duas vezes e só então se levantou, aproximando-se devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse fazê-la desaparecer. Girou o pequeno suporte que segurava o vaso e inclinou o rosto para sentir o cheiro. Era real. As folhas verdes, vivas, pareciam cintilar sob a luz da manhã; o tronco, marrom e firme, contrastava com a simplicidade do quarto.

Selena sorriu.

Ao lado do vaso, repousava um pedaço de pergaminho antigo, amarelado pelo tempo. Assim que o tocou, o papel começou a se desfazer entre seus dedos, obrigando-a a ler rápido.

Mil palavras até calar-se para sempre. Faça o certo e falará; ao contrário, calar-se-á para sempre — leu em voz baixa.

O bilhete se desfez por completo.

— O quê? — Selena riu, incrédula.

Voltou o olhar para a árvore no mesmo instante em que algumas folhas se desprenderam, caindo ao redor da escrivaninha. O verde brilhante se apagou, tornando-se seco e quebradiço. Selena apanhou uma delas entre os dedos.

Estava morta.

— Que pena…

Outras duas folhas caíram.

Ela se aproximou mais da árvore, agora desconfiada, mas ainda assim sorriu, como se aquilo fosse apenas uma brincadeira de mau gosto. Virou-se e saiu do quarto em direção ao banheiro.

No relógio pendurado no fim do corredor, percebeu que estava atrasada para o colégio. Aprontou-se às pressas. A casa permanecia mergulhada em um silêncio pesado. Os pais não trocaram uma palavra sequer quando ela passou pela cozinha recolhendo o material. Ainda assim, Selena sentiu os olhos da mãe a acompanharem enquanto enfrentava o café da manhã mais infeliz de sua vida.

Não se sentou à mesa. Recusou-se até mesmo a beber água. Roubou um biscoito para enganar o estômago e saiu de casa, deixando escapar um tchau quase inaudível.

O coração batia frio no peito, um nó apertava-lhe a garganta. Caminhava de olhos baixos, observando a calçada, segurando com força as alças da mochila, tentando conter a raiva que sentia do mundo — e de si mesma.

Ao lançar um olhar por cima do ombro, percebeu os olhares dos vizinhos, os cochichos mal disfarçados. Era sobre ela. Disso não restava dúvida.

Depois da noite anterior, Selena decidiu que tentaria fazer o que o pai pedira. Não se intrometer na vida dos outros. Forçaria a si mesma a isso. Talvez já tivesse destruído coisas demais, inclusive dentro da própria casa.

Parou em frente ao colégio e se abaixou para amarrar o cadarço. Deu três nós, do jeito que o pai lhe ensinara — um, dois… perfeito. Ainda assim, algo a prendia ali.

Ela não queria entrar.

Respirou fundo, ajustou as alças da mochila e atravessou a avenida larga até a escadaria da escola.

Logo na entrada, mais olhares a atingiram. As bochechas carnudas e os lábios pequenos não denunciaram intimidação alguma. Pelo contrário, Selena abriu um sorriso ao encontrar a única pessoa que a olhou com verdadeiro brilho nos olhos.

Justin.

Ele beijou-lhe o rosto com carinho e a puxou para longe da confusão da entrada, como se soubesse exatamente do que ela precisava.

— Está tudo bem? — Justin perguntou, a testa franzida de preocupação.

— Claro que não — Selena respondeu, tossindo levemente. — Meu pai ficou furioso com o que aconteceu. Tenho certeza de que não vou sair de casa tão cedo. — Fez uma pausa. — Acho que estou ficando doente.

— Seu pai nunca ficou tão bravo assim com você.

— É… ele pediu para eu não me meter nos problemas dos outros. — Revirou os olhos. — Justin, seja sincero comigo. Eu sou uma má pessoa?

— Claro que não — ele sorriu, tentando tranquilizá-la. — Acho que você é… inocente.

— Inocente? — Selena franziu a testa. — Como assim?

— Você percebe as coisas, pelo menos algumas delas, mas não sabe lidar com tudo o que vê. O mundo não é preto e branco, Selena. Não existe só certo e errado. E, às vezes, você presta atenção no que não deveria… e diz o que vê, quando talvez não devesse.

Selena balançou a cabeça, o olhar endurecendo.

— Uau. Guardava isso há quanto tempo? — disse, decepcionada. — A gente se vê no intervalo.

Virou-se e saiu pelo corredor sem olhar para trás.

Justin ficou parado por um instante, chateado com a reação da amiga. Não era sua intenção magoá-la. Suspirou, foi até o armário pegar o material e só então lembrou que teriam aula juntos logo pela manhã.

Seguiu Selena até o segundo andar e sentou-se ao seu lado na sala de Química.

— Esqueci que tínhamos Química juntos — Selena comentou, com um sorriso debochado. — E, só para constar, não sou inocente.

— Tudo bem…

— Não, estou falando sério — ela o interrompeu. — Eu sei que o mundo é mais do que verdade ou mentira. Só não concordo em viver nessa hipocrisia. Minha mãe mente, as pessoas mentem… mas pra quê?

— Você nunca teve nada a esconder? — Justin perguntou.

— Não! — respondeu de imediato, sem pensar. — Quer dizer… não tenho nada do que me envergonhar.

— Nem dessas folhas no seu cabelo? — ele riu, apontando.

Selena se afastou da mesa e passou a mão pelos cabelos lisos. Retirou três pequenas folhas presas entre os fios. Assim que tocaram sua palma, murcharam, secando rapidamente. Ela as deixou cair no chão.

— Acho que são da árvore que meu pai me deu.

— Ele te deu uma árvore, mesmo bravo?

— Acho que ia me dar antes… acabou dando de qualquer jeito. — Deu de ombros. — É pequena, só de enfeite no meu quarto.

— Pensei que fosse uma árvore enorme, para parar no seu cabelo.

— E eu pensei que só eu fosse a curiosa da cidade — Selena forçou um sorriso.

Justin percebeu que ela ainda estava irritada e decidiu não insistir. No mesmo instante, o professor de Química entrou na sala.

O karma, afinal, parecia real.

Selena bufou quando sentiu algo deslizar pelos cabelos. Outra folha caiu. Ela a segurou na palma da mão e observou enquanto morria lentamente.

— Que saco — murmurou, passando a mão pela cabeça à procura de mais.

Selena entrou em casa e passou direto pela mãe, em silêncio, sem sequer diminuir o passo.

— Não vai dizer nada? — Brian analisou a filha de cima a baixo. — Educação?

— Dizer o quê? Boa tarde? — Selena respondeu com desdém, sem parar. — Boa tarde, pais!

Arrastou a mochila pelo chão até o quarto e, ao abrir a porta, parou abruptamente.

A cômoda estava suja. O chão, coberto de folhas e flores secas, todas em tons de marrom apagado, quebradiças ao toque. Selena revirou os olhos, irritada, e entrou pisando sobre os restos mortos.

— Ótimo — murmurou.

Pegou o vaso médio onde a árvore ficava e saiu do quarto, atravessando a casa a passos duros.

— Essa merda está morta e ainda sujou o meu quarto! — disparou, furiosa. — Vou jogar no lixo.

Os pais apenas observaram enquanto ela seguia até o quintal dos fundos e despejava a árvore dentro da grande lixeira.

Ao voltar para dentro, mal deu dois passos.

Selena caiu no chão com um baque seco.

Um gemido de dor escapou-lhe dos lábios. O peso no abdômen era esmagador, como se algo a puxasse para dentro de si mesma. As pernas não respondiam.

— Selena! — Brian se ajoelhou ao lado da filha, segurando-lhe a cabeça. — Selena, olha para mim!

Lágrimas desciam pelo rosto dela, misturadas ao desespero. Mandy permaneceu imóvel por um segundo longo demais, os olhos arregalados, antes de também começar a chorar.

— Brian… o que está acontecendo? — Mandy perguntou, em pânico.

— Eu não sei! — respondeu, a voz falhando. — Pegue a chave do carro. Agora! Vamos levá-la ao hospital. Selena, querida, fala comigo!

Selena abriu os olhos com dificuldade e encarou o pai. Seu olhar era um pedido silencioso, piedoso, atravessado pela dor. Mandy correu para buscar as chaves enquanto Brian a tomava nos braços.

Poucos segundos depois, os três estavam no carro. Mandy dirigia em disparada, o olhar alternando entre a estrada e o retrovisor, onde Brian tentava manter Selena consciente.

O carro parou bruscamente na entrada do pronto-socorro. Brian saiu apressado, a filha ainda nos braços, e a colocou na primeira maca disponível.

— Ajuda aqui! — gritou.

Dois médicos correram em sua direção.

— O que aconteceu? — perguntou um deles, um homem de meia-idade.

— Eu não sei — Brian respondeu, desesperado. — Ela chegou do colégio e simplesmente caiu no chão, com muita dor. Ela não tem nenhum problema de saúde.

— Vamos cuidar dela — disse o médico. — Fiquem aqui.

Selena segurava o abdômen com força enquanto era empurrada pelo corredor. O teto branco do hospital passava rápido demais acima de seus olhos. Vozes ecoavam ao redor, distantes, misturadas.

A dor cresceu.

Ela fechou os olhos.

E então, tudo escureceu.

III

Abriu os olhos e encontrou os pais sentados à sua direita. Tornou a fechá-los imediatamente; o som da televisão era incômodo demais.

— O que aconteceu? — perguntou, com a voz baixa.

A mãe sorriu ao perceber a filha mais desperta, embora a cena de terror ainda rondasse a mente do casal. Brian saiu apressado pelo quarto do hospital e chamou os médicos que conversavam no corredor. Segundos depois, os três retornaram.

— Selena, como está se sentindo? — perguntou o médico de meia-idade, observando-a com atenção. — Melhor?

— Sim… bem melhor. O que houve?

— Conversamos com seus pais e, sinceramente, não encontramos uma explicação clara. Fizemos uma bateria completa de exames e não há nada anormal. Você consegue nos dizer o que sentiu?

— Eu estava entrando em casa e… — Selena hesitou. — Caí. Foi uma dor insuportável, como se… como se algo muito pesado tivesse caído sobre mim. — Passou a mão pelo abdômen. — Ainda dói.

— Imagino. Deve ter sido terrível. — Ele sorriu de forma contida. — Vamos mantê-la em observação esta noite e investigar melhor essa dor.
— O senhor acha que estou mentindo?

— Existem dois tipos de mentira neste hospital, Selena. — Ele a encarou com firmeza gentil. — E eu posso afirmar, com anos de experiência, que você não mentiu quando chegou aqui. — Sorriu novamente. — Voltarei mais tarde.

Quando ficaram a sós, Selena recostou-se na cama e levou a mão à barriga. Levantou a blusa: tudo parecia normal, intacto. Ainda assim, a sensação de algo atravessando seu corpo mais cedo a fez arrepiar. Fechou os olhos por alguns segundos.

— Filha… — Mandy tentou segurar sua mão. — Está tudo bem? Você se lembra do que aconteceu?
— Está tudo bem! — respondeu Selena, ríspida.

Brian respirou fundo.

— Sua mãe e eu conversamos esta manhã. Quer saber sobre o quê?

Ele sentou-se na beirada da cama e encarou a filha. Era óbvio que ela queria saber.

— Muitos anos atrás, antes de conhecer sua mãe, eu namorava outra mulher. De outra cidade. Quando meu pai decidiu voltar, achei que fosse o fim do mundo… até conhecer Mandy. A mulher mais linda que já vi. Mesmo assim, não fui capaz de ficar só com ela. Queria mais, sempre mais. Não demorou para que as duas descobrissem. Eu escolhi sua mãe. Sempre escolhi. Errei muito, mas não me arrependo de ter lutado por ela… nem de termos feito você. — Sua voz suavizou. — Mas quando fui convocado pela primeira vez, tudo mudou. Uma missão virou duas, depois anos. Deixei sua mãe te criando sozinha. E, ainda assim, ela foi melhor do que eu jamais conseguiria ser. — Brian olhou para Mandy. — Ela está infeliz, e eu não a culpo. Disse a ela que, se quisesse ir embora… eu entenderia.
— Quisesse outro homem? — Selena perguntou, direta. — E você, outra mulher?
— Não há mulheres no Oriente Médio — Brian riu sem humor. — Mas sim… outro homem.
— É pior do que eu imaginava. — Selena se encolheu, afastando-se dos dois.

Mandy respirou fundo antes de responder.

— Selena, o que você sabe sobre a vida? O que fez até agora? Tem dezessete anos e coleciona fofocas e segredos. Você poderia ser muito mais do que isso. Sempre admirei o quanto você observa as pessoas, mas você não é uma justiceira da verdade nem dos bons costumes.

— Ah, claro. — Selena ironizou. — Chegamos à parte em que todo mundo diz a mesma coisa.
— Talvez porque você já tenha ido longe demais — rebateu a mãe. — Nós queremos o seu bem.

— E o que é o meu bem? — Selena retrucou. — Ficar calada como vocês querem? Fingir que é normal meu pai aceitar traição? Ou que todo mundo mente o tempo inteiro? Eu também devo mentir?

— Não estamos aqui para discutir isso. — Brian passou a mão pelo rosto da filha. — Estamos aqui porque nos importamos. Sua aprovação pouco importa agora. Outras pessoas pensariam o mesmo, se você não as prejudicasse com suas verdades. Guarde suas críticas para si.

Selena soltou uma risada debochada, sem entender exatamente o porquê. Apenas riu. Deitou-se e pegou o controle remoto, passando os canais da TV aberta sem atenção. Os pais se entreolharam; Mandy foi embora, e Brian ficou para acompanhá-la.

— Vou deixar sua mãe no estacionamento.

Selena não respondeu. Esperou os dois saírem para desligar a televisão e fechar os olhos.

O sono leve a mantinha alerta aos sons do corredor. Um estalo repentino a despertou de vez. Seus lábios se curvaram para baixo, e os olhos reviraram ao ver a maldita árvore sobre o criado-mudo. O pai dormia profundamente em uma poltrona próxima.

Ela esticou o braço e pegou o bilhete ao lado.

— “Gastando palavras sem motivo. Pouco a pouco, seu direito de defesa desaparece. Use suas palavras com sabedoria ou cale-se para sempre.” — leu em voz baixa e riu. — Péssimo poema, papai.

Amassou o papel e o jogou ao lado da árvore, que deixava cair pequenas folhas verdes pelo chão. Aquilo a fez pensar, mas o quarto estava escuro demais, e o remédio já começava a pesar. Virou-se para o outro lado e, enfim, adormeceu.

IV

— Nada! Não tenho nada. Até parece que fui parar no hospital só porque não queria ir ao colégio!

— Ninguém vai pensar isso, querida.

— Dane-se o que pensam. Não foi isso que você disse, papai?

— E agora, o que pretende fazer?

— Repousar, como o médico pediu. — Selena analisou a casa vazia. — Vou para o meu quarto.

— Sua árvore. — Brian estendeu o braço, segurando o vaso.

— Eu não quero isso. Não sei de onde você tirou que eu queria uma árvore dentro de casa agora.

— Não fui eu quem te deu. — Brian riu de leve e colocou o vaso sobre a mesa. — Foi você quem pediu.

— Pedi?

— Quando passou mal, a caminho do hospital — explicou ele. — “Pegue minha árvore.” — Sorriu para a filha. — Foram suas palavras, Selena. Se quiser, pode jogá-la fora de novo.

Selena revirou os olhos, pegou o vaso e foi direto para o quarto. Colocou a planta exatamente onde a encontrara da primeira vez: sobre o pequeno criado-mudo. Sentou-se na cama, mantendo certa distância, e passou a encará-la com desconfiança.

— Pedi por você… — murmurou, balançando a cabeça, decepcionada.

Para sua surpresa, algumas folhas se desprenderam e caíram no chão. Selena percebeu que a planta parecia se desfazer pela raiz, murchando rápido demais. Não era aversão à natureza — muito pelo contrário. Biologia era sua matéria favorita, e ela sabia que folhas não morriam daquela forma.

— Então… — outra folha caiu. — Você tem vida própria. — Mais quatro se soltaram. — O que você quer?

Três folhas flutuaram até seus pés. Selena se abaixou e pegou uma delas: seca, marrom, morta. Aproximou-a do rosto e arregalou os olhos ao ver a palavra escrita ali: “cuidado”. Deu um pulo para trás, congelando por alguns segundos. Pegou outra: “diz”. Depois outra: “com”. Mais uma: “o que”. No verso de uma folha maior, lia-se: “682 palavras”.

Sentou-se no chão e organizou tudo com cuidado até formar uma frase compreensível.

— “Cuidado com o que diz.” — leu em voz alta.

Cinco novas folhas caíram. Selena pegou uma ainda no ar.

— Agora… quinhentas e setenta e sete palavras. — Mais cinco caíram.

Ela permaneceu imóvel, encarando a pequena árvore acima de si, a respiração pesada.

— Palavras… — outra folha caiu. — Mais duas…

Selena sentiu a pressão despencar. Entendeu tudo de uma vez. A árvore, os bilhetes, as folhas… tudo estava conectado a ela. Às suas palavras. Estavam sendo contadas. Cada uma.

Como aquilo era possível? Como aquilo havia começado?

Recolheu as folhas e as colocou sobre a escrivaninha. Depois voltou-se para a árvore, arrancando uma folha do galho.

— AÍ! — levou a mão ao couro cabeludo; a dor foi como se alguém tivesse puxado seu cabelo. — Certo, plantinha… qual é o seu mistério? Estamos ligadas agora? Somos a mesma coisa?

Incontáveis folhas voaram pelo quarto. A garganta de Selena arranhava.

— Que se dane!

Pegou o vaso pelo tronco e o arrastou pela casa até o quintal. Jogou a árvore no chão e acabou escorregando junto. Seus olhos se encheram de lágrimas — não de dor, mas de raiva. Aquilo era loucura. Estar conectada a uma planta era coisa de gente insana, no mínimo.

Sentou-se no gramado, pernas abertas, esperando a dor da queda passar. O sol já começava a se pôr quando sentiu uma mão firme em seu ombro.

— Quem é você? — perguntou ao ver um rosto desconhecido.

Era uma mulher, traços fortes e serenos. Ela levou a mão à boca de Selena.

— Não diga mais nada. A essa altura, você já deve ter percebido que não pode desperdiçar suas palavras com bobagens. Já gastou muitas delas. — Seus olhos eram firmes. — A vida é muito maior do que a sua verdade, Selena. Você tem coisas importantes a dizer. Coisas certas. Coisas boas. Faça o bem.

— Quem é você? — insistiu Selena, num sussurro.

— Trouxe biscoitos. — Brian apareceu logo atrás, rindo.

Selena arregalou os olhos. Não disse nada. Apenas pegou um biscoito e comeu rapidamente. Levantou-se com a árvore nos braços — intacta, como se nunca tivesse sido arremessada.

De volta ao quarto, deitou-se abraçada à planta, pensativa. Suas palavras agora tinham limite. Uma mulher misteriosa surgira do nada. Uma ligação inexplicável com uma árvore. O que mais poderia acontecer naquele dia?

Lembrou-se do primeiro bilhete: cale-se para sempre. Seria possível ficar muda? O que havia feito de tão errado?

Engoliu em seco e acabou adormecendo.

Foi a claridade que a despertou naquele sábado. O relógio marcava nove da manhã. Suas roupas, sujas de terra, estavam fedidas. Ainda assim, ao ver o vestido do baile anual — que aconteceria no dia seguinte — seu coração se aqueceu. Era lindo, perfeitamente ajustado ao seu corpo, costurado à mão por sua mãe com extremo cuidado. Magnífico.

Trocou de roupa, prendeu o cabelo em um rabo de cavalo e foi até a cozinha. Cumprimentou os pais com um aceno, sentou-se à mesa e beliscou uma torrada com goiabada.

— Gostou do vestido? — Mandy perguntou, receosa.

Selena pensou em ignorar, mas não queria ser cruel. Ainda não entendia as regras do seu novo jogo silencioso.

— Uh… — pigarreou. — Estou um pouco rouca. — mentiu, sorrindo de leve. — O vestido é maravilhoso. Obrigada, mamãe.

Depois de comer, voltou ao quarto e recolheu as folhas caídas. Contou-as: o número não havia mudado. A árvore estava visivelmente mais vazia. Decidiu que não desperdiçaria mais nenhuma palavra até entender como resolver aquilo — se é que havia solução.

Deitou-se com a árvore ao lado e um livro que vinha adiando desde a biblioteca. Em silêncio, as horas passaram lentamente.

A porta do quarto se abriu, e Selena se sentou, abrindo um pequeno sorriso.

— Seus pais me deixaram entrar — disse Justin, surpreso. — Como você está?

Ela respondeu com um aceno e voltou ao livro.

— Você me assustou com aquela notícia… espero que a dor tenha passado. — Ele tentou sorrir. — Podemos cancelar o baile se você não estiver bem. É só uma bobagem.

O silêncio se estendeu, deixando Justin desconfortável. Ele olhou ao redor e viu o vestido pendurado no cabide.

— É lindo, Selena. Combina com você.

Ela assentiu.

— Está tudo bem mesmo? Você está estranha… quieta demais. — Ele hesitou. — Se for por causa daquela conversa, eu não quis te magoar. Só quero que viva melhor. Essas meninas, essas coisas… não são para você.

— Justin! — Selena se arrependeu no instante em que falou. — Só… para.

— O que aconteceu?

A mente dela funcionava como uma máquina, calculando cada palavra possível. Suspirou e se calou.

— Não percebe? — Justin deu de ombros. — Estou aqui por você e… esquece.

Parou na porta, esperando que ela o chamasse. Não aconteceu. Para isso, Selena precisaria usar palavras — e isso ela não podia.

— Se não quiser ir comigo amanhã, tudo bem. Posso ir sozinho.

Ela manteve os olhos no livro até que ele saísse. Quando ficou sozinha, o coração disparou. Acabara de perder seu único amigo. Pelo silêncio.

Fechou o livro e abafou um grito de raiva contra o travesseiro.

Felizmente, nenhuma folha caiu.

V

Selena contava mentalmente as folhas que ainda restavam. O número era quase o mesmo. Nenhum crédito por ter se comportado nos últimos dois dias. Nenhuma recompensa pelo silêncio forçado.

Desistira oficialmente do baile. Justin a dispensara por mensagens — e ela sequer respondera. Descobrira da pior forma que mensagens também contavam como palavras. Um simples “ok” fora o máximo que conseguira escrever.

Passou o resto do sábado e toda a manhã de domingo sentada no quarto, olhando pela janela, sem realmente ver nada. Pensava no que faria dali em diante. Passaria o resto da vida contando palavras? No fim, ao menos descobriria o motivo daquele castigo? Qual bem ainda poderia fazer, se tudo o que fizera em nome do “certo” agora lhe parecia apenas um erro de perspectiva?

— Saco de vida! — disse, sem arrependimento algum.

Algumas folhas caíram.

— Talvez eu aprenda língua de sinais quando vocês terminarem de cair — continuou, indiferente.

Mais folhas.

Por um instante, Selena paralisou, encarando a árvore.

— E se todas caírem…?

Fechou os olhos, respirando fundo. Qual era o objetivo daquilo tudo, afinal?

— Ela ainda não saiu do quarto? — ouviu o pai perguntar do outro lado da porta.
— Só para comer alguma coisa. Acho que ainda está com dor — respondeu a mãe.

Selena riu sozinha e virou-se na cama. Dor. Quem sentira mais dor? Ela ou a árvore que jogara no lixo — e que voltara?

O céu foi escurecendo aos poucos, e uma brisa leve entrou pela janela, deixando-a mais quieta. O sol sempre a irritara de alguma forma. Seus olhos iam, vez ou outra, até o vestido pendurado. Levou um susto quando o celular vibrou. Era Justin.

“Espero ver você essa noite. Soube que vai ganhar rainha do baile. Minha mãe gostaria que fosse minha companhia. E eu também.”

Selena riu em silêncio, respirando fundo enquanto encarava o vestido.
Ela sabia o que precisava fazer. E odiava isso.

Pegou a árvore no colo e contou as folhas restantes. Demorou bastante. Não chegou a um número exato, mas restavam cerca de quatrocentas. Quatrocentas palavras.

Levantou-se, vestiu um short jeans e uma camiseta larga. Antes de sair, olhou mais uma vez para a árvore.

Abriu a porta do quarto. Os pais estavam na sala, sentados juntos no sofá. Assim que a viram, se ajeitaram, atentos demais.

— Está tudo bem, filha? — perguntou a mãe.

— Está, sim. — Selena fechou os olhos, sentindo mais uma folha cair. — Preciso dizer algumas coisas para vocês. É importante que escutem com atenção. Não posso repetir por bobeira.

Tossiu algumas vezes antes de continuar.

— Não sei o que vai acontecer quando elas acabarem, mas minhas últimas palavras para vocês são estas: mãe, eu te amo mais do que fui capaz de demonstrar. Nunca te odiei. Talvez eu tivesse raiva de ter crescido só com você e nunca ter direcionado essa raiva para quem realmente causou a ausência. Tudo o que você fez por mim… eu não sei o que seria de mim sem você. Me desculpa pelo que disse, pelo que fiz. Eu via o quanto você se sentia sozinha e escolhi te culpar por coisas que não eram sua responsabilidade. Sinto muito. Eu te amo.

Mandy já chorava.

— Pai… você sempre foi importante para mim, mesmo ausente. Tudo o que vocês tentaram me ensinar, eu me recusei a aprender. Fui orgulhosa. Fui cruel. Idiota. O que fiz com outras pessoas… eu nem sei explicar. Achei que mostrar a “verdade” justificava tudo. Não justificava. Só quero que saibam que eu amo vocês mais do que consigo colocar em palavras.

— Selena… — Brian tentou falar.

— Papai, não me interrompa. — A voz falhou. — Confie em mim. Vai chegar um momento em que eu não vou mais conseguir explicar nada. E esse momento é hoje. Me perdoem. Por favor.

Ela os abraçou forte, colocou o celular no bolso e caminhou até a porta.

— Onde você vai? — perguntou o pai.

Selena já perdera a conta das palavras ditas, mas estava decidida a encerrar aquela noite — para o bem ou para o mal.

A brisa noturna batia em sua pele enquanto corria pela rua quase vazia, o cabelo voando. A escola não ficava longe. Estava iluminada, cheia de gente do lado de fora. Selena passou correndo por todos, entrou pelos corredores sob olhares confusos e seguiu até o salão principal, onde parou por alguns segundos para recuperar o fôlego.

— E agora, a rainha do baile! — anunciou um aluno, bêbado, ao microfone. — As indicadas deste ano são: Miley Cyrus, Annalise Duarte e Selena Gomez!

O salão explodiu em gritos.

Selena tentou encontrar Justin entre as luzes apagadas e a música alta, mas era impossível.

— Selena Gomez! — gritou o rapaz. — Cadê a nossa Selena “faladeira” Gomez?

Olhares se voltaram para ela. Alguns curiosos, outros hostis. Alguns pertenciam a pessoas que ela havia exposto. Selena abaixou a cabeça e caminhou, enquanto o salão se abria à sua passagem.

— Ela vem! E sem vestido de gala!

— Cala a boca — disse Selena, nervosa.

Recebeu a coroa e o microfone.

— É curioso que me chamem de fofoqueira… e ainda assim me elejam rainha do baile. Não soa hipócrita? — riu sozinha. — Quero usar esse momento para pedir desculpas. A professores, alunos… a todos. Ninguém é obrigado a me perdoar. Minhas palavras não consertam o que foi quebrado. Mas são sinceras. Tudo o que eu disse, sendo verdade ou não, nunca foi da minha conta. Então… me desculpem.

Entregou o microfone. O salão permaneceu em silêncio absoluto. Nem aplausos, nem vaias.

Selena saiu dali com as bochechas queimando de vergonha, o coração acelerado. Do lado de fora, parou por alguns segundos observando as árvores balançando com o vento. Nunca havia reparado em como seus movimentos eram sincronizados.

Desceu os degraus — e alguém segurou seu braço.

— Vai sair assim? Depois daquele discurso? Sem falar comigo? O que eu te fiz, Selena?

Justin. Os olhos dele estavam cheios de preocupação.

Ela respirou fundo.

— Não me resta muito tempo — disse, tocando o rosto dele. — Justin, eu sei que você sempre sentiu algo por mim. Sempre soube. Você é meu amigo… e eu tive medo de estragar isso. Mas já estraguei. Eu nunca disse o que sentia porque me faltou coragem, mas eu te—

A palavra não saiu.

Tentou de novo. Nada. Nenhum som. Levou a mão à garganta, desesperada. Justin a encarava, confuso.

Selena sorriu. Um sorriso triste, sincero. Ele entendeu. Pelo menos aquilo.

Beijou-o suavemente e soltou sua mão antes de sair correndo.

Sentia-se tonta. Tropeçou algumas vezes. Reparou que as árvores se inclinavam na direção em que corria, como se a acompanhassem.

Ao chegar em casa, não encontrou os pais. Subiu para o quarto em desespero.

Ofegante, com o peito apertado, olhou para o chão coberto de folhas. O tronco da árvore estava escuro, frágil, quase morto.

Selena encarou a árvore.

Quando o tronco cedeu e caiu da raiz, Selena também caiu.

De uma vez só.

[FIM]

6 comentários:

  1. Seu eu amei esse plot meu amor?????? EU AMEI MUITO!
    Primeiro que nem sei o que falar sobre, porque tudo o que eu achava que esse conto seria ele foi o contrário. Eu JURAVA que ia ter lição de moral e que a Selena iria aprender com os próprios erros MAS TU SIMPLESMENTE MATOU A GAROTAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA. Ai Mirela o que eu vou fazer com você??????
    Novamente eu quero elogiar mto a escrita e a história que, querendo ou não, nos dá uma lição de moral sim. Enfim, eu n tenho palavras para dizer o quanto admiro e sou fã pq vc já sabe disso tudo.
    Posta mais, posta logo tudo
    te amo, love u, n sei mais falar te amo em outras linguas.

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    1. SURTO! CRISE! ME AJUDA!
      Fico feliz que tenha gostado. Eu disse que você poderia ficar surpresa com o final e ficou.
      Demorei UM ANO para escrever essa fanfic. Achei até que meu computador tinha datado errado, mas UM ANO. Tinha que surpreender, não é?
      Eu dando lição de moral através de estorias me sinto o próprio Machado de Assis haha.
      Sabe que estou preparando algo já.
      Te amo muito, I Love You, Amo-te, T'estimo e Ti amo porque estou aprendendo italiano agora.
      Beijos, Mirela.

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  2. mto bom
    triste pela selena ter morrido antes de falar com o justin achei que ela conseguiria

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    1. Fico feliz que tenha gostado.
      É, infelizmente não conseguiu :(
      Beijos, Mirela.

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  3. pensei que ela conseguiria no final mas morreu
    adorei a lição de moral da fic temos que cuidar da nossa vida e pronto Selena mereceu o castigo pelo que fiz com a demi coitada

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    1. Fico feliz que tenha gostado. Tanto da estoria quanto da lição de vida que coloquei, eu acho interessante esse tipo de construção.
      De fato, ela mereceu o castigo, mas será que mereceu morrer por ele!?
      Sim, eu fiquei triste com a Demi também haha :(
      Beijos, Mirela.

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